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Novo?
David Chagas
08/01/2018 15h38
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Não sei bem se foram os dias seguidos de chuva, céu carrancudo sugerindo tempestade, por sorte, desfazendo-se no vento, sem fazer jus à propaganda do espetáculo anunciado, ou se chuva caindo num único pedaço de chão, grosseira mesmo, mas rápida, nascida de uma e outra nuvem mais encorpada, cúmulo-nimbo, fazendo chuva de manga como dizia meu pai, gotejando pesado ao desfazer torreões que se superpõem uns aos outros, assustando, encantando, não sei.
 
Sei que isso, ou aquilo, ou o resíduo de tristeza que a vida acumula num recanto da alma ao longo da vida, o sol benfazejo em manhãs desenhadas com primor, o canto do galo, aquele que anunciava, na madrugada da infância distante, o dia chegando, se a voz terna da mãe, a presença altiva do pai, as brincadeiras pueris, os amigos, os animais que compuseram com todo o resto a meninice, se a adolescência, as dolorosas despedidas, sei lá o quê me ajuda a entender que seria preciso dar um basta a tanto festejo ao terminar o ano se o abraço que traça o movimento do laço e quer persistir não resiste.
 
Naquela noite capaz de separar um ano do outro, dando por terminado um tempo e, com isso, insistindo em anunciar o novo, tratei de observar uma cara e outra sem entender porque não se voltavam todos para dentro de si mesmos em busca do essencial, da vida, da alegria que insiste em sobrepor-se à tristeza que se esconde por traz da fogueteada e seu impetuoso e exuberante estouro. 
 
Foi em meio a este foguetório todo que soube do menino caído no pátio de casa, ensanguentado, vítima de bala perdida, imagem perfeita para final de ano destes brasis. Que dor, meu Deus! Quanto desassossego ao pensar, não nele, mas em sua mãe, em seu pai, nos seus. Em mim também já cansado desta cena igual à de todos os dias. Nada mais cruel, também. 
 
O pequeno, estampado em todas as páginas de jornal, cara linda, olhar carregado de alegria, assinatura de Deus no olhar e esperança no coração de seus pais, já não está. Não quero pensar no vazio da casa, no silêncio imposto por sua ausência e no peso da dor a que sucumbem os seus, felizes, até o instante final do ano que passou, derreados, a partir do primeiro momento de um tempo a que chamamos novo e festejamos, perdedores de arma desconhecida capaz de juntar, num segundo, tristeza para o resto dos dias e da vida.
 
O Natal já me havia oferecido igual ponto de reflexão em torno do homem e do mundo, com o recém-nascido jogado em rincão qualquer de uma avenida do Rio de Janeiro. Agora, este. Ambos, pequeninos, chegando à vida e já conhecendo os estigmas com que se compõe.
 
Novo? Em quê? Não há, em meio ao foguetório que explodiu pelo país todo, nada que traga novidade. Nem mesmo a possível mudança de ministros a que se submete o governo da República, envelhecido já ao instalar-se. A Ministra escolhida, de sobrenome Brasil, imagine, traz em si uma mancha perigosa para quem vai ocupar-se da pasta do Trabalho e, por dever de ofício, carregar consigo o compromisso de proteger e defender o trabalhador. 
 
Não me julgue mal. Quero que tenha felicíssimo ano novo. Quisera ter também. Insisto comigo mesmo a voltar-me para dentro de mim para em busca do que me satisfaz, me encanta, permite ver, entre coração e alma, o arco-íris de luz, de cor, de paz e de esperança que lustra o novo.

David Chagas

É jornalista e professor.


 
 
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