Papo entre amigos velhos

David Chagas

Sigo meus dias sob a luz do sol. Não sei bem o que esperam de mim os olhares de espanto ao saberem quanto conto de tempo na terra, mesmo já tendo sentido, na distância, a sombra estranha da indesejada. Deus, poderoso como é, sabendo-me saudoso dos meus antes mesmo de ir, me faz supor filho predileto, e dilata meu tempo de estar. Sabe também que é preciso ver a justiça altear-se para dar sentido ao que determinou.

Aprendi, com alguma paciência, a pôr os incômodos físicos à larga. Há tanto por recolher. Um aceno verdadeiro, uma palavra gentil, um gesto de ternura. Estar com os meus para sentir o amor que sobeja permitindo redistribuir entre esquecidos.

Houve um tempo, destes que, hoje, parecem desenhados a giz porque se desfizeram, que deixava o rastro do afeto entre alunos, funcionários desfavorecidos, crianças órfãs, idosos. Faço ainda, com menos frequência. Pouco ou nada custa uma visita a hospital para quem recebeu tantas quando lá esteve, uma passada pelo asilo de menores ou de idosos, uma conversa na esquina com um pedinte faminto. Neste tempo de absoluta intolerância, ficou difícil tocar o olhar humano de modo a que sua alma responda ao gesto feito. Não importa.

Por isso tudo, entre um tropeço e outro, mas com alegria, mal o sol desfaz o último risco de noite, vou à piscina exercitar o físico que pede ajuda para resistir. Na academia onde garanto bem-estar ao que me resta de vida, fico atento às conversas que ouço. Observar provoca escrever. Obediente ao dom e ao desejo, me obrigo a isso.

Manhã destas, um senhor que se alinha à raia contígua à minha, nascido cearense, numa pausa para descanso se pôs a relatar sua vinda ao sul. Não satisfeito, contou o concurso público a que se submeteu, acertando passo junto à Receita Federal.

Delícia de relato. Com detalhe, revela suas idas à terra natal, onde “canta a jandaia nas frondes da carnaúba” e onde Iracema, a virgem dos lábios de mel, cabelos mais negros que as asas da graúna e mais longos que o talhe da palmeira faz correr sua história.

Outras braçadas mais na piscina e o velho contador de histórias para e diz que o mar de sua terra natal é o mesmo, verde e bravio. Alencar, o que espalhou a história de Iracema, clamou que serenasse para que “a brisa pudesse alisar docemente a vaga impetuosa fazendo resvalar o barco aventureiro à flor das águas”. Sem cansar, explica que seu povoado, distante 400 quilômetros de Fortaleza, já foi o maior centro produtor de algodão do sertão nordestino, do sertão que sofre com o dardejar ardente dos raios do sol, nas horas em que, a pino, revela força e fulgor.

Gosto muito de ouvir. Incansável, prossegue depois nas horas em que juntos saboreamos um café o que, distante da terra natal, descobriu vindo para o Sul. A última conversa me lambuzou de poesia quando tentava animar a um outro senhor a que nadasse.

Ô fulano? E você não nada? ­ Não, responde o outro. Deus que me livrou da morte três vezes, uma delas em rio, duas no mar, e no rasteiro, vai que dormita. Tô ferrado! Que me livre e guarde! Sufocado de água não quero não.

Também já escapei disso, se apressa. Foi no Rio de Janeiro. Não sabia que em Ipanema, o mar começa raso que dá gosto caminhar para, de repente, fazer um corcovo e trair. Pronto. Que desespero! Caçava o chão, caçava o chão e não encontrava nada. Até que alguém, reconhecendo na distância minha pequeneza, veio a meu encontro e me trouxe para o garantido lugar da vida.
Diga se não vale uma conversa desta? Para quem, enganando a idade que tem, passa por mais jovem e escuta para aprender com a experiência mesmo estando alguns anos à frente, é uma delícia! O sertão faz marcas, aqui lá. Escapei delas.