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O filósofo da modernidade líquida
Jaime Leitão
10/01/2017 10h41
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Morreu ontem, aos 91 anos, em Leeds, norte da Inglaterra, um dos filósofos mais importantes dos séculos 20 e 21, o polonês Zygmunt Bauman.

A sua vida foi repleta de acontecimentos , com participação ativa em fatos marcantes e traumáticos que marcaram a história do século passado.

Quando jovem, serviu como soldado na Segunda Guerra Mundial, pelo Exército da União Soviética; nas décadas de 1940 e 1950, foi militante do Partido Comunista polonês.

Sua grande contribuição para a filosofia e a cultura no mundo contemporâneo deu-se em obras que foram um tanto proféticas ao prever o nascimento da ‘sociedade líquida’, na qual as relações iriam se tornar nas décadas seguintes cada vez mais efêmeras, com o individualismo dando as cartas e imperando no convívio entre as pessoas.

Foi ao mesmo tempo crítico desse mundo líquido, sem solidez, mas também enfatizou a revolução tecnológica que estava por surgir. Bauman afirmou em uma das suas obras:

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte”. É claro que ser visível não basta. É necessário que a visibilidade seja acompanhada de um conteúdo, de uma articulação de ideias que justifique a presença daquele que quer ser visto e reconhecido como indivíduo. Chegou o momento de sair do meio de uma multidão que sempre foi anônima, com a descoberta da possibilidade de estar presente e opinar sobre os mais diversos assuntos, inclusive os mais íntimos. As ideias de Bauman não eram presas, engessadas, possuíam também uma certa liquidez como na sua afirmação:

“Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem”.

Bauman tem razão.

Uma sociedade, sem liberdade para se expressar e para questionar o sistema no qual está inserida, não evolui, pelo contrário, tende a retroceder a uma condição de mera reprodutora do poder que a domina e a submete a todo tipo de atrocidade.

Até os seus últimos dias, Bauman continuou produzindo, escrevendo, questionando.

O seu último livro, publicado recentemente no Brasil, traz no título uma pergunta: ‘A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós’? Um dos seus livros mais importantes, que trata das relações humanas, é ‘O Amor Líquido’, que analisa o amor nos tempos de hoje, em que as relações muitas vezes começam no formato virtual e quando atingem a dimensão do real perecem porque foram plasmadas no discurso, na linguagem escrita, sem a presença do outro, de carne e osso, dependendo da mediação de uma tela.

E viver agarrado à tela, seja do computador, seja do celular ou do tablet, pode nos levar a uma prisão da qual será impossível sair se não observarmos com atenção como se dá esse processo, ao mesmo tempo líquido e pegajoso.


Jaime Leitão

é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação


 
 
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