OUTUBRO

José Faganello

“A injustiça social é uma evidência tão familiar e de uma constituição tão robusta, que parece facilmente natural àqueles mesmos que são suas vítimas”. (Marcel Aymé)

Outubro recebeu este nome porque era o oitavo mês do calendário romano, no nosso passou a ser o décimo, embora com o mesmo nome. Entre os notáveis acontecimentos nele ocorridos, podemos destacar dois que contribuíram para amenizar um pouco o cruel jugo das elites sobre a desamparada plebe: o manifesto de outubro de 1905, pelo qual o czar Nicolau II organizou um governo constitucional e as jornadas de 5 e 6 de outubro na França de 1789 que obrigaram Luis XVI a aceitar a declaração dos direitos do homem.

No Brasil, outubro é um mês de três festividades marcantes: a descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492; o dia da criança e a festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
Para as crianças que desconhecem o passado e não se preocupam com o futuro, o que vale é o presente; para elas todo dia é dia de festa. A de 12 de outubro, no entanto, serve para alavancar as vendas de brinquedos, sorvetes, guloseimas, calçados e roupas. Fazê-las felizes é muito importante e devemos aproveitar enquanto elas, a nós estão mais apegadas. São como casulos, cujo desabrochar é para nós um enigma. Enigma maior é o de como educá-las, pois serão os cidadãos de amanhã e as cepas de onde brotarão novos filhos. Embora a educação para os pais e para os mestres se constitui numa angústia inquietante. Duas coisas sobressaem no momento como pontos negativos na educação dos infantes: cada vez mais pais obedecendo aos filhos e não o inverso e a deletéria deformação da TV a ponto de podermos exclamar como Molière em sua fábula os Pombos: “Ah! Não há mais crianças!” Isso foi no século XVII e os pombos se referiam à ausência de seus perseguidores, as crianças, agora se trata de coisa pior, perfeitamente enquadrada em Mateus (18,6): “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e fosse afogado na profundeza do mar”.

Oxalá as crianças de hoje, não obstante todos os maus exemplos que recebem, possam, quando adultas, reorganizar o mundo e fazer dele o sonhado paraíso perdido, procurado por muitos dos desbravadores, enquanto outros preferiram buscar o El Dorado. Entre eles, destacou-se Cristóvão Colombo autor de duas descobertas notáveis: o ovo em pé e a América. “O mundo era um só. Que sejam dois, disse ele. E foram”. Esta afirmação encontra-se no frontão de uma casa de Gênova, onde se pretende que haja nascido Colombo. Extremamente religioso a ponto de vestir o hábito franciscano, com certeza não teria realizado sua proeza, se tivesse previsto o genocídio dos indígenas e a divisão do mundo em colonizadores e colonizados.

Em 12 de outubro, a maioria da população das Américas não tem o porquê e mesmo o como comemorar o aniversário da sua descoberta.

Enquanto persistirem as injustiças sociais, a não valorização dos seres humanos, estaremos agindo contra nós mesmos, pecando por omissão, ou seja, anuindo.

Nosso país é o terceiro em tamanho no continente americano. País historicamente injusto com a maior parte de sua população; está deixando escapar a oportunidade de uma virada histórica.
Os pessimistas afirmam que Deus cansou de ser brasileiro e desistiu de nós. Resta-nos, contudo, nossa padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Certamente não foi por acaso que veio até nós com a tez daqueles que foram impiedosamente castigados enquanto construíam nosso país e, ao serem declarados livres da escravidão, não tiveram nenhuma ajuda oficial para educarem-se, morar decentemente, alimentarem-se e, sobretudo, terem um emprego que não fosse a continuidade da escravidão.

Ao constatar a eterna rotina de nossos governantes em sufocar os empresários com taxas e juros escorchantes e estes tentando sobreviver usando práticas do início da Revolução Industrial para com o assalariado, resta-nos pedir como Castro Alves: “Levantai-vos heróis do Novo Mundo! / Andrada! Arranca esse pendão dos ares”. Ou, como nosso devoto povo: Valha-nos Nossa Senhora Aparecida!