Os ‘resistentes’ do Santa Rosa e o comércio de sepulturas

Nesta sexta-feira, um grupo da resistência do bairro Santa Rosa informou que já tem opções, como fechamento parcial de quadrantes do bairro, para manter a segurança e controlar a movimentação no local, que vai perdeu o direito de se isolar com muro após dez anos de briga judicial. Na matéria de Rodrigo Guadagnim na página A 3, o leitor vai entender melhor a proposta desses resistentes, que parecem ter pedido apenas uma batalha, mas não a guerra. Eles já têm um projeto em discussão interna e podem até criar uma associação de moradores paralela. É direito deles continuar lutando para manter a segurança de sua família, bens e seu modo de viver. É claro que muitas famílias almejam viver num condomínio, com mais espaço livre sistemas de segurança eficientes, como câmeras de alta definição e vigias armados. Tudo isso ajuda sim a dar certa tranquilidade para nossa vida, mas depois de tudo seus restos mortais podem acabar sendo transferidos sem autorização prévia de seus familiares para um ossário municipal. É o que aconteceu com a família de corretora, que foi visitar o túmulo da mãe e da tia no Cemitério da Vila
Rezende, mas para sua surpresa o jazigo. tinha sido revendido para outra pessoa.

Os restos mortais de seus familiares foram enviados para o ossário do Cemitério da Saudade. A história completa você lê na matéria de Beto Silva na página A 5. Indignada, a mulher quer mover uma ação conjunta contra a prefeitura, que afirmou ter retomado o jazigo porque o mesmo estava em situação de abandono. Acho que as duas histórias no final são um retrato da nossa sociedade consumista, acelerada, superficial e entorpecida por uma vida plena, que talvez não exista de verdade. Passamos a vida correndo atrás do tempo, que não colabora com nossos sonhos e perspectivas, porque não foi dimensionado para a falsa noção de eternidade que nos move. Um muro, câmeras, decisão judicial e nem mesmo um túmulo são para sempre, porque a qualquer momento tudo muda, o muro é derrubado, a câmera quebra, a decisão é cassada e nem mesmo nosso local de descanso eterno é eterno. Nossos ossos podem ser levados sem aviso para
um outro local, apenas identificado com um número ou uma placa.

(Alessandra Morgado)