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100% de talento
Sabrina Franzol
25/01/2017 13h54
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Trinta e um anos de idade e diretora da primeira série brasileira original da Netflix, serviço global de TV por Internet, com mais de 83 milhões de assinantes em mais de 190 países. Este enxuto “currículo” é da piracicabana Daniela Caroline Sândalo Libardi, uma das responsáveis pelo seriado 3%, que estreou em novembro do ano passado na Netflix e aborda o processo de seleção de cidadãos de um mundo pós-apocalíptico para viverem em local de vida digna.

Filha da bancária aposentada Eliana Aparecida Sândalo Libardi e do advogado Renato Benvindo Libardi, e irmã de Marcela, de 25 100% de talento anos, Dani mora desde 2006 na capital paulista, onde graduou-se em audiovisual pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes — Universidade de São Paulo). Além de 3%, ela desenvolveu diversos projetos de imagem e som, como webséries, videoclip e game. Em entrevista à reportagem da Revista Arraso semanal, relatou como foi criação de 3% e o que ainda almeja profissionalmente.

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Como surgiu seu interesse pelo audiovisual?

Desenho desde pequena. Minha mãe me colocou na aula de desenho aos seis anos, ainda antes de ser alfabetizada. Fiz aula com o professor Joji Kussunoki em Piracicaba por vários anos. Então, me expressar artisticamente foi sempre muito natural para mim. Eu sabia que “quando crescesse” ia ser artista de alguma forma. Só não tinha certeza se seria artista plástica. O que me move em fazer audiovisual é me comunicar com muitas pessoas ao mesmo tempo. Fazer um filme (ou série) é falar de assuntos e sentimentos relevantes para você e de alguma forma chegar em pessoas ao redor do mundo, que você provavelmente nunca vai conhecer, mas que estão assistindo seu filme e que vão colocar o olhar delas sobre aquela história. E aí o filme não é só exclusivamente o seu ponto de vista sobre a história. É, também, o que cada espectador entendeu e sentiu do filme e o que aquela história mudou, nem que seja um pouquinho, a vida de alguém.

Como foi o início de 3%?

O Pedro Aguilera, que estudou comigo na faculdade, é o criador da série. Ele teve a ideia em 2009, para um edital chamado FicTV, quando ainda estávamos no curso universitário. Quando vencemos a primeira etapa do edital, tivemos a oportunidade de fazer a websérie, que foi dirigida por mim e outros colegas de turma, a Daina Giannecchini e o Jotagá Crema. Depois, em 2011, resolvemos colocar a websérie no YouTube, onde ela encontrou um público muito entusiasmado e querido. Encontramos fãs não só no Brasil, mas no resto do mundo, que inclusive fizeram legendas em várias línguas e ajudaram a aumentar o público da websérie, divulgando-a mais e mais.

Tentaram levar 3% para a TV?

Ficamos alguns anos tentando com vários canais de TV que 3% tivesse sua primeira temporada completa até que o vice-presidente de conteúdo original internacional da Netflix, Erik Barmack, viu a websérie e entrou em contato com a gente. Não poderia haver lugar melhor do que a Netflix para fazer o 3%. A primeira temporada é um produto diferente da websérie, com elenco e história diferentes. Mas a ideia central do Pedro Aguilera é a mesma. A Boutique Filmes produziu a primeira temporada. A direção geral da série é do Cesar Charlone, que foi indicado ao Oscar pela direção de fotografia de Cidade de Deus.

Um dos temas abordados em 3% é a meritocracia. Por que este assunto?

Meritocracia e injustiças sociais no Brasil são temas muito relevantes. Vivemos em um mundo que constantemente nos testa e seleciona. Vestibular, entrevista de emprego, mercado de trabalho são só alguns exemplos. É muito cruel colocar no indivíduo a culpa pelo fracasso, ignorando desigualdades sociais, racismo e machismo estruturais e outros preconceitos. Gasta-se muito tempo e energia da vida tentando ser o mais rico, o mais famoso, o mais poderoso. E não dá pra todo mundo ser o mais bem-sucedido. Será que essa é a melhor forma de organização social?

Como pensaram as personagens de 3%?

Cada um tem seu dilema. Me orgulho muito de termos personagens femininas fortes, ativas e poderosas. E também me orgulho de termos um elenco que reflete a diversidade do povo brasileiro. Com atores e atrizes negros e negras ocupando também papéis de poder.

Você é diretora da primeira série brasileira exibida e produzida pela Netflix. Quanto isso é importante para você?

É um sonho que deu certo. Contar uma história que acredito, ter um trabalho do qual me orgulho em uma plataforma tão legal quanto a Netflix, disponível para 190 países, dublada e com legendas, é muita coisa. A ficha ainda nem caiu.

Depois de 3% na Netflix, houve alguma situação envolvendo a série que te marcou de alguma forma?

Recebi uma mensagem no Facebook de um italiano falando que estava assistindo ao 3% e notou muitos sobrenomes italianos nos créditos da equipe. E que o meu sobrenome, Libardi, tinha especialmente chamado a atenção dele porque há muitas pessoas com esse sobrenome na cidade em que ele nasceu. Ele nasceu em Levico Terme, uma pequena cidade com atualmente 7.000 habitantes no norte da Itália, onde eu nunca pisei na vida e justamente de onde meu bisavô saiu para vir ao Brasil, se não me engano em 1888. Claro que não fiz o 3% pra encontrar parentes distantes pelo mundo, mas é um acontecimento que me mostrou a assustadora força do audiovisual (e da Netflix).

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(Foto: M.Germano/JP)

Acontecem muitos imprevistos durante a produção dos episódios? Como lidar com eles?

Uma das coisas mais bonitas do cinema é o encontro do premeditado com o inesperado. Passamos meses preparando, ensaiando, pensando em cada detalhe, às vezes exaustivamente. Você chega no dia do set, para gravar uma cena, sabendo onde você quer por a câmera, que lente usar, o nível de emoção que quer que os atores atinjam, onde aquela cena tem que chegar. Você sabe e toda a equipe e atores sabem também, porque já foi muito conversado na pré-produção. No set é hora de executar as ideias que foram preparadas. Mas claro que nem sempre tudo sai dentro do planejado, tanto porque coisas dão errado quanto porque ideias novas surgem na hora. Presença de espírito e saber na hora quais mudanças vão ajudar a contar a história do filme é algo essencial ao diretor. Às vezes, o que dá errado pode gerar uma ideia melhor.

Sobre a próxima temporada de 3%, o que o público pode esperar?

Não posso falar muito sobre a segunda temporada. Posso dizer que estamos muito empolgados para continuar contando a história do 3% e que vamos trabalhar muito para não decepcionar os fãs, que não param de aumentar.

Qual a sua avaliação da produção audiovisual brasileira?

O audiovisual brasileiro tem muita gente talentosa e com muitas histórias para contar. Culturalmente somos um país tão rico, não tem porque o nosso audiovisual não ser assim. Acredito que estamos progredindo. Acho fantástico cada vez mais fazermos produtos de gênero: comédia, terror, ação... E é ótimo que o público brasileiro está disposto a consumir audiovisual de qualidade falado em português.

Quais seus sonhos profissionais?

Eu sou feminista e tenho tentado colocar esse tema de alguma forma no meu trabalho. Na verdade, tenho uma meta de combater machismo, racismo e outros preconceitos com a arma que eu tenho: o audiovisual. Para mim é importante levar para tela personagens longe de estereótipos. Por exemplo, uma menina que vê uma personagem mulher forte e independente começa a entender que ela pode ser assim, se ela quiser. Personagens inspiram pessoas reais. É também muito importante incluir e representar nas telas e capas de revista pessoas que ficavam excluídas do protagonismo. É uma forma de dizer que mulheres, negros, homossexuais, trans, gordos, enfim, todas as pessoas alvo de preconceito, podem ocupar o lugar que elas quiserem na nossa sociedade, inclusive o de protagonistas. O presidente dos Estados Unidos foi negro primeiro na ficção (no seriado 24h, de 2001, da Fox, havia um presidente fictício que era negro) e só depois Barak Obama, o primeiro presidente negro da história dos EUA foi eleito, em 2008. Fazer audiovisual não preconceituoso é uma forma de inspirar e combater o preconceito na vida real. Ou pelo menos ajudar um pouquinho.

 
 
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