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Quem fecha as portas de nossa vida?
Plinio Montagner
16/05/2017 04h00
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Estive a me perguntar o que é, ou quem, fecha as portas de nossas passagens durante a vida. Somos nós, por livre arbítrio, ou uma determinação biológica independente de nossa vontade, o acaso, ou todos? Quem corre demais, cansa e desgasta; ficar parado perde-se o ritmo; quem não anda, desanda. 
 
Aprendemos a falar nossa língua, e outras, a comentar e fazer coisas sérias e também bobagens, a assobiar, a conquistar. De repente, sem nossa determinação nenhuma deixamos de sorrir e de cantar na vida.
 
Sabemos que tudo muda e acaba. As coisas, os valores, nossas casas e nossos lares; o que demorava séculos agora acontece em uma geração, ou menos. 
 
As casas de nossos pais e avôs são diferentes. Os cheiros e os aconchegos peculiares, revelam o moderno e o antigo. Umas têm samambaias, avencas, roseiras, margaridas, onze horas, mangueiras. É tudo natural. Mas nas casas de nossos filhos e netos as jabuticabeiras e os coqueiros, da noite para o dia, surgem nos quintais e jardins, embrulhados como presentes de Natal, um oásis, replantados por uma empresa particular. Os regadores de zinco estão aposentados. Um computador programa o dia e a hora de as plantas serem regadas, uma a uma. 
 
Dizem os poetas: Casa antiga tem terraço com cadeiras de vime, canários, gatos, fogão de lenha ou um moderno Cosmopolita ou Brasil, uma Frigidaire ou Clímax, máquina de lavar Westinghouse...
 
Casa de avô tem rádio de pilha, porta-chapéus, molduras ovaladas de figuras paternas que parecem mergulhar docemente na eternidade. Lá tem viola, vitrola RCA Vitor, um piano fechado com castiçais laterais, revistas Seleções, o Tesouro da Juventude... 
 
Casa de gente jovem tem mobília desenhada que não se sabe bem para que serve, se é decoração ou para sentar.
 
Vinicius de Morais escreveu que nas casas de nossos avós não há mais agitação, só serenidade e um ar de melancolia. Aquela visita sem hora marcada não aparece mais. As de hoje aceitam convites quando há recepção. Desapareceram as visitas só para bater papo e oferecer aconchego aos donos.
 
Casa antiga agora é um silêncio tradicional, sem enfeites, sem cristaleira, guardanapos bordados, tajer e carrilhão. Na varanda, o balanço imóvel é um objeto em desuso, ora acompanhado pelo zumbido de algum besourinho atrevido. Os assoalhos não cheiram à cera de carnaúba. Sobre o guarda-comida, fugiram o licoreiro magro ou bojudo e o rádio de válvulas, e sobre a mesa de jantar as gamelas com frutas, ovos e pão caseiro. Que é das manhãs e entardeceres e do canto de um galo a acordar a vida? A modernidade parece feia aos idosos, e o antigo, feio aos jovens; não lhes pertenceram em suas infâncias.

Que é das cartas de amor guardadas como troféus e lidas devagar e com emoção? 

A comunicação, antes ao vivo, demorada, do tipo olhos nos olhos, é uma tecla, um botão, num vapt-vupt. Os trens eram lentos, mas os relógios de bolso e dos despertadores eram acertados quando passavam.
 
Vivemos acertando horas e desejos que não serão conquistados pela falta ou pela opulência. A inquietação é uma constante, um caminho sem destino à busca de falsas necessidades. Não bastam nossos medos reais. Temos outros, agora invisíveis, que nem o excesso tranquiliza nosso espírito. Já não há tempo de acumular recordações.

Plinio Montagner

 
 
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