Ode à Eliana

Ao meu lado, aqui na redação do Jornal de Piracicaba, fica minha colega de trabalho Eliana Teixeira, jornalista séria de voz potente, que comandaria muito bem um programa de rádio com uma voz tão bela. Ela também sempre me inspira pela postura, uma altivez que só mulheres muito fortes sabem imprimir à própria figura. Eliana é assim, altiva, sóbria e focada. É também uma combatente, uma lutadora, que já experimentou parcela boa das dificuldades da vida: mulher, jornalista, trabalhadora e negra. Pois é, em pleno 2018 ser negro ainda é uma dificuldade e não apenas uma característica física que deveria embelezar nosso mix cultural-genético-tupiniquim. Salve a miscigenação!

Eliana não me disse isso de forma clara e não fica se lamentando, ela resolveu existir e resistir pela própria existência. Uma afronta que esse país cheio de caras ainda não aprendeu a receber com amor, com acolhimento e, muitas vezes, trata como se fosse um defeito. Lamento por Eliana, lamento mais ainda por aqueles que insistem em ver diferença onde só existe libertação, diversidade, eloquência e riqueza cultural. Não deveria existir Dia da Consciência Negra, comemorado neste 20 de novembro, porque todos os dias deveriam ser dias de se salvar o negro, que suou na construção desse país.

Mais engraçado é que foi uma mulher a assinar a Lei Áurea em 13 de maio de 1888 e, todos os dias depois de tanto tempo, ainda não libertamos nossas mentes da subordinação ao preconceito. Elianas nos jogam na cara todos os dias que melanina a mais ou a menos não faz caráter, não constróe obra e nem sustenta famílias.

A única raça pura neste país tem pelo menos umas dez misturas, ainda que seu fenótipo indique olhos azuis, pela branca, nariz arrebitado, lá no segredo dos genes estão todos os amores vividos por nossos antepassados e cruzamentos que podem até não estar visíveis, mas existem. Há um estudo científico que indicou 8% dos homens que vivem nas fronteiras do antigo Império Mongol, na Ásia, são descendentes de Genghis Khan (1162-1227), o que significa dizer 12 milhões de pessoas.

Genghis Khan, para quem não se lembra, foi um grande guerreiro nômade que levou os mongóis a governar a maior extensão contínua de terras da história humana. Para garantir seu domínio, ele ia deixando filhos pelas terras que conquistava, mas isso só foi confirmado com o avanço da genética.

É a genética que mostra nossa verdadeira cara, nossa história e laços familiares, sem fazer alarde apenas com um furinho no queixo ou uma característica que passe pelas gerações. Mas, sendo tão democrática e carinhosa com a raça humana, acho que a dona genética deve lamentar profundamente quando percebe que um traço, apenas um traço foi escolhido de todo seu esmeroso trabalho de milhões de anos, desenvolvido com a função de proteger o ser humano nos locais com maior incidência solar, é considerado defeito, algo menor. Todos os dias, ela deve voltar às planilhas e repensar: onde foi que errei? Com certeza não foi na pele, mas na cabeça de quem enxerga cor onde só há beleza.

(Alessandra Morgado)