Oitenta anos…Quem diria?!

“Eu nasci! Há dez mil anos atrás!”… Menos, menos! Eu nasci apenas 80 anos atrás. Dez mil anos é exagero do Raul Seixas. Coitado do mundo: se com 80 anos produzi tanto estrago, imagine com 10 mil anos. Nem pensar!

Me puseram no mundo no século passado. Dia 4 de setembro de 1938. Pobre de minha mãe: eu fui o oitavo entre doze. Quatro ainda vivos, disputando entre si quem vai primeiro e quem vai ser o último. Como todo defunto precisa de padre, pela lógica, o último serei eu. (Cruz credo!)

Fui produzido em Doutor Pedrinho, Santa Catarina. Se você é ecoturista, coloque na sua agenda de viagens Doutor Pedrinho entre os lugares que você precisa conhecer antes de morrer. Ou você morrer, ou Doutor Pedrinho. Doutor Pedrinho é um lugar prendado: muito sossego, cada um que morre lá é anunciado pelo sino da igreja. Do cemitério você tem uma visão privilegiada da cidade. Situado num morro, você fica curtindo a paisagem, se não despencar de lá.

Doutor Pedrinho já foi um celeiro de vocações. Há anos atrás contamos 94 vocacionados, entre seminaristas e religiosas. Inclusive uma família completa foi para o seminário ou convento. Até o pai e a mãe. Eu também fui. Hoje o Ibama catalogou os vocacionados para padre como uma espécie em extinção. Aliás, não só em Dr Pedrinho.

Nasci sob o signo de Virgem. Só o signo! Daí minha queda para o celibato. Só para o celibato. A virgindade requer heroísmo. Como celibatário, aderi à impertinência de Millôr Fernandes: “Afinal, por que só os padres têm o privilégio de celibato?!” Devia estender para todos.

Aí, me fizeram padre. Cinquenta e um anos de padre. Somando com o tempo de seminário, foi uma vida toda centrada neste mistér. Trabalhei com o povo em várias paróquias, inclusive e principalmente na Catedral de Piracicaba trinta e seis anos de Catedral. É uma vida.

Perdi alguma coisa nesses oitenta anos? Perdi as hemorroidas, dois dentes, duas hérnias, um punhado de cabelos e mais vexatório o penduricalho abaixo do umbigo. Coitado. Está aposentado! Não levanta nem a maçarico, quanto mais a pílulas azuis ou brancas. Só serve para escoar o produto da bexiga. E, por causa de uma disfunção na próstata, cada vez mais solicitado. Dize-se que na velhice, estreita o cérebro e dilata a bexiga, Comprovado!

Espiritualmente, o que mais perdi foi o povo. O padre se sustenta psicologicamente no contato com o povo. Ao completar 50 anos de padre, perdi o povo. Ou melhor, me roubaram o povo. Na paróquia onde atuava, fecharam-me as portas e, até hoje, salvo algumas exceções, não posso celebrar nada. Uma ou outra paróquia ainda me dá chance. Fazer o que? Não há pior censura que a censura da Igreja.

O que me espera? Oitenta anos marca a contagem regressiva. Dizem que a idade é o menor sintoma da velhice e, de fato, não me sinto velho. Nem incapaz. Marcel Proust definiu muito bem esta situação: “um velho é apenas um adolescente que viveu demais. No corpo de um velho continua vivo um adolescente.” A esta altura da vida a minha aspiração se confunde com a de Jorge Luiz Borges: “Se eu pudesse viver novamente, na próxima vida trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo do que tenho sido. Bem poucas coisas levaria a sério. Seria até menos higiênico. Amém.”

 

Diocese de Piracicaba
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(Padre Otto Dana)