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Galo garnisé
José Faganello
26/04/2016 11h40
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“O galo, trombeteiro da manhã”. Todas as tardes, menos segunda-feira, há um grupo de sócios que frequentam a quadra de bocha ou a sala de jogos no CCP (Clube de Campo de Piracicaba).

Sou um dos raros frequentadores da quadra de bocha. Quando comecei praticar este esporte há uns 35 anos, havia três canchas, hoje são apenas duas, que ficavam lotadas e com fila de espera. No baralho era a mesma coisa.

Com a lei imposta: ‘proibido menores de 18 anos’, os aficionados foram partindo um a um para o além. Sem renovação, estamos prestes a perder esse esporte, por falta de jogadores. Embora a turma do baralho tenha perdido mais membros, novos sócios amenizaram as perdas.

Começamos jogar a partir das 14h30 e terminamos por volta das 17h. Alguns saem rápido, outros se sentam em frente ao Bar do Du para travar um bate papo gostoso, no qual predomina esporte, política, confidências, piadas e raramente, fofocas.

Na penúltima sexta feira, estávamos em quatro, Amim, Pinga, Celso e eu. Após uma série de comentários sobre o impeachment, houve uma guinada de assunto, provocada pelo Celso. Contou- nos que tem uma chácara fronteiriça a uma zona rural, na qual costuma ir dormir após o baile de Sábado no Saudosista.Tem um vizinho, que inopinadamente resolveu livrar-se das galinhas que criava. Chamou o caseiro e o presenteou com várias galinhas caipiras e algumas da raça garnisé (originária de Guernesey - ilha da Grã Bretanha), entre elas um galinho garnisé, que no Grande Dicionário Larousse, tem dois significados: 1. Diz-se de variedade de galinha pequena, originária de Guernsey .2. Pop. Homem de baixa- estatura, arrogante e provocador. Desabafou-se, dizendo que o maldito galinho o está tirando do sé- rio.

O caseiro colocou as galinhas num galinheiro no fundo da chácara. Ele tem aramado bem alto. Fez uma pausa papara pedir mais uma Brama e continuou. O galo voa de tal forma, que consegue, tanto sair como entrar no galinheiro. Ele fica a maior parte do tempo com as galinhas. Arrisquei, o que há de errado com o galo? “De manhazinha de domingo, após chegar do baile, ele vem cantar bem embaixo da janela de meu quarto. Ordenei que o caseiro matasse o galo malvado.” “Que absurdo”, falamos em coro. “Absurdo foi o que aconteceu.

O caseiro, na primeira tentativa não conseguiu pegar o galo; chamou mais cinco jovens, amigos dele que ficaram das 09h até o meio dia, sem sequer relar no galo. Estavam exaustos e cobertos de suor.” Começamos a tentar dissuadi-lo de dar cabo ao galo. O Pinga disse, “esse galo deveria ser o mascote das nossas Olimpíadas. É um super atleta, tanto na corrida como no salto, sem contar seu desempenho, dando conta de tantas galinhas.”

O Amim, percebendo que o Celso não mudava de opinião, tentou uma mediação que poderia ser aceita pelo Celso, mas no meu entender, era aleijar um atleta, que além de tantos atributos, ainda vinha homenagear seu anfitrião ingrato, pois fazia questão de ser o primeiro a acordá-lo. Meu avô João Sachs dizia: “Quer uma vida longa, durma com as galinhas e acorde com os galos”.

A proposta do Amim foi a de cortar o nervo de uma das asas, evitaria matá-lo e de deixar inúmeras viúvas. O Celso perguntou minha opinião. Disse que nunca matei sequer passarinho e tinha uma lembrança de meus 10 anos, quando assistia meu primo farmacêutico, Antônio Sachs, já falecido, que criava soberbos galos índios de briga. Passava horas cuidando, alimentando e treinando-os. No treino era colocava uma capa de couro no bico e nas esporas. Não sei se ele apenas criava para vender ou era para disputar na rinha. Nunca vi um machucado.

Acrescentei que minha avó Rosa Venturini, tinha galinhas caipiras e um enorme galo mestiço, também um galinho garnisé, que infernizava o grandão, incapaz de atingir o rápido e incansável galinho, acabava por desistir, deixando o território para o rival. Lembrei-lhe que até Shakespeare imortalizou o galo numa de suas obras primas Hamlet - ‘O galo, o trombeteiro da manhã’. Tive de sair, ontem me encontrei com o Celso. Disse-me que outro vizinho se interessou pelo galo, conseguiu levá-lo e está feliz na nova morada.


José Faganello

é professor


 
 
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