Os modernistas e os trabalhadores brasileiros

Dentre as datas comemorativas do mês de maio estão o dia do trabalhador e do artista plástico, 01 e 08 de maio, respectivamente. Pensando nisso, faremos algumas reflexões sobre um grupo de artistas, trabalhadores, em sua maioria imigrantes ou descendentes de imigrantes italianos, que foi muito atuante e importante na história do modernismo brasileiro.

Estamos falando do Grupo Santa Helena, que começou a ser formado por volta de 1935 em torno do ateliê de Francisco Rebolo, numa das salas do prédio conhecido como Palacete Santa Helena (Praça da Sé – São Paulo), que originou o nome do grupo.

Os artistas do Grupo Santa Helena eram quase todos oriundos de uma condição social modesta, que exerciam atividades simples e artesanais. Autodidatas ou com formação básica em escolas profissionalizantes como o Liceu de Artes e Ofícios, inicialmente dedicavam-se à pintura artística nas horas livres e nos finais de semana.

Num primeiro momento, os integrantes do Grupo estiveram praticamente às margens do circuito das artes plásticas de São Paulo, mas a perseverança dos artistas despertava interesse e atraía novos amigos e parceiros. O ambiente criado nas salas de trabalho era de troca, pois compartilhavam conhecimentos técnicos de pintura e as sessões de modelo vivo. Aos finais de semana organizavam excursões aos bairros da cidade para fazer pintura ao ar livre.

Quem eram eles e o que faziam antes de se tornarem ícones da pintura brasileira?

Francisco Rebolo (1902-1980) trabalhou como aprendiz de decorador e depois foi jogador de futebol pelo Corinthians.

Mario Zanini (1907-1971) foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios e trabalhou como decorador de paredes. Como curiosidade podemos destacar que auxiliou Alfredo Volpi na pintura dos afrescos que decoram a Capela de São Pedro do Monte Alegre, nesta cidade.

Manoel Martins (1911-1979) foi relojoeiro e vendedor.

Fúlvio Pennacchi (1905-1992), nascido na região da Toscana (Itália), teve sua formação artística e graduou-se em pintura antes de mudar-se para o Brasil, em 1929. Aqui trabalhou em diversas atividades para se sustentar, inclusive como açougueiro e professor de desenho.

Aldo Bonadei (1906-1974), considerado o mais erudito participante do grupo teve sua formação artística ainda muito jovem, mas trabalhou como costureiro e bordador para garantir seu sustento.

Clovis Graciano (1907-1988), foi empregado da Estrada de Ferro Sorocabana onde pintava postes, tabuletas e avisos para as estações de trem.

Alfredo Volpi (1896-1988), nascido em Lucca (Itália), trabalhou como pintor e decorador de paredes.

Humberto Rosa foi professor de desenho geométrico em escolas particulares.

Alfredo Rizzotti, um dos últimos a integrar o Grupo Santa Helena, trabalhou como alfaiate.

O surgimento do Grupo Santa Helena se deu espontaneamente, não realizou exposições exclusivas e nem lançou manifestos como fizeram alguns anos antes os artistas da Semana de Arte Moderna. Seus integrantes vinham de uma origem diferente dos artistas da primeira geração modernista, tanto em termos de formação artística, como em relação ao seu lugar na sociedade. Em sua maioria, o grupo era formado em uma tradição ligada às artes decorativas e em razão do preconceito que esse gênero sofria no Brasil só ganharam notoriedade, de fato, quando foram destacados pela crítica de Mário de Andrade, que neles identificou uma “escola paulista” caracterizada por seu modernismo moderado, no limite entre as experimentações da vanguarda dos anos 1920 e a arte acadêmica ainda vigente no meio paulistano.

A origem operária e a ascendência imigrante são fundamentais para explicar a obra produzida pelos “santelenistas”. Embora seja possível perceber as características peculiares de cada artista do grupo, os temas relacionados ao trabalho, como casebres operários, estações de trens, fábricas e a paisagem do subúrbio com lavadeiras junto ao rio ou crianças brincando nas ruas, são comuns e frequentes em suas produções. Eles retratavam cenas do centro da cidade, assim como dos bairros da periferia, onde mostravam uma cidade transformada pelas fábricas e cenários de uma existência humilde prestes a desaparecerem com a expansão urbana. Essas produções não tinham a pretensão de ser o registro histórico dessas paisagens, mas acabaram por fazê-lo.

O desejo de retratar a vida do povo de forma tão particular como o fizeram, assim como sua relação com as dimensões industriais da cidade, foram as características mais marcantes dessa segunda geração modernista.

Extinto o ateliê coletivo no início da década de 1940, os integrantes do Grupo Santa Helena tiveram, quase todos, notável trajetória artística, sendo com frequência incluídos entre os mais importantes pintores brasileiros do século XX.