Ouso dizer

Sérgio Cabral Filho, ex-governador do estado do Rio de Janeiro, filho de Sérgio Cabral, pai, e pai de Marco Antônio Neves Cabral: na sua condição de presidiário, não conseguiu eleger seu filho para mandato na Câmara dos Deputados.

Louvemos o povo carioca que mesmo encantado com a beleza da paisagem e famoso pela forma folgazã como leva a vida entre praia, mar, cerveja e batuque, soube excluir o jovem, não porque tenha entendido exagerado seu envolvimento nas falcatruas do pai, mas por encontrar na biografia do pai excesso de malandragens bem arquitetadas que resultaram em quase duas centenas de anos de prisão.

A Justiça, segundo consta, foi condescendente demais com a madrasta do menino. Já com seu pai, até aqui, demonstra entender que deve ser tratado como merece ainda que, vez por outra, andasse comandando folguedos na ala em que se encontrava preso.

Ao sentir que a pátria se ressentiu de seus malefícios em prejuízo do povo do Rio de Janeiro, Cabral, numa atitude que bem poderia ter sido tomada há meses atrás, resolveu confessar que viveu de propina desde 2005. Pode?

Com cara de anjo safado, este falso querubim deve matar o Sérgio Pai de vergonha tantas artes praticadas e, pior que isso, revelando pouco ou nada saber do que as imagens comprovaram, sem incluir nisso as joias que enfeitavam o colo, os braços e os dedos de sua esposa, Adriana Ancelmo, a primeira-dama indevidamente protegida pela justiça.  Como se juntam bem os dois, na sua natureza íntima, sem essência, sem sentimento, sem consciência de si mesmos.

Se porventura discordarem do indevidamente ali utilizado, em relação ao habeas corpus contrário à razão, às leis, às regras, completamente injustificado, basta que pensem nas tantas mulheres e mães como ela que, pobrezinhas e sem penduricalhos valiosíssimos esquecidas nos presídios femininos.

Na sua confissão de agora, Cabral desdisse tudo o que dissera antes. Angelical, suave, queria aliviar-se do que lhe afligia a alma. Pobre menino rico. Preso a tantas mentiras quer libertar-se para dar fôlego ao político safado que roubou seu povo para ter prazer, alegrar-se em farras parisienses, restaurantes de luxo, algazarra com seus pares ou passando fins de semana em sua mansão de quase dez milhões em Mangaratiba.

Assisti inúmeras vezes à fala do ex-governador mais para ver sua expressão angelical, de bom menino, parecendo um castrati italiano pronto a soltar a voz deixando por trás da pele, escondido, o ressentimento e a vergonha que traz em si. Houve até mesmo quem o entendesse arrependido de suas ilicitudes ao vê-lo declinar nome de seus pares na falcatrua e conjecturar, para quem desejasse ouvir, que o cardeal-arcebispo dom Orani Tempesta “tinha interesse” nas ilegalidades cometidas.

Não se assuste. Nem peça aos anjos de Deus que iluminem sua indignação. Lembre-se de que o capiroto pode parecer virtuoso, inocente. Além disso, Francisco, o Papa, este sim um homem de Deus, tem provado sua fé no Espírito lançando verdade sobre as mentiras e as vergonhas da igreja. Quem se opuser a seu trabalho quer, como no comportamento político, esconder dívida que, por certo, cometeu, acobertando-se com manto que deveria desvendar o erro e não pactuar com ele.