Para entender a vida

Você entende a vida? Diga que sim, por favor! E me dê uma explicação lógica, plausível, cabível, fundamentada na sólida argumentação das certezas e das questões profundas que permeiam o universo dos mortais viventes do planeta Terra.

Cansei de buscar um sentido para a vida e estou quase desistindo… Mas não! Não quero desistir! Não me deixem desistir! Continuo saindo lá fora, na rua do condomínio onde moro, à noite, para espiar as estrelas, ouvi-las e lançar a elas as perguntas e as súplicas que habitam meu pobre peito desde sempre.

Que as constelações distantes sejam testemunhas do meu assombro, da minha inquietude, do meu desassossego diante de tudo, diante deste vasto mundo que se desintegra cada dia mais, pondo em risco nossa sanidade mental. Não dá para ser habitante deste planeta de forma passiva, apenas existindo, sem questionar o que acontece ao nosso redor.

A saúde e a doença. Ah, meu Deus! O bem e o mal! O riso e a lágrima. A tristeza e a alegria.  A busca constante pela paz! Dia destes, li uma frase de São Francisco de Sales: “O bem não faz barulho. E o barulho não faz bem”. Sim, é verdade. Como é bom o silêncio. Para mim, o silêncio é o alimento da minha alma, do meu espírito.

Às vezes, no possível remanso de uma tarde, deixo o coração vagar pelas campinas em flor, pela varanda fresca de uma casinha graciosa, acolhedora, simples e bela como a “casinha de Nazaré”, onde se pode entrar com o corpo e a alma, na certeza do repouso e da recuperação das forças.

Bendita seja a nossa casa, a mesa onde fazemos nossas refeições, nosso quarto bem arrumado, as colchas floridas sobre a cama, nossos armários, roupas e sapatos. Benditos sejam os cômodos que nos recebem, os nossos afazeres, o alimento que preparamos todos os dias, a água que bebemos e o banho que tomamos.

Entendo a vida por essas belezas, por estas delicadezas de Deus para conosco. Mas não a entendo em sua magnitude misteriosa e, muitas vezes, cruel. E repito os versos de Toquinho e Vinícius: “Às vezes, quero crer, mas não consigo / É tudo uma total insensatez / Aí, pergunto a Deus, escute, Amigo / Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.

Mas não quero lamentar por não entender a vida e a razão de tudo, sua essência mais profunda e nossa trajetória neste mundo, o tempo que passa, ou nós que passamos,  mãos que se entrelaçam e depois se desencontram, no contínuo exercício de existir.

Talvez seja esta a beleza intrínseca da vida: não entendê-la nunca. Não compreender por que estamos aqui, habitando o planeta azul que gira no espaço ao redor do Sol, mecanismo que faz o dia e a noite se cumprirem religiosamente, nesta órbita que a Terra desenha na elipse da Criação, enquanto os mortais sonham com o amor, o sucesso, o poder e a glória.

Que a glória do mundo não nos atraia. Contentemo-nos com o que temos e com o que somos, sem inveja de nada e de ninguém, permanecendo pequeninos, para merecermos a coroa de quem combateu o bom combate e terminou a corrida. Haverá um pódio celeste para os bravos vencedores, os que se gastaram na caridade, no perdão e no amor.