Os Museus do dia a dia

Francisco Ometto Júnior

O recente incêndio no Museu Nacional é só a ponta de um iceberg que nos faz refletir. Descaso com a história? Mas o que a história (do Brasil) tem a ver com tantas pessoas desse país?
Extraordinária arrecadação de impostos, discursos persuasivos, falhas administrativas graves, destruidora desigualdade social, incompetência, desonestidade. O museu em questão estava em frangalhos, parte elétrica e hidráulica, além de tantos outros itens, condenados pela lei e pelo bom senso. Entretanto, as mansões dos corruptos, o dinheiro no exterior, as leis criadas a favor próprio, os abusos de poder, a manipulação intelectual de pessoas sem muita instrução e educação, isso tudo, sim, em perfeito estado!

Ditado antigo: “cada povo tem o governo que merece”. Ao ver pesquisas de intenção de votos mostrando criminosos condenados pela justiça ou candidatos que não fazem nada pelo seu povo (se fizessem o Brasil não estaria assim), no topo das estatísticas, começo a entender, na prática, este meticuloso ditado. Começo a perceber os reais motivos para o Brasil estar na situação que está. Começo a sentir, na pele, a parte prática da frase atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Estamos perdendo muitos museus, dia a dia, minuto a minuto. Mas o que isso significa para quem enxerga o Brasil com as mesmas lentes de Portugal e Espanha na época da colonização?
Museus vão se incendiando (também) nos desprezos e indiferenças do dia a dia… Incêndios emocionais de pessoas simplesmente desconsideradas, frustrações injustas sentidas por pessoas que se dedicam a algo ou a alguém, mas não recebem o devido valor. Museus da indiferença. Museus do descaso. Museus da desigualdade e da injustiça. Museus do egoísmo. Quanta gente desvalorizada por ter um cargo menor, um salário menor, um carro inferior, uma “cor diferente”, um problema emocional, mental ou físico.

Mas, afinal, o que importa o nosso museu, se temos tantos lugares interessantes para visitar ao redor do mundo?

Na rotina diária dos discursos políticos ou dos comentários fervorosos nos grupos de WhatsApp, o IDH sempre sai perdendo ou esquecido… Justamente ele, que mede quem é quem no quesito desenvolvimento e na qualidade de vida dos países e das pessoas: nós!

Nosso problema são os políticos? Que paradoxo: nós os colocamos lá!

Não se muda nada nas folhas e sim na raiz, com tempo e determinação, mas as pessoas se deixam enrolar em falsas alternativas que prometem rápidas soluções e na verdade são casas (até bonitas), mas construídas na areia…

No caso da situação brasileira, por exemplo, não há como mudar este cenário sem a Educação. Aliás, analise qual é a proposta do seu candidato na área da Educação e se ele vencer, cobre o que foi planejado.

O povo brasileiro precisa acordar e utilizar um dos melhores dons que o ser humano já recebeu: o pensamento. Reflita. Duvide. A filosofia muito nos ajuda. Recomendo. Precisamos de um povo mais consciente da verdade e com mais senso crítico do que realmente nos rodeia.

“A filosofia é a que nos distingue dos selvagens e bárbaros; as nações são tanto mais civilizadas e cultas quanto melhor filosofam seus homens”. (René Descartes).
E, então, que os museus do dia a dia parem de incendiar!

É professor e psicanalista