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O que meu sobrinho revela também sobre a CPI da Funai?
João Roberto Bort Júnior
24/06/2017 04h00
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O cenário é preocupante. Ao menos para um antropólogo, que viu colegas de profissão serem criminalizados pela CPI da FUNAI e do INCRA, cujo mérito se deve aos ruralistas. Pediram o indiciamento não só de antropólogos, mas de não sei quantos mais outros que defendem o direito à terra das populações tradicionais. Com a CPI, no limite, o capital sobrepôs-se novamente às condições materiais dessas populações de dar continuidade aos seus modos particulares de existência, que são intimamente imbricados ao espaço em que vivem. Nessa equação ilógica, na qual a mercadológica a lógica mercantil submete pessoas a interesses econômicos, golpeia-se também princípios internacionais que reconhecem as condições específicas de vida dessas populações como as dos indígenas, reconhecidas pela Convenção Nº 169 da OIT e o direito à terra constitucionalmente garantido desde 1988.
 
O cenário é ainda preocupante em outro sentido. Agora para um professor de educação básica que assistiu recentemente à mercadológica subverter, pela PEC 215, a restrição econômica mais a seu favor do que a favor da educação pública. Igualmente observou a flexibilização do currículo do ensino médio, justificada pela profecia do aumento das vantagens concorrenciais do jovem, que, todavia, cursará escolas com menos perspectivas de investimento para a melhora de suas condições e, com isso, de seus índices educacionais. Ao menos a ilusão da escolha de sua própria trajetória no novo ensino médio lhe dará algum alento. Mas não para os educadores, cada vez mais descrentes com a melhoria da escola em vista do enrijecimento fiscal que a solapará ainda mais com a emenda resultante da “PEC da morte”. Não esperam, entre outras condições, enriquecimento dos materiais didáticos por exemplo.
 
Então, o cenário é duplamente preocupante de nosso ponto de vista: de um professor e antropólogo. Ao observarmos a realidade político-social atual que envolve as populações indígenas e a educação, quase ficamos melancólicos. Quase; caso não fosse a autonomia relativa que nos cabe enquanto profissional da educação e estudioso das sociedades indígenas. Algum contra-ataque a este cenário talvez seja possível. Paulo Freire alerta-nos: educação é uma atividade política.
 
Acreditava, mas tomei fé, na potencialidade dessa autonomia quando, dias atrás, um de nossos sobrinhos de poucos nove anos soube ao tamanho de sua experiência explicar a lógica, por exemplo, das artes corporais indígenas. Sem falar no que já sabe sobre materiais de pinturas de corpos ameríndios e sobre etnônimos. Ao final daquela prosa enriquecedora, na qual era o professor, o menino mostrava uma sensibilidade profunda diante da diferença étnica que muito falta aos responsáveis por aquela CPI. A educação será tão mais libertadora, como notamos, se incluirmos a alteridade como material de produção de sensibilidade humana. Entretanto, para isso, os cadernos de sociologia do ensino médio devem passar por um crivo crítico.
 
Em 2018, a lei nº 11.645, que garante o estudo da história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros, fará dez anos. Porém o material didático oficial de sociologia da rede paulista é ainda insuficiente para subsidiar a aprendizagem dessa sensibilidade frente ao Outro, particularmente frente aos ameríndios. Pelo contrário, vemos, como antropólogo e docente, situações de aprendizagens que poderiam, mas não tratam das especificidades sociais, econômicas e culturais de algumas dessas sociedades ameríndias. Como sensibilizar seus filhos, leitor, pela e para a cultura indígena se há uma única imagem dos Yanomami nesse material? Apesar da lei colocar o tema para todo o currículo escolar, ele não se faz presente nos materiais de sociologia, para a qual ameríndios permitiu importantes desenvolvimentos. O silêncio do material didático continuará sendo produtor de insensibilidades que baseiam a barbárie do cenário atual.

João Roberto Bort Júnior

É doutorando em antropologia social.


 
 
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