,
Clique e
assine o JP
Televendas: 3428-4190
Classificados: 3428-4140
Comercial: 3428-4150
Redação: 3428-4170
Últimas notícias:
  • MP processa Barjas e Pedro Mello por convênio
  • Comunicação na indústria é tema de palestra
  • Sindicato dos Metalúrgicos protesta contra reformas

Crítica 10º Fentepira: Lodo, espetáculo que precisa riscar o chão e tomar um partido
Alexandre Mate
12/11/2015 16h25
  |      
ENVIAR     IMPRIMIR     COMENTE              
 
20151112-9-1.jpg

(Creditos: Rodrigo Alves)

Antes de o espetáculo ser apresentado no Saguão 11, no Engenho Central (Piracicaba) — e, fundamentalmente, ao som de Construção, de Chico Buarque de Hollanda —, um conjunto de fotos (que precisa de mais cuidado do ponto exposicional) revela aspectos da deprimente exploração do trabalhador no Brasil. Tal “aquecimento”, bastante épico, tende a alterar e alertar o espírito para a obra que virá: trata-se de Lodo, apresentada pela Companhia Te-Ato de Teatro (Piracicaba).

Com dramaturgia de texto de Ricardo Araújo, duas personagens (ou, mais corretamente, duas figuras: Neguito e Zezito), encontram-se em situação de trancafiamento, dentro de um poço. Assunto bastante recorrente na dramaturgia universal, a dramaturgia criada por Araújo, tendo em vista o tema central (a exploração da classe trabalhadora), é perversamente desenvolvido, em razão de Neguito (o trabalhador) ser absolutamente subserviente, dócil e ingênuo. Se assim permanecer (o que concerne a um direito do conjunto criador), é preciso mudar o programa, que explicita o interesse do grupo em denunciar a permanência do trabalho escravo.

Do ponto de vista da dramaturgia de cena, sob a batuta de Felipe Trevelin e Anelisa Ferraz, é fundamental — porque o naturalismo do cenário, da situação e da interpretação ganha caracterização de teatralidade —, definir- se por uma obra cujo tratamento épico (que transita sem unidade estilística única), pouco a pouco, vai ganhando novos e interessantes contornos. Desse modo, por exemplo, é fundamental, depois dos 15 minutos iniciais, não mais buscar tratamento “naturalista”, como aquele — enfraquecedor do ponto de vista dramático — da reconstituição da morte do Encarregado: a narração da morte pode ser muito mais efetiva no sentido de trazer a imaginação do(a) espectador( a) para reconstituir a cena (e tantas outras). Desse modo, a diegése (narração) pode ganhar mais força do que a mimese (a ação).

Do ponto de vista da interpretação, e também decorrente do texto (que poderia/deveria ser menos retórico e “enxugado”), a dupla de atores João Scarpa e Ricardo Araújo, além de definir contrastes entre si (mesmo havendo sedução em alguns momentos) precisaria trabalhar com mais e densas pausas. Tal expediente, bastante característico do drama, além de conferir tempo para que o público possa se prender à trama, também, pode instaurar camadas emocional de complexização das figuras àquela realidade de trancafiamento.

Por intermédio de Lodo, Muda por Amor e Degredo quero cumprimentar o poder público, que parece investir, como se deve na produção teatral, e, evidentemente, o conjunto de artistas da área teatral de Piracicaba: que têm respondido com beleza, pesquisa e belos trabalhos. Realmente, a arte não pode mudar o mundo, mas pode — como os três trabalhos a partir de temáticas e tratamento diferenciados — estremecer certezas e sensibilizar as gentes.

*O espetáculo Lodo foi apresentado segunda-feira, 9, dentro da mostra oficial do 10º Fentepira


Alexandre Mate

Doutor em história social pela USP e professor do Instituto de Artes da Unesp (São Paulo); integra a comissão debatedora do 10º Fentepira


 
 
Voltar

Comentários

Nome:
E-mail:
Comentário:
 

  • Seja o primeiro a comentar