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Dos galhos de uma embaúba
Edu Campos
24/02/2016 12h19
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Nunca sei o que escrever.

Sou pego de surpresa toda semana.

Um ruído me faz olhar para trás quando começo.

Dos galhos de uma embaúba salta uma alma-de-gato, essa ave bonita e silenciosa.

É um parente dos anuns.

É o que sei.

Mas o que ela ganhou em beleza na plumagem e na cauda longa, perdeu no canto.

Seus parentes brancos e pretos atravessam os campos em bandos, de cerca em cerca, com um lamento sonoro que é quase uma assinatura das tardes da nossa paisagem.

Me chamou a atenção e me deu um assunto.

Mas eu não sei mais nada sobre almas-de-gato.

O nome me intriga. Antes estava procurando material histórico, porque a minha grande ambição — ela é quase do tamanho de uma caneta — é a de um dia me tornar um cronista histórico.

E toda quarta-feira eu viria preencher este espaço com notícias de 1800 ou 1700.

Mas entre ser um leitor de textos históricos e um cronista dessa mesma História vai uma distância bem grande.

Então eu tenho que me contentar em comentar ou reproduzir uma coisa ou outra que vou encontrando.

Como um texto sobre a história de São Pedro que encontrei recentemente em alguma biblioteca e que começa assim: “Em 1856, quando Piracicaba foi elevada a cidade, igualmente foi creada a capella de São Pedro, que então não passava de um bairro sertanejo, aos lados do Picadão, que era o caminho de Brotas, São Carlos, Araraquara, Dois Córregos, Jahú e outras ricas zonas do Oeste paulista, para onde de preferencia affluiam os lavradores de café. //Encostada à serra de Itaquiry, de cujas culminancias se avistam todo o valle do Piracicaba e Tietê, as montanhas de Botucatu e um extenso horizonte, a perder-se pelo sul do Estado, a nossa primitiva capella era o pouso obrigado de todos os viajantes, que nella encontravam um clima delicioso, uma população hospitaleira e as saudáveis diversões da caça e pesca, de que ainda é bastante fértil o pitoresco valle do Piracicaba, que comprime o município entre o rio e a serra, numa extensão de quatorze léguas até a confluência do Tietê, já no município de Dois Córregos.”

Encontrei o texto no volume XVII da Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo, de 1912.

Mais de cem anos, já!

O título do artigo é “Resenha Histórica do Municipio de São Pedro do Piracicaba”, e é assinado “pelo Dr. Julio Soares Caiuby”.

Capaz que a existência dessa pequena resenha interesse a alguém em Piracicaba.

A mim não interessou muito.

2016-02-23-04.png

Ilustração: Erasmo Spadotto

Essa História feita de nomes e documentos de cartório é parecida com uma exposição de molduras sem quadros.

Nunca se sabe o que aconteceu de fato.

Fica um histórico oco, cheio apenas de nomes de placas que acabam nomeando ruas e praças.

Logo em seguida diz o Dr. Caiuby que “Os mais antigos moradores eram oriundos de Itú, Piracicaba e do Sul de Minas, notando-se entre elles a nobre família de Joaquim Teixeira de Barros, falecido em 1897, com 106 annos de edade, (...)”.

Não estou desprestigiando nem tirando o valor do texto do Sr. Caiuby, de quem nunca ouvi falar.

A sua disposição em pesquisar uma parcela do histórico de uma localidade e publicá-lo é extremamente louvável.

O que é meio cansativo é esse papo de “nobre família”, tão próximo daquele “vossa excelência” do plenário da Câmara dos Deputados.

Essas famílias que entram para a História são sempre nobres, ainda que abriguem todo tipo de facínoras e pervertidos.

Basta lembrar Henrique VIII, rei da Inglaterra.

Na Europa já não era diferente.

E aqui... bom, aqui fica parecendo que não foi uma multidão de cativos sem nomes que fez todo o trabalho.

E é claro que muito mais gente já percebeu e escreveu sobre isto com muito mais clareza que eu.

Do trecho citado me fica a curiosidade sobre o que viu e ouviu um homem que morreu aos 106 anos em 1897.

Acho que, por hoje, é a minha notícia de 1800.


Edu Campos

É fotógrafo e autor do livro Até a Margem do Grande Rio.


 
 
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