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Tempos iluminados, tempos sombrios...
Da redação
08/02/2018 17h11
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Nos estertores do século vinte, mais precisamente no final de 1996, um grupo de quarentões, alguns já beirando o meio século, resolveu vestir de luzes a quase centenária Sapucaia, última remanescente do bosque Barão da Serra Negra, onde hoje se encontra o estádio municipal que leva o mesmo nome.
 
A beleza do voluntariado em harmonia com a aura de paz e um certo devaneio, que permeava o projeto, resultou na mais linda e tradicional iluminação de uma árvore, que o Natal piracicabano já havia visto. Nesse acontecimento, está a gênese de uma agitação cultural que tomou conta da comunidade bairro altense e acabou se estendendo por toda cidade.
 
Num passe de mágica, como pirilampos, as luzes desceram da majestosa sapucaia e se transformaram em foliões(ãs), desfilando pela imponente Moraes Barros, na contramão da tristeza, no Carnaval de 1997. No início, lembrando o enredo da antológica música do grande Chico, “Vai Passar”, não mais de cem foliões desceram a Moraes numa alegria fugaz, como diz a letra da canção. O amigo e artista Tito Vitti me presenteou com um vídeo de um dos primeiros desfiles da mambembe banda, o qual guardo a sete chaves como preciosa lembrança. Depois, com um crescimento exponencial, transformando-se numa procissão de alegria, chegou a dezenas de milhares de participantes e, ao unir nessa multidão pessoas de todas as classes sociais, raças e ideologias, nos fez lembrar a sociedade alternativa do inesquecível Raul Seixas. Vivemos momentos mágicos de confraternização, de alegria coletiva, de encontros e reencontros. Leigos no samba, criadores de ilusão, como diz a letra de um dos sambas enredos da banda, haviam conseguido uma espécie de congraçamento entre as pessoas, que só acontecem no Brasil, nas festas de fim de ano e durante a Copa do Mundo de futebol.
 
Foram momentos iluminados que nos passavam a ilusão, ainda que passageira, de que um mundo melhor era possível. Esse sonhador — como me chamou um dia meu velho camarada e fanático sapucaiense, Zé Beto — tinha planos audaciosos para dar continuidade a esse nosso exitoso projeto, que passava pela criação de uma Associação Cultural, abarcando criadores e seus simpatizantes mas, infelizmente, tudo não passou de um sonho. Consta que foi criada burocraticamente uma associação, a qual não guarda qualquer identidade com a história e a tradição do projeto original.
 
Porém, a falta de apoio à altura do crescimento da banda, gerando problemas de segurança e de logística e, como num prenúncio do que estamos vivendo nos dias de hoje, o preconceito, as vaidades, a busca pelo poder, o oportunismo e a deslealdade foram minando esse verdadeiro fenômeno, que um dia chamamos de Movimento Cultural Sapucaia, transformando-o em um mero evento carnavalesco, desses tempos sombrios.
 
Por uma questão de reconhecimento e registro histórico, o Movimento Cultural Sapucaia teve a sua gestação no jornal Gazeta da Cidade Alta (que hoje só existe on-line), do nosso amigo e jornalista Kerko Tomaziello, e a Banda da Sapucaia foi inspirada na tradicional Banda do Candinho, que desfila até hoje na capital paulista.
 
Rubens Santana de Arruda Leme foi um dos fundadores do Movimento Cultural Sapucaia

Da redação

 
 
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