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Outono
José Faganello
13/03/2018 18h15
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Habitantes de um país tropical, não poucas vezes, deixam de sentir diferenças significativas nas chamadas estações do ano. Os de países temperados não têm como não diferenciá-las.
 
Talvez por isso, os sentimentos provocados pelas mudanças climáticas afetam, de maneira diversa, uns e outros.
 
Shakespeare, da fria Inglaterra, em seu soneto LXXIII dá-nos um exemplo: “Em mim tu podes ver a quadra fria / Em as folhas, já poucas ou nenhumas, / pendem do ramo trêmulo onde havia / outrora ninhos, gorjeios e plumas”.
 
Verlaine, de uma França menos gélida, não deixou por menos, ao versejar sobre o outono: “Os longos sons / dos violões / pelo outono / me enche de dor / e de um langor / de abandono”.
 
Esse entremeio entre verão e inverno me faz ver um esplendor diferenciado da natureza.
 
Ao caminhar passei por uma alameda atapetada de folhas e flores. Talvez, estimulado pela carícia da aragem, comecei a observar a magnificência e as lições da natureza nesse início de outono.
 
O belo cenário mostrou-me que aos 79 anos já passei o outono da vida. Não me senti deprimido, pelo contrário, transbordei de contentamento, pois num rápido balanço, pude constatar que entre perdas e ganhos, fui, até agora, um felizardo.
 
Ouvi todas as músicas que desejei, li incontáveis poesias e muitos, mas muitos mesmo, livros admiráveis; embora perdi pessoas que amei e me fizeram feliz, conheci outras, construí sonhos, muitos realizados, a maioria não. Visitei lugares com os quais sonhava em minha infância e juventude, mas julgava-os inacessíveis. Há muitos outros, que hoje desejo conhecer e não consigo. Ri bastante, também chorei muito; pratiquei vários esportes, todos com razoável desempenho; tive amigos que não eram amigos e outros que os são de fato. Medo, senti poucas vezes, aventuras, tive o suficiente: aprendi a nadar e a dançar sem professores. Lecionei por 48 anos, sempre com prazer e paixão. É indescritível a satisfação de ter uma legião de alunos que venceram na vida, superaram o mestre e são hoje, cidadãos prestantes. Revi conceitos, corrigi muitas falhas, espero errar menos e melhorar minhas qualidades. Aprendi com Johnn Shedd que: “Um barco está seguro no porto, mas os barcos não são feitos para isso”, portanto, não devo temer enfrentamentos. Pelo exemplo de meus pais e sogros, constatei que um casal é verdadeiramente feliz quando vivem um para o outro. 
 
As folhas caídas e o choro do vento uivando nos fios de eletricidade não foram capazes de me levar à melancolia, mas recordaram-me os verões ardentes e as primaveras inesquecíveis.
 
Vi, naquelas folhas caídas no caminho, como em meus cabelos também, o ciclo implacável da natureza, a brevidade de nossos dias.
 
Todos os que estão no outono de suas vidas alegrem-se, pois a longevidade está em alta; ao sentirem os achaques da idade, no lugar de lamentos, pense qual seria a alternativa. Portanto, nada de pessimismo, mesmo com comentários negativos sobre nossa passagem sobre a Terra, a maioria é focando o lado pessimista: vale de lágrimas, selva escura, chama que vacila entre dois oceanos de trevas, enfermidade que só a morte pode curar e outras que tais.

José Faganello

é professor


 
 
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