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O gato dentro de mim 144
M. Dupont White
18/10/2015 14h47
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Adelie carregava-o nos braços de lá para cá.

E ele se largava em seu colo.

Como para a maioria dos gatos, colo humano só é atrativo quando está imóvel e, ainda assim, quando o gato quer.

Mas com Adelie era diferente.

Ela emitia ondas vibratórias de bem estar por todo seu corpo e quem quer que dela se aproximasse podia sentir aquele “banho” de tranquilidade.

Rouge era um gato de cara brava, mas bom coração, pelos fartos e escuros.

E o colo de Adelie era seu refúgio seguro naquela casa barulhenta.

Gatos gostam de silêncio e tranquilidade.

Se houver ainda um lugar quente para se deitar, melhor ainda.

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Ilustração: Maria Luziano

Ele gostava de ficar ao sol por horas a fio.

Mesmo com aquela pelagem farta, o sol da manhã lhe era acolhedor o bastante para ele abandonar as almofadas da casa e se esparramar pelo gramado.

Nem sequer os pardais que voavam baixo lhe atraíam o interesse.

Ele queria mesmo sol e água fresca.

E quando o sol se punha a pino, próximo do meio dia, ele se levantava, colocava as duas patinhas para frente, abria uma boca enorme e seu espreguiçar dava um adeus ao gramado.

Agora era a hora de ir para a cama de Adelie.

Sim, ele era um gato metódico, de hábitos tranquilos e neuróticos.

Naquela hora, Adelie não estava na cama, mas andando de um lado para o outro da casa. Mas ele gostava mesmo da cama dela.

Talvez fosse o cheiro daquele travesseiro de plumas lhe inebriasse os sentidos, ou mesmo a velha colcha de fuxicos que o atraísse para lá.

Não importa o motivo, pois era naquela cama que ele tinha o sono mais duradouro e profundo.

Lá pelas três da tarde, ele despertava, agora com Adelie sentada ao seu lado, com uma mão, ela lhe afagava de mansinho para não acordá-lo; com a outra, empunhava uma daquelas longas agulhas de crochê, que, como ninguém, sabia transformar fios desconexos e coloridos em roupas delicadas para bebês.

E ele a acompanhava com o olhar atento, cada ponto cruz, cada volteio da agulha.

O gato era seu discípulo.

Foi naquele tempo que eu aprendi que gato fica onde quer.

Eu entrava no quarto dela, abraçava o gato e o levava comigo, colocava-no no meu colo ou na mesa da escrivaninha onde estudava.

Mas no mesmo segundo o gato se levantava e, glamurosamente, voltava para a cama de Adelie.

E eu voltava de novo, pegava o gato ainda uma vez mais; mas o gato, repetia tudo de novo, fazia meia volta e lá estava ele na cama de Adelie.

Foi assim que eu passava mais tempo no quarto de Adelie do que nos outros ambientes da casa.

Adelie já era uma senhora de seus quase oitenta anos.

E eu me lembro que ela sempre dizia: esse gato um dia vai aprender a tricotar e assim vai contar as minhas histórias.

Mas o tempo conta outras histórias e tem rumo próprio: o gato veio a morrer primeiro. Talvez foi levar as mil histórias de Adelie para as almas de outros felinos.

Só muitos anos depois, já quase centenária, Adelie foi se encontrar com Rouge.

E, em algum lugar, ainda tricoteiam histórias.

Muitas histórias, entre um crochê e um miado.


M. Dupont White

Vive em Paris com seus gatos. O texto foi traduzido por Marcelo Batuíra Losso Pedroso.


 
 
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