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Dona Clarice, imortal
David Chagas
14/12/2015 14h46
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Devia ter dezoito anos quando a chamei por telefone pela primeira vez.

Servi-me de aprendizado seu: “o que sinto, não ajo. O que ajo, não penso. O que penso, não sinto. Do que sei, sou ignorante. Do que sinto, não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse”.

Tanto foi que agi sem pensar e jamais me esqueci. Parece-me ter falado com ela ainda ontem.

Encantou-me seu jeito, língua meio travada, erres bem marcados, como se os falasse em dobro, lentidão no exercício.

Era sábado.

Lembro-me disto com tantos detalhes que preciso pensar para estar certo de não ter sido nesse último fim de semana o prazer da primeira conversa.

Falou-me do filho ali próximo dela e se encantou com o nome de uma de minhas irmãs, repetindo-o sem parar.

Cybelle, Cybelle, dizia, e mostrou, depois de perguntar muito, que nós, os quatro, juntos, formávamos esta fileira de contas juntadas para amar os outros. Ao descobrir os anos que contava, espantou-se.

Quis saber como descobrira tão cedo sua obra e o que via no seu texto, por que me interessava por ler seus escritos e saber dela e quem me provocara estes desejo.

Ela mesma se achava uma figura ao mesmo tempo estranha e fascinante.

Fiquei num estado de emoção perturbador e, depois, ao invés de contar e contar, juntei seus livros e me pus a descobrir o que neles se escondia.

Eu lhe dissera que sonhava escrever crônicas como as suas onde falava de si e dos seus de forma única.

Seus dois filhos frequentavam meus olhos tanto quanto os meus, porque lia e relia as histórias em que falava deles, trazendo-os para junto de mim.

Conversamos sem que soubesse ao certo o porquê daquele ímpeto que me provocara o contato com escritora a quem me dedicara todo aquele ano graças à Cida Bilac, a professora que me orientou para a leitura de sua obra.

Até hoje não sei como suportei tamanha ansiedade, antes de falar-lhe.

Ou teria sido medo?

No instante em que o telefone chamado atendeu, não sabia o que dizer. “ - Dona Clarice?” “Sou eu mesma”!

Fiz então, uma vez mais, o que aprendi com ela: entreguei-me ao instante.

“Nada existe de mais difícil do que entregarse ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa.” Venci.

Havia, naquela tarde distante, um desejo de prender o tempo, para prosseguir conversa, ouvindo sua voz, sabendo que me entendia, que era mulher comum quando não escrevia (ou também seria escrevendo?) e desejava contarme dos filhos, do seu hábito de fumar compulsivamente, de fazer a feira, ela mesma, para abastecer a casa, de cuidar do filho mais novo, um pacote de presente, ali, a seu lado.

Falou muito. Contou-me de suas viagens pelo mundo, casada que foi com um diplomata, como se me ensinasse o ofício, caso um dia viesse fazer o mesmo.

Quase uma profecia.

Não passei, quando estive a serviço do governo brasileiro, pelos países onde esteve, mas trabalhei com muitos que estiveram ao lado dela porque trabalharam com seu marido quando ela suportava, nas embaixadas, esta verdade inventada.

Agora, passados anos desta conversa e de outras tantas que tivemos, passado também o impacto de sua morte na hora da estrela, sem tempo para um novo sopro de vida, dona Clarice ressurge de forma surpreendente, pousando reluzente em todo o mundo.

Nunca um escritor brasileiro foi tão lido por tantos em traduções precisas e há, pelo país e pelo mundo, um festival em torno de sua obra e de seu nome.

Hora de Clarice, Clarice Lispector, lírio brotado no peito com claridade única, reinventada neste ano de seus 95 anos.

“Eu te deixo ser; deixa- me ser, então”.

Com ela presente, a palavra atinge a quarta dimensão e eu entendo, desentendo, descubro, lendo, minha ancestralidade e a encontro por um de seus livros no colo de minha mãe.

Escarafuncho ainda mais a memória e encontro em meus pais, a forma mais recente do meu passado, da vida antes de mim, e agradeço, porque sou antes, sou sempre e, em alguns instantes, serei nunca.

Como dona Clarice ensinou.


David Chagas

É jornalista e professor.


 
 
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