O transporte é público, meu corpo, não!

Nesta edição temos duas matérias sobre transporte público, o que sempre vai ser pauta de jornais dado ao crescimento das cidades brasileiras e à necessidade de nos movimentarmos para trabalhar, estudar, fazer compras, entre outras ações comuns. Na matéria sobre a reforma do Terminal Pauliceia do repórter Beto Silva, na página A 5, ficamos sabendo das dificuldades de uma obra desse porte em pleno funcionamento do sistema de transporte público. O terminal adaptado tem gerado reclamações, seja pela falta de cobertura adequada para proteger das últimas chuvas ou pelos problemas de atraso de ônibus, que precisam esperar vagas para estacionar. Como a obra deve demorar um ano, a prefeitura terá que buscar outras formas para amenizar essas questões, mas uma adaptação aqui e outra ali podem dar conta desses meses, talvez, com um pouco de irritação por parte do usuários e desgaste político do Poder Público.

Mais difícil de resolver é uma questão que parece enraizada na matriz da nossa sociedade: o assédio, que ocorre SIM no nosso transporte público, colocando em situação vexatória meninas, moças, mulheres e senhoras. Uma pesquisa demonstrou que até mesmo os homens que usam o sistema apontam como grave o problema. Pelos dados do levantamento, das mulheres ouvidas 75,8% apontam o problema como grave e 48% delas declararam conhecer uma mulher que já tenha sofrido algum tipo de abuso. Já entre os homens, 60% entendem o assédio como uma questão grave a ser resolvida e 36% dizem conhecer uma mulher vítima de abuso no transporte. Foram ouvidas 319 pessoas em quatro regiões diferentes da cidade. Diante disso, a municipalidade e a empresa gestora do serviço iniciaram a campanha “Me Respeite”, que tem por objetivo conscientizar as mulheres e incentivar denúncia.

Contudo, apesar de campanhas como essas serem importantes para o combate do problema, ainda vale entender o que existe na outra ponta, com se formam os assediadores. Que tipo de raciocínio ou falta de raciocínio leva um indivíduo a agredir de forma tão vil outra pessoa, nem falando aqui só de mulheres. Não se trata de falar de homem e mulher, mas de seres humanos dignos de andar na rua ou de ônibus sem serem confundidos com um objeto de prazer sexual. Dizem que estamos num tempo sem limites, mas há sim um limite mais que claro para tudo, especialmente, para nossos corpos que são acima de tudo o espaço de nossas decisões. Assediar é crime, além de ser a demostração mais cabal de que ainda não entendemos como dizia Paulo, o Apóstolo: tudo me é permitido, mas nem tudo me convém!

(Alessandra Morgado)