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Transplante de coração, uma perspectiva atual e real
Américo Tângari Jr.
16/04/2017 06h00
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Que o diga um homem calmo e bem-humorado de 47 anos, que leva uma vida normal como todo bom cidadão brasileiro e cumpre com seus deveres. Casado, pai de dois filhos, trabalha de manhã à noite como auxiliar administrativo numa clínica cardiológica no centro da capital paulista. Aprendeu a saborear a vida, principalmente por saber que é um dos melhores exemplos da capacidade da medicina de prolongar a existência ao máximo: ele completou 30 anos com um coração transplantado talvez um dos mais longevos de que se tem conhecimento. E exibe uma saúde exemplar.
 
Na verdade, este senhor precisou de dois transplantes: o primeiro em 1986, quando tinha apenas 17 anos. Treze anos depois, por problemas de rejeição, teve de colocar outro coração no peito, no mesmo hospital da capital paulista. Entre um e outro transplante, ele se casou e teve dois filhos, hoje com 26 anos e 22 anos. É uma história comovente a deste homem de hábitos simples, morador da Zona Leste, de frente para o Parque do Carmo. É uma história de fé na vida. E, como ele, todos os pacientes que vierem a precisar de um transplante devem contar com esse componente da maior importância — a crença na vida.
 
A história dos transplantes de coração começou difícil: o primeiro ocorreu na África do Sul em 1967, mas o paciente do Dr. Christian Barnard sobreviveu por apenas 18 dias. Daí em diante a prática evoluiu rapidamente no mundo; atualmente, a sobrevida é de 85% após um ano e de 78% ao final de três anos. Mas pode ser muito mais prolongada, com as pesquisas sobre imunologia avançando no combate à rejeição e o apoio da tecnologia nos exames mais minuciosos e precisos.
 
Esta é a razão de ser cada vez maior o número de transplantados sobrevivendo com mais de 20 e até com 30 anos, como é o caso de nosso personagem. A qualidade de vida também melhora sensivelmente com o passar do tempo, pois eles recuperam a capacidade física, voltam a trabalhar e até a praticar esportes.
 
O que leva o paciente ao transplante é a insuficiência cardíaca, na qual o coração não consegue bombear sangue o bastante para suprir as necessidades de oxigênio e nutrientes do organismo. Os indivíduos sentem falta de ar e os tornozelos incham, além de apresentar constantes arritmias. Essa é uma das principais causas de mortes por doenças cardíacas no mundo. E são várias as determinantes de uma insuficiência, como doenças das válvulas cardíacas, coronárias, defeitos congênitos e todas podem ser tratadas de modo convencional.
 
Porém, quando o músculo reduz seu poder de contração, a insuficiência se torna mais grave e as arritmias se acentuam; aí então os médicos começam a estudar a hipótese de substituir um coração por outro sadio.
 
Em muitos casos, a expectativa de vida não ultrapassa de seis meses a dois anos. Podem ocorrer anormalidades adquiridas ou congênitas das válvulas ou de outras estruturas do coração, e até mesmo condições raras, como tumores. A rejeição era o obstáculo maior à sobrevida dos transplantados. Ela ocorre quando, por exemplo, uma pessoa sofre um ferimento no dedo e os glóbulos brancos entram em combate para destruir as bactérias, iniciando um processo infeccioso. A mesma resposta se dá no transplante: o novo coração será atacado, pois se trata de elemento estranho ao corpo e deve ser eliminado. Mas os medicamentos imunossupressores evitarão esse ataque, permitindo que o novo órgão funcione.
 
Até recentemente, os efeitos colaterais da medicação contra rejeição afastavam crianças e pessoas mais idosas dessa possibilidade. Agora, crianças e idosos com mais de 70 anos são aceitos naturalmente como receptores. As chances de sobrevida longa dependem em parte do estado dos outros órgãos, principalmente cérebro, pulmões, fígado e rins. Os pacientes que apresentam esses problemas podem não se beneficiar do transplante. Mas todos concordam: é decisivo para o sucesso do tratamento o estado psicológico do paciente, que deve cooperar com a orientação médica e, ao mesmo tempo, ter amparo familiar consistente.
 
Porém, para que tudo funcione, é preciso haver um doador; ou uma família disposta a doar o coração e outros órgãos de seu ente querido recém falecido para que outro ser humano sobreviva. As informações nesse sentido avançam pouco no Brasil, mas avançam, e a esperança é a de que as filas se reduzam ao mínimo. Atualmente no Brasil são realizados aproximadamente cem transplantes de coração; nos Estados Unidos, cerca de 1.400 ao ano. 
 
No Estado de São Paulo, uma Central de Órgãos da Secretaria de Saúde centraliza a lista única dos receptores cadastrados pelas diferentes equipes transplantadoras. Quando surge notificação de um paciente em coma irreversível, o computador da Central analisa a compatibilidade de peso corporal e tipo sanguíneo, seleciona o receptor mais antigo previamente inscrito e avisa à equipe respectiva para realizar a operação. Receptores com quadros clínicos mais graves, internados em UTI, fazendo uso de medicação endovenosa ou aguardando com o coração mecânico — também uma realidade tecnológica muito atual —, recebem prioridade. E assim começará uma nova etapa da existência do paciente receptor ou mais uma conquista da medicina para o ato de viver. 

Américo Tângari Jr.

É médico cardiologista.


 
 
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