Para Dona Vida

Ando triste com Dona Vida…

Não me acostumo com os modos dela. São bruscos demais. Tem muita gente linda indo embora e isso me faz sofrer terrivelmente. Ela vem buscar um por um e essa fila me assusta. Já falei com ela, pedi pra parar com isso. “Não está certo” – digo, enfrentando-a sem medo. Ela faz uma reverência sutil e sai de cena.

Qualquer hora faço um acerto de contas com ela e terá de me trazer de volta os lindos que já se foram. Estou cansada, não quero mais ir a velórios dos meus queridos. Não quero mais receber telefonemas de morte. Quero notícias de vida!

No entanto, Dona Vida age à maneira dela e pronto. Não gostou, gostasse. Problema seu. Toda poderosa, ela faz e desfaz, não pede licença e nem pede, por exemplo, “por favor”. Imagine só a gente fazendo um favor à Dona Vida!

Já a chamei de alguns nomes feios. Sabe o que ela fez? Ela riu. Sim, simplesmente riu. Eu perguntei: “Riu de mim ou para mim?” – “Nem uma coisa nem outra, sua boba” – respondeu. Isso quando ela responde. Em geral, vive calada, não fala com ninguém, cheia de mistérios. Corremos atrás dela como loucos, numa canseira infinita. E ela lá, calmíssima.

Quero vida! Aonde vai dar tudo isso, por gentileza? Ó que azul lindíssimo cai sobre o terraço da minha casa! A cozinha se abre para um gracioso espaço interno, onde coloquei cadeiras, meus vasos de plantas, e onde tomo sol. Ali, rezando meu terço, clareando meu cabelo com “Biondina”, começo a pensar na vida. Pra falar a verdade, a gente pensa na vida o dia inteiro. Ela ocupa nossos pensamentos sem cessar, sem dar trégua. Mas vamos lá, que nada é estático. Tudo muda o tempo todo no mundo.

Então, penso que viver é tudo isso. É ir descobrindo as coisas pequeninas que fazem o enlevo do nosso coração. É continuar cultivando as belezas que nos emocionam, cuidar do que realmente importa para nós. Arrumar nossas gavetas e nossos armários. Dançar, mesmo solitariamente, ao som de uma linda canção romântica. Cozinhar o prato preferido. E poder tomar sol!

Eu morreria sem isso. Não me refiro ao bronzeamento, agora no inverno. Tomo sol à moda europeia, vestida. Se a temperatura sobe um pouco, arrisco menos roupas. Mas que delícia é uma cadeira que tem encosto regulável e nos deitarmos nela para o banho de sol. Tem vitamina D, fixa o cálcio nos ossos, gente!

Neste espaço de sol e luz, faço a prece necessária. Rezo pelos meus amigos e irmãos de caminhada. Os que estudam os “tempos” e esperam os acontecimentos. Rezo por todos que me leem neste espaço sagrado. Para mim, é sagrado. Rezo pelas almas do Purgatório. Rezo para Dona Vida não ser muito drástica, nem muito afoita, nem muito feroz, nem muito antipática…

De um modo geral, eu a acho até simpática. Ela foi boa para mim, não posso reclamar. Só peço saúde, Dona Vida, pode ser? (Imagine se ela vai responder…). Peço a graça diária do entendimento, de estar sempre disposta a estender as mãos, a ajudar, a perdoar e a amar. Às vezes, creio ter encontrado o sentido da vida.

Ah, Dona Vida! Que a poesia de viver seja nossa mais bela salvação!