Padre Edvaldo e a aposta de Pascal

Depois de dez anos pregando o evangelho na cidade, padre Edvaldo de Paula do Nascimento se despede de Piracicaba. Fica a lembrança de suas famosas missas de quarta-feira. Alguém postou, em algum lugar dessa vasta internet: “a quarta-feira deverá ser decretada como Dia Municipal da Saudade”. É gigantesca a quantidade dos fiéis que frequentaram o Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres motivada pela palavra do padre Edvaldo. E agora todos eles ficam, em certa medida, órfãos.
 
Mesmo aqueles que não professam a fé católica, como é meu caso, se deparam com o carisma que esse sacerdote conduz suas missas, se impressionam com a modo com que ele traduz as palavras do evangelho. Padre Edvaldo deixou sua marca na cidade, mesmo entre aqueles que não frequentam sua missa, não adotam sua religião. Ato louvável, pois ele transcende as barreiras religiosas para transmitir a mensagem cristã moderna, bem afinada com o Papa Francisco. Em sua oratória não há preconceito, não há discriminação, ao contrário, há sempre palavras de acolhimento, estímulo e fé. 
 
Gosto muito de uma de suas frases enviadas aos fiéis por SMS (sim, isso mesmo, ele possui uma lista de milhares de celulares cadastrados para receberem suas mensagens de texto): “ao contrário do que dizem por aí, Deus é permissão! Ele insiste em dizer que você pode…”. É uma frase arrojada. Padre Edvaldo enxerga um Deus bondoso e permissivo, um Deus que nos permite e não nos tolhe.
 
Ao respeitar as escolhas pessoais de seus fiéis, ensinando que Deus as acolhe, as permite, em outras palavras, ele nos ensina a aceitar as diferenças individuais, sejam elas de crença, de filosofia, de credo político ou mesmo as escolhas de vida pessoal. Não importa de onde você venha, não importa no que você acredite, Deus acolhe.
 
Ao nos despedirmos do padre Edvaldo, católicos e não católicos, lembrei-me da aposta de Blaise Pascal (1623-1662), matemático, filósofo e teólogo francês, que nos legou a obra Pensées (Pensamentos), publicada postumamente em 1670. É nela que ele desafia a incredulidade e a descrença de sua época sobre a existência de Deus. Segundo Pascal, não é possível chegar na crença da existência de Deus racionalmente, porém, ele nos propõe uma aposta (é importante lembrar que foi ele quem nos legou a teoria do cálculo das probabilidades matemáticas).
 
Apostar na existência de Deus e pautar sua existência terrena como se Ele existisse é a opção onde você obtém um maior ganho, mesmo que a veracidade do fato não possa ser comprovada. Segundo o filósofo francês, se você acredita em Deus e estiver certo, terá, depois da morte, uma vida tranquila no céu; mas se você estiver errado, nada perde, pois, ao morrer, não terá mais consciência sobre a vida após a morte. Por outro lado, se você não acredita em Deus e estiver certo, de nada valerá seu ganho, pois se Deus realmente não existir, isso não lhe acarretará nenhuma vantagem ou benefício. Contudo, se ao morrer, você descobrir que Deus existe e em sua vida terrena não acreditou Nele, aí sua perda será enorme, pois não terá as benesses do paraíso e irá para o inferno. 
 
As possibilidades propostas por Pascal são, na verdade, pensadas como uma “escolha em um cenário de indecisão” e, assumindo essas premissas, a escolha de viver como se Deus existisse domina todas as outras opções, se apresentando como a melhor delas. Daí porque, para Blaise Pascal, apostar que Deus existe é a melhor decisão de vida e onde há a perspectiva (ou chance) de um ganho infinito; em outras palavras, se você estiver certo em sua aposta, ganha tudo, mas se estiver errado, não perde nada. 
 
Não sei se padre Edvaldo vai concordar com Pascal, mas a mensagem que ele nos deixa é muito parecida com a do filósofo francês: vale a pena apostar na vida.
 
Marcelo Batuíra Losso é diretor do Jornal de Piracicaba.