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Quando FIM é o começo
David Chagas
19/03/2017 13h09
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Com o livro de Fernanda Torres em mãos. De cara, soube estar com obra de peso.

Interrompi um instante a leitura para agradecer.

Ter vindo ao mundo antes me permitiu saber de livros e de histórias para reconhecer sua maturidade ao apresentar ao público, sua primeira obra, das melhores da literatura contemporânea.

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Ilustração: Maria Luziano

Já a reconhecia notável na televisão, no cinema, no teatro. Agora, também na literatura. Quando, aos vinte anos, trouxe para o Brasil a Palma de Ouro do Festival de Cannes por sua atuação em Eu Sei que Vou te Amar, ao lado de Thales Pan Chacon, a menina se agigantou para os meus olhos.

Seus pais? Sabia deles. Fernanda, a filha, não nega e prova de diferentes maneiras que sair aos seus garante a espécie. Penso que, ninguém mais que eu, teve por sua mãe admiração e apreço, sentimentos iguais aos que, hoje, tenho por ela. Fernanda, a mãe, foi, sem dúvida, um dos ídolos da minha juventude e Fernanda, a filha, me aviva a velhice.

Guardava em mim uma vontade louca de conversar, estar com as Fernandas, assim, um ao lado do outro, discutindo coisas de interesse comum. Fiz um pouco disso, com a mãe, quando fui vê-la fazendo Dona Doida e trocamos conversa sobre Adélia Prado, outra brasileira que reveste o Brasil em ouro. Notável poetisa, esta. Notável atriz, aquela. Notáveis Mulheres.

Numa de minhas viagens ao Rio, pude ver Fernanda, a mãe, em Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, de Fassbinder. Pensei: vou ter com ela. Tratei de comprar o melhor assento disponível para vê-la de perto.

Ao final, perturbado pela emoção, tentei encontrá-la. Não foi possível. Cansada, trazia na expressão do rosto e no olhar emoção ainda maior da que transmitira a seus espectadores. Soube depois, lendo Sérgio Brito, ser esta sua maior interpretação.

Será? É grande em tudo. Naquela noite distante, pude abraçá -la quando se preparava para deixar o teatro.

Eu, suspenso no ar, absorvendo aos poucos o que vira e ouvira. Ela, visivelmente cansada por ter-nos proporcionado tudo aquilo. Não bastasse o que nos ofereceram no cinema, no teatro e na televisão, Fernando Torres e Fernanda Montenegro, como se desejassem premiar seu público, entregaram Fernanda Torres aos palcos, às telas, à literatura.

Por sua causa escrevo hoje. Terminei há pouco de ler ‘Fim’, obra que dá início a sua trajetória literária.

Ao final, num gesto de elegância e delicadeza, expressa gratidão a todos os que, de algum modo, contribuíram para o livro chegar às livrarias. O que diz Fernanda a alguns de seus benfeitores estabelece mais um ponto comum entre mim e ela: a gratidão.

Há menos de um mês enviou-me com delicada dedicatória sua primeira obra.

Atendia a um pedido meu, feito após rever uma entrevista em que ela e a mãe falaram do trabalho, da vida, de filhos, de netos, alimentadas por cultura ímpar, tão facilmente observada na sabedoria revelada e na modéstia demonstrada ao tratar de assuntos seus.

Mãe e filha são unanimidades entre todas as gerações e recebem, onde quer que estejam, este reconhecimento. Uma semana atrás, Fernanda Torres esteve no Altas Horas. Sua presença deu brilho ao programa.

Ao finalizar a leitura, extasiado diante de obra densa, intensa, me perguntei como faria para falar dela. Tanto queria contar. Decidi: melhor o silêncio que o erro.

Para ter outra vez a turbação experimentada diante da maturidade da obra não preciso escrever.

Basta revisitá-la como fiz com Machado, Eça, Clarice e tantos outros que também souberam tratar da ‘asfixia da vida doméstica e das tentativas de libertação’ de diferentes formas, mas com a mesma ironia cáustica de Fernanda, em quadros descontínuos, que não se espraiam, pelo contrário, ajuntamse e dão corpo à obra, forjada pela sensibilidade evidente e pela inteligência privilegiada da autora.


David Chagas

É jornalista e professor.


 
 
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