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O reinado de momo
José Faganello
14/02/2018 17h55
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“O Carnaval entre nós deixa de ser... a festa pagã que o cristianismo não estragou de todo e em que resta alguma vivacidade e algumas alegrias dionisíacas para ser mais do que tudo isso: uma tradição venerável, uma festividade adorada, um hábito da sociedade que tem significação de um desafogo na existência ávida do brasileiro, que vive sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma”. Gilberto Amado
 
 
Em termos de duração, o Carnaval é o maior período de festas disponíveis em nosso calendário. Não se esquecer daqueles que, para ele, começam a se preparar desde as vésperas do Natal, retornando ao trabalho após o Carnaval, muitas vezes na segunda-feira seguinte à quarta-feira de cinzas.
 
Os festejos momescos oferecem a oportunidade esperada para uma exacerbação no uso de bebidas, na prática da luxúria em todas suas nuances, pois eles servem como justificativa sacramentada pelo tempo e pela aceitação, praticamente geral.
 
Há noivos e casados que buscam conseguir seu alvará, para cair na folia, citando Paulo Apóstolo, em epístola aos romanos, 12,15: “alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram”. Necessitamos de festas de confraternizações coletivas. A vida moderna concede-nos poucas oportunidades para elas.
 
O Carnaval, incluído no calendário de festas nacionais, arraigou-se em nossa cultura a ponto de, assim como o futebol, ser considerado o maior espetáculo da terra, quer em número de participantes, como no esplendor de seus desfiles. Tanto o Carnaval carioca quanto o paulistano que promete não ficar atrás; transformaram-se em gigantescos espetáculos, cada vez mais sofisticados, mas com o senão, de excluir de sua participação ativa grande parte da massa popular, sem condições de competir com os mais endinheirados.
 
No Carnaval de Recife e de Salvador predomina a participação popular, com coreografias coletivas e ao mesmo tempo pessoais das ondas humanas deslocando-se atrás dos trios elétricos.
 
Foi no Rio de Janeiro, a partir de 1930, que o Carnaval começou apresentar uma feição civilizada, tornando-se aos poucos uma atração internacional. Seus grupos de ranchos carnavalescos e de escolas de samba aprimoraram-se, até chegarem ao que assistimos atualmente.
 
Em muitas cidades, o Carnaval de rua, genuinamente popular, cedeu lugar para os bailes nos clubes sociais. No entanto, na maioria destes carnavais de salão, não se vê a animação de outrora. Os foliões, antes animados por marchinhas, de todos conhecidas e até agora lembradas, como Linda Morena, Fita Amarela, As Lágrimas Vão Rolar, Não Tenho Lágrimas, Jardineira, Aurora, Máscara Negra, e outras muitas, hoje se vêm salões de baile de adultos, tomados por adolescentes que desconhecem as letras antigas, e não sabem as novas, essas de nenhum valor poético e musical.
 
Sempre houve aquele que vê no Carnaval não uma manifestação espontânea de alegria, mas um desafogo. Seja como for, o Carnaval é tempo para beber, dançar e amar, como aqueles que necessitam de um desafogo para as mágoas causadas pelas mazelas nacionais, com os desvios bilionários de verbas públicas, nepotismo e impunidades indefensáveis.

José Faganello

é professor


 
 
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