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Há 10 anos calava-se um grito mudo
Da redação
05/04/2018 17h42
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Nascer no dia 1º de abril é uma ironia da vida. Entretanto, morrer nesta data é ironia do destino. Assim foi a sina de Elias Rocha, que nos deixou há exatamente 10 anos, bem no Dia da Mentira, data que simboliza sua maneira de subverter a morte, coisa que fez vivo com a arte ao revolucionar os princípios estabelecidos pelas grandes escolas artísticas, as quais sentenciam e impõem padrões estéticos.
 
Ao contrapor as formas mais clássicas de arte e o jeito de fazê-la, Elias participou da vida cultural, pública e política de Piracicaba ao transformar seus bonecos num grito mudo que todos gostaríamos de bradar, mas que nunca o fizemos. Ele foi a voz de cada um de nós, mesmo calado.
 
O legado de sua obra, em conteúdo e forma, é pura arte (no sentido mais nobre da palavra), pois ele tinha atitude. Sua participação ativa e provocadora transformaram seus bonecos em algo inconfundível, de alcance infinito.
 
Como artista, Elias dos Bonecos não tem precedente entre os nomes desta terra. Sua obra, muito menos. Sua voz não tinha fronteiras e um artista quando exclama em público provoca inquietação. E, mesmo sem exclamar, sua eloquência muda soou alto e foi ouvida por todos que admiraram — ou não — sua criação.
 
E foi exatamente assim que ele fez ao instalar seus bonecos na margem do rio Piracicaba, confeccionados com o lixo ali mesmo encontrado, como forma de protesto contra as mazelas sofridas pelas águas vindas daqueles olhos chorosos, buscando uma reação do público que recebia aquela mensagem de socorro, nem sempre compreendida.
 
Com o tempo, a repetição de seu gesto foi se tornando cada vez mais uma atitude artística. Mas a arte pode não conter, em momento algum, a pretensão de modificar o mundo ou o seu ambiente, e não sei se este era o objetivo de Elias. Porém, talvez nem ele soubesse a dimensão que sua obra alcançaria.
 
Elias não quis mudar o pensamento da sociedade ao confeccionar seus bonecos — para ele, seus filhos. Elias queria era mudar o comportamento das pessoas, modificando sua relação com a natureza e com o crescente distanciamento do homem dela.
 
Sua arte não era a dos artesãos ou a de um construtor de bonecos; era a representação que seus “filhos” tinham ao serem expostos a céu aberto na margem do rio, aguçando o pensamento alienado das pessoas. Despretensioso em relação ao apelo estético contido na obra, questionou o conceito de arte aceito pela sociedade.
 
Embora a maioria das pessoas considere que um artista tenha que ser culto e inteligente, eu acredito que estes requisitos não sejam imprescindíveis para o surgimento de uma grande obra. A arte independe disso. O mesmo vale para quem gosta das coisas ditas “artísticas”.
 
No caso de Elias, não é preciso compreender ou explicar, pois a beleza está situada na mensagem contida na obra em que ele criou apenas pela vontade de agir. O eloquente Elias era assim: instintivo. E foi desta forma que fez sua arte.
 
 
Marcelo Basso é jornalista. E-mail: marcelo@ engenhodanoticia.com.br

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