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Olhos de ver (primeira parte)
Caio Silveira Ramos
01/11/2015 14h33
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Eu ainda era pequeno, muito pequeno, mas minha mãe percebeu logo que alguma coisa no meu olhar não estava bem.

Talvez eu também até percebesse, mas como o mundo que se me apresentava era bom - e eu não tinha outro olhar para comparar —, me pareceu que tudo deveria ser como já era.

Mas para ela não: eu merecia conhecer o mundo com todos os seus sentidos.

Ela procurou um oftalmologista, depois outro, e outro, e outro.

Foi até Campinas, mas a resposta era a mesma: “isso é coisa de mãe. A senhora é que está enxergando demais”.

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Ilustração: Erasmo Spadotto

Mas ela sabia que não somente os médicos estavam enxergando menos do que deveriam: eu também estava.

Foi então que ela descobriu o jovem oftalmologista Francisco Komatsu.

Já na primeira consulta, enquanto me distraía com um coelho e uma coruja movidos à corda, ele constatou que a visão da mãe estava certa e a do filho, realmente errada.

E o que era pior: era grande o risco da vista se perder para sempre: “dificilmente ele escapará de uma operação”.

Minha mãe perguntou se nenhum outro método poderia ser tentado antes de uma cirurgia. Ele disse que poderíamos experimentar algumas coisas, mas insistiu: “dificilmente ele escapará de uma operação”.

Então começamos a correr contra o tempo: passei a usar óculos, muitas vezes com tampões e artifícios lúdicos para me distrair: para forçar a vista preguiçosa, tapava-se uma das lentes com coisas curiosas como um esparadrapo mágico ou um durex invisível ou até quadrinhos de gibis da Turma da Mônica, chamados pela minha mãe de “televisãozinha”.

Mas eu devia me cansar daquela ginástica, porque várias vezes ela me pegou com os óculos virados de ponta-cabeça: eu queria deixar meu “olho melhor” livre para ver o que o outro desperdiçava.

Além das consultas periódicas com Dr. Komatsu, passei a frequentar também a sala de uma técnica-ortótica, uma moça muito doce que me colocava diante de quadros com letras e figuras, e também de aparelhos curiosos que serviam para exercitar meus olhos: em um deles, eu deveria, como se manejasse um periscópio, colocar um leão desenhando em uma jaula.

No outro, um soldadinho tinha que ir para dentro do quartel.

Minhas mãos tentavam dirigir aqueles lemes, para frente e para trás, mas frequentemente as figuras iam para um lado e a jaula e o quartel para o outro.

Eu não conseguia, não conseguia: era traído pelos meus próprios olhos.

Um dia cheguei a dizer que tinha conseguido.

Mas logo contei a verdade: minha visão parecia querer o leão e o soldado livres para sempre.

Em casa também havia exercícios.

Recortava-se de um jornal um artigo comprido.

E eu, com uma caneta hidrográfica vermelha, tinha que fazer um pontinho dentro de cada letra que tivesse uma parte fechada, como um “a”, um “o”, um “g” ou um “p”.

Outra brincadeira interessante era colar um grande desenho (a figura do Cebolinha, por exemplo) em uma placa de isopor fina e, com uma agulha — com a parte em que eu segurava protegida por um esparadrapo cuidadosamente colocado por minha mãe para não ferir meus dedos e meus olhos —, furar todo o contorno da figura: quanto mais juntos os furos melhor.

E havia também o terrível colírio guardado na geladeira.

Eu confesso que não me incomodava com as gotas geladas caindo nos meus olhos.

O que me intrigava, depois que minhas vistas se desembaçavam, eram as gotas que, quase que escondidas, teimavam em envidraçar os olhos de minha mãe.


Caio Silveira Ramos

Servidor público, escritor e compositor de sambas.


 
 
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