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Os mourões e a inutilidade
Plinio Montagner
23/01/2018 21h42
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Há um ditado que diz: o homem que vive muito vai ficando igual à criança. É claro, pode acontecer a qualquer um e em qualquer idade, basta uma fatalidade, doença ou incapacidade física para limitar e impedir uma vida normal.

A partir do nascimento e a cada dia tudo envelhece. No início o homem aprende a caminhar, a se defender, a se alimentar,edepois volta a se desequilibrar, a tropeçar, não se alimentar nem tomar banho sozinho até chegar à fase da infância desprotegida da vida, quando não conseguirá sobreviver sem os cuidados de outras pessoas.

O tempo é implacável; tudo que nasce tem prazo de validade definido. Ele não recua, não dá marcha à ré, não oferece retornos nem pausas nem belvederes para desfrute da natureza e do universo.

Os mourões de cerca e postes, mesmo sendo de madeira forte e dura, sofrem pelo decorrer do tempo. Para quem não sabe, mourões são as estacas mais grossas que sustentam fios de arames, telas, placas e servem para limitar quintais e propriedades.

 Nem toda lenha é própria para ser mourão ou poste. As ripas, por exemplo, são adequadas para assentamento de telhas e confecção de caixas, e não servem para fazer cabos de facas, martelos, enxadas, assoalhos, mobílias etc.

Assim é o homem, apesar de pertencer ao mundo real, às vezes passa despercebido, só é lembrado quando falta. É a lei da natureza, lei da selva, a hora de partir e de ceder seu lugar chega para todos. O fim começa no momento da inutilidade para sustentar dependentes...

A vida é assim, a cada dia alguma coisa aparece a afugentar nossas esperanças, como diz a música “Tudo Foi Ilusão”, cantada por Anísio Silva, na década de 60: “o sol que outrora brilhou em minha vida apagou-se, perdeu a luz, não brilha mais; minha vida é uma noite sem lua e sem estrelas...”. É melancólico o que acontece em alguns lares quando pais e mães, avós e avôs se tornam dependentes. Não por vontade, mas por necessidade, eles se isolam — ou são isolados — num canto de sua própria casa, ilhados e descartados.

Quem vive no momento da idade da reflexão, ou da terceira idade como se diz, sofre. O preconceito contra elas é inevitá- vel. Não é só preconceito, nem crueldade, nem ingratidão dos familiares, as diferenças de idade e das experiências entre as gerações tornam difíceis e raros os diálogos.

Por sorte tal fato não se estende a todas as famílias, que continuam a venerar e a cuidar de seus ancestrais com a comum afeição. Mas não adianta, envelhecer gera desvalorização. Os ataques ao brilho e a decadência são inevitáveis. O tempo não é uma abstração. O idoso incapaz é rei deposto.

A Organização Mundial da saúde (OMS) se mostra preocupada com o preconceito contra os idosos, como provam os resultados divulgados por uma pesquisa sobre o tema, em que 60% da população mundial concluem que as pessoas que estão na terceira idade não são respeitadas.

De acordo com a pesquisa, os idosos que se sentem como um fardo, e imprestáveis, correm risco de sofrer depressão devido ao isolamento. Esse fato é preocupante porque o número de pessoas com mais de 60 anos vai dobrar até 2.025, passando a ser mais de dois bilhões da população mundial nos próximos 30 anos.

Desertos e pessoas possuem oásis camuflados que nada podem fazer para recuperar o vigor perdido.


Plinio Montagner

 
 
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