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Carta do Tempo
David Chagas
30/10/2017 16h50
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Já não frequentes a casa. Não por não quereres estar. Para evitar lembranças. Há fantasmas por todo lado. Não os vê, bem sei, mas eles, sim, sugerindo, provocando memória, incomodando coração e mente.

O espelho da entrada, este, sente prazer em revelar, impiedoso, a angústia do tempo. Registra rugas, retinas e olhar cansados, o abatimento da alma. Nenhum alento. Só a mudança no corpo e no rosto de hoje.

Bom seria que, como em dia de chuva pesada, tudo se transformasse, ao fim do temporal, sorvendo poeira velha de móveis, de cortinas, de lampadários, afastando vestígios do passado.

Tampouco vás ao jardim. Também ele traz nos canteiros o formato do tempo. A composição das roseiras, hoje, tão envelhecidas, insistem em histórias já acabadas. A fragilidade do caule exposto, a timidez com que despontam suas últimas rosas (falta-lhes força para prosseguir) é sua forma de dizer que também elas prefeririam fugir deste compromisso de estar por estar, porque seu desejo seria mudar a paisagem.

No eido anexo, pedaço grande de terra chamado quintal, onde brincavas em meio à cantoria de pássaros que pouco ou nada se incomodavam com tua presença e os cães já mortos perambulavam despreocupados de tudo; também as mesmas árvores, agora lenhosas, cascorentas, idade avançada, cansaço, decomposição lenta e doída. A jabuticabeira floresce igual. Pouca chuva neste ano de ressentimentos, sol intenso, calor excessivo, tirou-lhe os frutos graúdos, mas não lhe roubou brilho e graça. Ao menos isto até te dares conta de que os frutos cutucam lembranças, por sorte, adoçadas ao sabor deles.

Não passes à frente da escola onde estudaste um dia. Os alunos em desalinho amontando motos ou bicicletas no jardim da frente, onde caminhavas livre pensando o futuro, incomodam. Não era por ali que adentravas ao templo. Era pelos fundos para que fosses descobrindo, aos poucos, toda a história guardada.

Os estudantes de antes pareciam ter deixado naqueles espaços não sua presença, mas o brilho de seu desempenho que se respeitava, com um natural desejo de fazer igual ou ultrapassar. Agora, uma algazarra sem fim, uma conversa desconcertante. Nada como a alegria que impulsionava a estudantada daqueles anos, trocando conversa boa sobre a última canção de sucesso ou o último filme de Pasolini exibido na sessão noturna, trazendo para as telas discussões em torno da vida.

Tudo diferente, razão sem razão. Pensar nisso faz associar o pensamento à frase machadiana indicando que melhor seria “não deixar a ninguém o legado de nossa miséria”.

Miseráveis, meu Deus, não todos, mas tantos! Não miséria como estado de penúria, pobreza absoluta. Também incomoda. Menos, no entanto, muito menos que o outro, porque a este é possí- vel socorrer de algum modo, oferecendo o pão do dia. Agora, o miserê abordado não é carência, mas infelicidade, imperfeição moral, fraqueza.

Ou não foi desta sensação que te viste possuído na última sessão da Câmara dos Deputados que isentou o presidente da República dos erros cometidos? Não pelo voto dado. Na democracia, cada um vota como quer, mas pelo que se atreveram dizer, expondo, sem pudor, a vergonha que se abate sobre o país, por culpa exclusiva deles mesmos, de sua conduta.

É isso que arrebata, suscitando reações inesperadas e provando, a cada segundo, o quanto ninguém é nada nem pode querer ser nada, como ditou o poeta.


David Chagas

É jornalista e professor.


 
 
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