Páscoa

“Os homens altercam pela religião; escrevem por ela; lutam por ela; morrem por ela; fazem tudo, menos viver por ela”. 
(Charles Calercolton)
 
Enquanto os povos antigos, sentindo-se necessitados de um apoio do sobrenatural ante as forças da natureza e as enormes dificuldades de seu dia a dia, buscavam ajuda em religiões politeístas, os hebreus acreditavam em um só Deus.
 
É da religião hebraica que provém o cristianismo e a festa que hoje comemoramos.
 
As três principais festas judaicas eram: Páscoa, que comemorava a libertação do Egito; Pentecostes, o recebimento do Decálogo, e Tabernáculos, a viagem pelo deserto.
 
A igreja católica se apossou da Páscoa judaica, mas comemora a ressurreição de Cristo no terceiro dia após seu sepultamento, e Pentecostes, quando festeja a vinda do Espírito Santo, que, em Atos 2, assim é descrita: “de repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e repousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas conforme o Espírito Santos lhes concedia que falassem”. 
 
Sobre a ressurreição, São Paulo apóstolo foi categórico em sua carta aos Coríntios: “[(…) Ora], se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição dos mortos. Se não houver ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã nossa pregação, e também é vã vossa fé”.
 
 Paulo apóstolo intima os cristãos a acreditarem nele, pois, sem ela é vã sua crença.
 
Independente de ser religioso, agnóstico, ou mesmo ateu, a razão nos aconselha a construir uma convivência ética e solidária em nossos relacionamentos sociais. A festa de hoje nos induz a isso.
 
Agnósticos e ateus, mesmo não crendo no sobrenatural, não devem descrer da necessidade dessa convivência ética e solidária, que as religiões ensinam.
 
No entanto, não é o que acontece. Swift, já no século 18, em seu livro Pensamentos sobre Diversos Assuntos, deixou-nos: “temos bastante religião para fazer-nos odiar uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros”.
 
Há os que afirmam que as religiões são um mal necessário e, na realidade, servem para os poderosos não abusarem e os infelizes não se desesperarem.
 
O que se constata é a procura dos fiéis em estabelecerem uma comunicação íntima com seu Deus, e dele obter favores, através dos ritos. A religião deve estar no coração de cada um, não nos rituais.
 
Anatole France escreveu: “quem faz uma religião não sabe o que faz. Poderia dizer a mesma coisa a respeito daqueles que fundam as grandes instituições humanas, ordens monásticas, companhias de seguros,sindicatos, etc. Esses estabelecimentos comumente não correspondem às intenções de seus fundadores e acontece, às vezes, que se tornam coisas completamente opostas”.
 
Aprendi que de gosto, cor e religião não se devem discutir. A religião, seja qual ela for, só será útil, se aqueles que a professam sejam gente boa. Todas elas precisam ser consideradas como idiomas com os quais cada um se comunica com seu Deus, portanto, não há motivos para brigas e discriminações entre pessoas de diferentes credos.
 
A Páscoa não deixa de ser uma festa, além de bonita, capaz de passar-nos uma mensagem confortadora, iremos ressuscitar e os que foram bons irão para uma eternidade de gozos. 
 
Esse artigo poderá desagradar alguns leitores, mas confesso que o escrevi escorado na frase de Einstein: “ante Deus somos todos igualmente sábios e igualmente tolos”.