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Neste dia
Rodrigo Alves
06/11/2015 13h52
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Uma amiga jornalista desabafou esta semana, em tom de brincadeira: “quanta bobeira eu postava em 2012, 2013... Essa retrospectiva do Facebook está me matando de vergonha!!!”.

Ela citava o recurso “Neste Dia”, criado para que o usuário tenha a experiência de voltar ao tempo na rede social.

Concordei com a afirmação, de imediato, e em poucos toques constatei: a minha timeline do passado mais parece uma salada mista.

O que fiz há cinco, quatro, três, dois ou um ano?

Antes mesmo de a ferramenta ser criada pelo bunker de Mark Zuckerberg, aderi ao aplicativo Timehop, o“Neste Dia” dos adictos digitais.

Diariamente, ele te informa também da sua vida passada no Instagram, Twitter e outras redes.

Seria uma graça a ferramenta, não fosse a futilidade das minhas próprias recordações. Revirando o “Neste Dia” ou o Timehop descobri, vejam só, que em 2010 ganhava mais quatro amigos.

Todos virtuais. Nenhum que tivesse qualquer interação em cinco anos.

Nisso as ferramentas foram bem úteis: “quem são estas pessoas?”, pensei.

E rapidamente deletei.

O 4 de novembro na minha timeline foi badalado em vários anos.

A indignação, em 2013, era com a descoberta de que o Brasil estava sendo espionado pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos.

O governo evocou a Declaração Universal dos Direitos Humanos para manifestar repúdio. Interessante, interessante... deixaram de espionar?

Bisbilhotando as memórias virtuais descobri que a noite foi de insônia em 2011.

Cansado de deitar e rolar na cama, desabafei no Facebook.

Atribui a culpa ao barulho do sino da catedral.

O que as pessoas tem a ver com a minha falta de sono?

Postar isso, pra quê?

O relógio está lá há 50 anos, badala a cada hora, e eu sabia bem da sua existência ao escolher o imóvel para morar.

Avançando um pouco mais, lá em 2012, recordo de um colega de profissão, que pediu (no aberto) um mailing especializado em cultura, para desenvolver um “trampo extra”.

Minha resposta, também pública, foi deselegante: “não me faça fazer de graça a única coisa que sei fazer cobrando".

Algumas lembranças virtuais foram boas.

Feliz coincidência de datas, talvez.

A minha timeline pipocou teatro.

É em novembro que me envolvo com a programação do Fentepira.

Rolou uma alegria de saber que mantenho o engajamento na área e que muito aprendi com as companhias nacionais habitando os palcos da cidade.

Causou estranheza não encontrar nada de depressivo.

A resposta, não tão óbvia, está nos “algoritmos” do Facebook, que excluem as memórias negativas.

Nada de posts com seu ex-namorado ou conteúdos de gente morta.

Fofo esse Mark, né, gente?

Está preocupado em poupar as minhas lágrimas e em transformar o meu mundo numa redoma.

A exemplo da Rafaela Ometto, a minha amiga que reclamou da retrospectiva (e motivou este artigo), tenho vergonha de certas postagens.

Mesmo com o incentivo do Facebook para que eu volte a compartilhar as lembranças, são páginas viradas.

Só que o problema dessa pracinha virtual é a vontade grande de deixar um rastro da pequena e vã existência.

Muitas opiniões, muitas notícias, muitos selfies, muito o que expressar... Afinal, o que somos nas redes sociais, se permanecemos ausentes?

Tornamonos, com essa obsessão, propagandistas de nós mesmos.

É desse imediatismo que surgem as besteiras mil, da qual nos envergonharemos.

Depois dessa constatação, tenho permanecido muitas vezes em silêncio.

Pouco importa se, no próximos anos, minhas recordações serão vazias nestes aplicativos.

A sensação que tenho é que as minhas melhores lembranças (e também as piores, inevitáveis) jamais serão contadas por qualquer aplicativo do Facebook.

Estarão apenas na minha memória.


Rodrigo Alves

É jornalista, autor do blog Dando Nota.


 
 
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