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Artista do silêncio
Rubens Vitti Jr.
17/01/2017 14h28
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São 40 anos de vida artística e 30 anos de trabalho à frente do Cemitério Parque da Ressurreição — que pertence a diocese de Piracicaba. O artista plástico Osvair Antonio Peron tem seus trabalhos em artes plásticas assinados em diversas igrejas de Piracicaba, de cidades do interior paulista além de Santa Catarina e Bahia. Trabalha com desenho e pintura, história da arte, cerâmica e escultura, artes, orientação educacional, arquitetura secular e sacra, passando por diversos cursos, inclusive na Itália.

Por sua história de vida na área artística, sua passagem na administração do Cemitério Parque da Ressurreição foi marcada pela inovação no conceito paisagístico de um local fúnebre e de luto. Áreas externas como cascatas e lagos, viveiros de pássaros, parques infantil, canteiros de flores e jardins ganharam toques de artes inspiradores. Suas obras também estão na capela e nos velórios. O artista ainda assinava exposições, sempre no mês que se comemora o Dia de Finados. Demitido, porém, Peron afirmou que deixou o projeto do Cemitério inacabado. Nesta entrevista, ele explica como queria ter deixado o espaço, além de falar sobre arte e sua ligação com a morte após tantos anos trabalhando tão próximo do momento de despedida da vida. 

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A proposta do criador do cemitério Parque da Ressurreição, Dom Aniger, que inaugurou o mesmo em 1971, era de que este cemitério deveria ser um jardim ameno, que lembrasse e celebrasse a vida, a ressurreição. Um jardim onde todos seriam sepultados sem distinção de classe social, religião, raça ou grau cultural.

Quais os principais desafios que enfrentou para fazer do cemitério também um local aberto às artes?

O maior desafio foi mais no sentido de que os artistas acostumados a criar obras para salões, ambientes fechados e protegidos, tinham que aprender a criar obras expostas ao ar livre, a ações do tempo, como sol, chuva, vento, etc. Além das obras mais ou menos permanentes, pois nada é permanente, a maior parte delas feitas por mim e algumas de outros colegas, foi possível iniciar o que duraria por dez anos, a Expoparque. Essas Expoparques foram exposições montadas a céu aberto, na praça central do Cemitério Parque da Ressurreição, com a participação de artistas plásticos, artesãos e curiosos. Essas exposições sem seleções prévias, sem premiações, só puderam acontecer graças à colaboração de pessoas maravilhosas, que quiseram num espaço alternativo, com as mais variadas técnicas, materiais e linguagens externar mensagens de beleza esperança, otimismo e fraternidade. Agradeço profundamente a todos estes amigos que participaram de uma ou de várias destas dez Expoparques.

Um ano depois, como está a situação do cemitério?

Não tenho mais contato com o local e por isso não posso responder essa questão.

Muitas pessoas ainda pensam que você ainda atua no cemitério. Com toda a mudança no layout, como você se sente?

Eles vêm me perguntar sobre a reforma e ampliação que comecei em minha administração ano retrasado. Aproveito para esclarecer a quem desejar. O prédio precisava de uma reforma no telhado, no forro e na estrutura de ferro que sustentava tudo, pois já estava corroída pela ferrugem. Assim, no projeto deveria ser incluso a cozinha com refeitório para os funcionários, um depósito de materiais de limpeza, sala de estar e descanso também para os funcionários, entre outras tantas coisas. Pensando em tudo isso me veio a ideia de construir um segundo andar em todo o prédio da entrada do cemitério.

A ideia também era ter um crematório?

Há algum tempo atrás estávamos pensando em construir um crematório no cemitério e, na época, Dom Moacir Vitti, então bispo da diocese, concordou com a proposta, até porque na cidade não havia nenhum. Na minha opinião, o crematório deveria formar um conjunto com os velórios e assim ficaria tudo separado, os velórios o crematório na praça central, sem contudo perder o jardim que há lá e colocando uma capela de ezéquias e despedida, pois, às vezes, as celebrações no Parque são muito concorridas e não há um local adequado para tais celebrações.

O que houve quando Dom Fernando assumiu a diocese?

Como o cemitério pertence à diocese de Piracicaba e tem como presidente o bispo em atuação, fomos ter um diálogo sobre tais ideias com Dom Fernando, que acabara de iniciar seu governo. Nós o consultamos a respeito da construção do crematório e ele concordou. Diante disso, levei avante a ideia de ampliação do prédio da entrada e do remanejamento dos locais que mudariam de lugar para podermos no futuro fazer a construção do crematório. Assim contatei uma amiga arquiteta concursada da cidade de São Paulo, com muita qualidade profissional, e discutimos as ideias. Ela veio diversas vezes para fazermos tudo bem adequado e atendendo às necessidades do parque. Em uma dessas visitas ela me disse que conhecia vários cemitérios-parques em São Paulo, que eram mais chiques e glamourosos que o da nossa cidade, mas que nenhum passava o calor humano que sentiu no Parque da Ressurreição.

Porque uma galeria de arte?

Desde o início de minha gestão, sendo um artista plástico com formação superior na área, aproveitei esse talento e gosto para fazer um marketing cultural do cemitério. Para mim a arte é a mais sublime expressão do ser humano depois da oração, e a verdadeira oração também é arte. Orações e cânticos religiosos são obras de arte e a arte sempre esteve ligada às celebrações fúnebres, civis e religiosas. E ainda mais para que o Parque da Ressurreição voltasse a oferecer às crianças, adolescentes, jovens e adultos oficinas de artes ministradas por artistas da cidade ou região.

Como seria a fachada?

A fachada do prédio foi pensada como um memorial, o logotipo do Parque seria feito com vidro blindado, a parte negativa do desenho ficaria em vidro incolor e a positiva em vidro verde. A lâmina já construída na lateral esquerda com 13m de altura seria revestida de mosaico em cacos de cerâmica formando um grande degradê do bordô ao creme e sobre este mosaico seria fixado um Cristo ressuscitado de 5m feito em telinha de aço inoxidável, semelhante ao Cristo que tem na capela. Ainda na fachada ficaria um outro mosaico com o nome do cemitério ocupando a extensão quase toda. Ao lado da lanchonete havíamos pensando em um espaço gourmet onde teria um pergolado com trepadeira sobre ele e algumas mesas e cadeiras para as pessoas ficarem confortáveis, na parede ainda um mosaico fixado.

Porque a reforma parou?

O projeto foi apreciado e incentivado pela então equipe diocesana de arquitetura e arte sacra e isso consta de uma ata. Tenho aqui a oportunidade de também deixar claro que o projeto foi apresentado e aprovado por Dom Fernando e quando recebi os diversos orçamentos que procurei optei pela que oferecia melhores condições. Assim recebi o incentivo do bispo que me disse para ir em frente com o projeto, sugeri até mesmo que fosse apresentado tudo à diretoria do Parque e ele me disse ser desnecessário, foi então que começamos a construção. E quando a primeira etapa estava concluída me foi comunicado que ficaria somente até dezembro daquele ano, assim os projetos para que tudo ficasse como o planejado acredito que foram alterados.

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(Foto: M.Germano/JP)

Você queria ter continuado?

Minha pretensão era ficar mais um ano na administração deixar tudo funcionando e restaurado com muita arte e jardins para sempre trazer vida. A galeria seria um espaço expositivo para mostrar os trabalhos feitos nas oficinas e também para trazer à cidade exposições de artistas nacionais e internacionais, individual e coletivas enriquecendo a cultura da cidade.

Fale um pouco da importância de deixar um cemitério com um ar mais leve, inclusive bonito.

Quando aceitei o convite de Dom Eduardo para ser o administrador do cemitério em questão, pensei em fazer do meu trabalho um apostolado, um ato de amor. Queria exprimir e testemunhar o aspecto central e fundamental da fé cristã, a ressurreição, que tudo falasse de vida e não de morte. Deus é verdade, justiça e beleza.

Como é sua relação com a morte? Mudou após esses anos de trabalho?

Mesmo antes de trabalhar no Cemitério minha relação com a morte foi sempre tranqüila, pois desde minha infância e especialmente na minha juventude amadureci muito em minha fé na ressurreição e a certeza que te dá coragem de enfrentar tudo na vida vem daí!

O que você aprendeu com toda a situação que viveu com seu desligamento do cemitério?

Aprendi mais ainda que Deus é o único bem que sacia, que não decepciona, que vale a pena ser o ideal de sua vida. Que tudo, tudo passa, só Ele permanece.

 
 
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Comentários

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    Dom Salvador Paruzzo - 02/02/2017 23h09
    Parabens Osvair Peron pelo trabalho realizado. Ainda mais pelo testemunho de fe e desapego: "Tudo passa, só Deus permanece". Obrigado.