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O nosso?
David Chagas
04/12/2017 11h54
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Assim reagiu minha irmã diante da notícia. Haroldo Palo Júnior recebera a indesejada visita e, sem tempo para despedir-se, deixou obra, ainda que inacabada, capaz de fazê-lo eternizar-se. O possessivo usado reflete o que representava para nós o amigo e irmão. Descobri, durante o tempo em que expuseram seu corpo e nas redes sociais, milhares de pessoas igualmente indignadas, a grande maioria delas reivindicando, no uso de iguais possessivos, parentesco que só mesmo as grandes almas estabelecem. Haroldo trazia no olhar, na fala, no gesto, acolhimento e afeto, bem usados em laço definitivo. 
 
Guardo, comigo, a última conversa, uma semana antes quando pude cumprimentá-lo pela renovação da vida. Curtíssimo espaço de tempo lhe foi concedido para experimentar nova idade e festejar a espera de novo filho.
 
No triste ritual do último domingo, a natureza, objeto primeiro de seu trabalho, revelou, na aparência, estar às avessas. Luz quase nenhuma contava, de algum modo, o sucedido, até que o som do telefone desfizesse a metáfora. Notícia impiedosa feriu-me o ouvido e a alma. Do outro lado, amigo comum anunciava a despedida de quem fizera, em pouco tempo de vida, tanto, garantindo, para sempre, sua lembrança. 
 
Dia seguinte, as emissoras de rádio e televisão do país fizeram justo tributo a seu nome. Alguns países, dentre os trinta e tantos onde esteve trabalhando, registraram seu passamento, sem negar a falta que fará na proteção da natureza e na finalização de seus projetos. 
 
Quando o conheci há quatro décadas, jovens os dois, professores que éramos em cursos pré-vestibulares, já se aventurava de forma notável na fotografia. Convidou-me a ser curador de sua primeira exposição, juntando sua obra a poemas de Lição de Coisas de Carlos Drummond. Encantado com o resultado desta união, o poeta escreveu-me agradecido, revelando ter encontrado no diálogo estabelecido a continuação do que pretendia: “assinalar a brevidade da vida e a observação do tempo, elementos perceptíveis também na fotografia do jovem Palo Júnior”.
 
Depois disso, Haroldo ganhou espaço e entregou-se por inteiro a seu trabalho fotográfico, ignorando a excelente formação em engenharia e os diferentes cursos de pós-graduação a que se entregara. Inúmeras viagens à Antártida resultaram em livros magníficos e imprescindíveis. Fez do Pantanal sua morada registrando tudo, tanto, que sua filha decidiu deixar naquelas terras as suas cinzas. Novos livros recheados de verdade, encantamento e beleza registraram estas idas e vindas.
 
Trabalhou com Jacques Cousteau. Mergulhou em lagoas federais descobrindo o universo escondido por dentro delas. Foi ao Ártico. Fez documentários para distintos canais de televisão. Colaborou com jornais e revistas, dentre elas, a National Geographic . E mais, muito mais. Tanto que, exausto, não pôde lutar ao ser arrebatado, em meio ao trabalho, pela morte.
 
Nós? Ah, ficamos sem o abraço da despedida.

David Chagas

É jornalista e professor.


 
 
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