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Empreendedor por natureza
Ana Rízia Caldeira
09/05/2017 14h51
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Foto: M. Germano/JP

O ano era 1972, quando nasceu uma ideia — incentivada por um curso de Liderança, Relações Humanas e Administração de Empresas — em um pequeno espaço e com um acervo para a realização de pequenos eventos e ocasiões simples.

De lá para cá, o plano se transformou em uma empresa, que funcionava em casa, de maneira bem modesta, e conquistou a confiança dos clientes e fornecedores, crescendo e tornando-se a famosa Casa de Festas Friso de Ouro. Protagonista dessa história, Gabriel Duarte divide os frutos de seus esforços com a esposa e companheira de trabalho, Arinda Aparecida Fontanezzi Duarte, e com seus filhos, os grandes motivadores e auxiliares da empreitada. Do alto dos seus 85 anos bem vividos, o proprietário comemora o sucesso da ideia pioneira na cidade e que, há mais de 45 anos, vem se destacando entre as maiores empresas do ramo de locação de materiais para eventos. Nascido no bairro rural de Anhumas, em 1932, o empresário trocou o campo pela rotina da cidade, onde trabalhou como tapeceiro de sofás e camelô, empregos que renderam a ele a qualidade de saber oferecer aquilo que buscam em seu serviço. Hoje, alojado em um prédio com incontáveis peças de louça, prataria, cristais e o mais nobre fio de linho, vindos de várias partes do país e de outros continentes, o também conselheiro consultivo da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba) atende, em média, 300 festas por final de semana durante as comemorações de fim de ano.

Como o senhor iniciou o empreendimento? Primeiro temos que começar pela minha infância. Vim da zona rural, da fazenda do meu avô, e lá só tinha uma escolinha onde estudei até o terceiro ano. Um pouco mais crescido, tive a oportunidade de vir para a cidade, com um ditado na cabeça que dizia que o homem que tem as unhas manchadas ficará rico um dia, e isso eu tinha (risos). Queria muito trabalhar e vencer na vida, por isso, quando cheguei em Piracicaba, fui atrás da Sorocabana (antiga estação ferroviária da cidade), pois eu era amigo do Dr. Pacheco Chave, que era deputado federal na época, e do Bento Gonzaga. Eles me levaram para São Paulo, fizeram minha ficha para trabalhar lá e quando chegou na hora de assinar os papéis não puderam completar porque eu não tinha escolaridade. Voltei triste para casa e fui na Boyes (antiga fábrica de tecido piracicabana), onde arrumei emprego, entrando às 5h e saindo às 13h. É claro que eu nunca saía nesse horário, sempre era mais tarde, como às 16h30, fazendo hora extra aos sábados e domingos. Isso fazia parte da minha vontade de ser alguém. Chegou uma hora que decidi mudar, fiz o curso do Mauro Viana e em uma aula dele foi falado de criatividade. Eu, que não tinha estudo, fiquei curioso sobre isso, me perguntando o que seria a criatividade. Ele explicou que era criar algo diferente e então, quando cheguei em casa, fui ao buffet de uma senhora chamada Margo e contei a história para ela, que me deu uma sugestão de trazer coisas para cá que ela, no caso, precisava, como pratos de friso de ouro, que ela ia buscar lá em São Paulo. Respondi que isso não seria possível, pois eu não tinha dinheiro para começar a fazer esse trabalho de camelô, e ela me disse que não tinha problema, pois me daria um empréstimo para começar com peças que poderiam servir até 300 pessoas e aos poucos eu pagaria esse empréstimo com os alugueis dos materiais. O senhor Dedini fez a mesma coisa, me deu dinheiro para comprar talheres de prata e pagar ele com a locação que eu faria. Depois disso, me juntei a um sócio e a Friso foi nascendo aos poucos.

Quais as dificuldades que o senhor enfrentou nos primeiros anos da empresa? Apesar de toda a ajuda, a dificuldade era trabalhar pois, no começo, era apenas minha esposa e eu. Íamos os dois levar as coisas em lugares como o Teatro São José, tinha que subir aquelas escadarias carregando o material e depois tirando para levar a outras festas. A própria instalação quando começamos era de apenas 40 metros quadrados. Iniciar algo traz dificuldades para qualquer um, mas saber lidar com elas faz toda a diferença. No meu caso, atualmente, aquele pequeno lugar se tornou um espaço de 1.600 metros quadrados, todo preenchido por louças, toalhas, talheres e todo tipo de material que se possa imaginar. A minha empresa é pioneira e o que se pensar tem aqui dentro para atender desde o gosto mais simples até os mais refinados, mas para isso precisou ter sempre um cabra macho na frente (risos). Me orgulho de ter iniciado do zero e poder olhar agora para tudo isso.

De lá para cá muita coisa deve ter mudado. Como o senhor se adequou às exigências do mercado? As coisas mudaram, e muito. Um dos principais motivos para isso foi por conta da cliente mulher. No começo de tudo, quando eu tinha poucas coisas e elas vinham com um sonho para fazer suas festas e viam, por exemplo, um jarro de prata, mas aquilo não cabia no orçamento, na hora da festa eu ia lá e colocava o jarro na mesa. O consumidor fez a empresa crescer e é preciso fazer alguns sacrifícios para agradá-lo. Minha grande vontade sempre foi de fazer um evento, um casamento, por exemplo, em que a noiva saísse feliz, sempre tive em vista realizar sonhos. Não se pode viver apenas de dinheiro, como fazem algumas entidades, mas oportunizar o que aquela pessoa que nos busca quer. Isso nos colocou em um caminho sem freios, tivemos outros negócios que vieram para desbancar a Friso e acabaram fechando, pois aqui temos de tudo, desde qualidade até o atendimento honesto, que começa com os funcionários e o que eles fazem para deixar tudo certo conforme imaginou cada pessoa.

O que deixa o senhor mais feliz em estar instalado na cidade? Piracicaba, para mim, é um dos melhores lugares do mundo, foi onde criei meus filhos, meus netos e venci nos meus objetivos. Digo isso com muita veemência, pois comecei como um camelô e hoje sou um grande empresário, isso com luta, trabalho e dedicação. Até hoje eu me levanto cedo, mesmo nos finais de semana, para ficar aqui e fechar o negócio ao anoitecer. A minha alegria de tudo isso não é só ser bem-sucedido, mas morar na cidade que me ajudou quando eu não tinha estudo e conhecimento. Aqui encontrei tudo que precisava e almejava. Amo as belezas, o rio que corta o município e a deixa mais encantadora, além do povo que aqui vive, honesto e trabalhador. Eu devo tudo a Piracicaba, aos meus funcionários e a minha esposa, que ficaram sempre ao meu lado, por isso digo que sou um pobre feliz. Não se pode encontrar infelicidade quando se tem uma família muito boa que te ajuda ou se mora em uma cidade hospitaleira, com um povo que te acolhe e te fez crescer.

Quanto à segurança, ela também mudou? Infelizmente ela mudou, como tudo muda. Este ano eu tive quatro assaltos e dois sequestros, mas isso nunca me desanimou, pois eu tenho fé na presença de Deus. Em um desses episódios, inclusive, consegui conversar com os assaltantes, dando uma verdadeira aula de catequese, e eles acabaram virando meus “amigos”. Contei minha vida e quando trabalhava na cadeia como benfeitor, levando os presos para serem ouvidos no Fórum sem nunca um deles fugirem sob minha responsabilidade. Tive três afilhados para educar, fiquei com eles por 15 dias, auxiliei na saúde e depois eles pagaram o que deviam à sociedade. Hoje os três possuem uma ótima casa, família e trabalham um em fazenda de um major no Mato Grosso, outro trabalha como chefe no Maluf e o terceiro está como gerente de um grande posto. Contei isso para o assaltante e ele agiu de maneira não violenta, cumprindo a promessa de não mexer em nada que não fosse na quantia que ele queria. Isso, para mim, não foi nada em comparação de estar bem e não ter sofrido nenhuma agressão. Apesar disso, eu acho a cidade calma, pois se olharmos para grandes metrópoles vamos ver como estão caóticas e perigosas. Mesmo que esses fatos tenham acontecido comigo, nunca me deixaram triste e não me fizeram parar na minha vontade de crescer, ser bom e proteger os meus direitos.

Falando em diretos, o senhor recentemente comentou sobre o grande aumento na conta de água para pequenos empresários e até mesmo para o cidadão comum. O Semae considerou suas reivindicações? Bom, o negócio de água está feio, todo mundo sabe disso. Fiz uma reunião mês passado na Acipi com o vice-prefeito e o presidente do Semae, porque não é justo a minha lavanderia pagar o esgoto com o mesmo valor da água, isso está errado. Já falei com o prefeito que não aceito isso, pois só a lavanderia engole tudo o que eu faço na empresa inteira, já que a água está subindo demais e o esgoto vai junto. Deveria haver alguém para ver isso e ajudar, pois a situação nos coloca em um trilho de fechar tudo por essa defasagem. As pequenas empresas também conduzem o Brasil e temos essa dificuldade por causa de uma cobrança tão absurda, só em 11 meses eu paguei mais de 57 mil em água. Por isso digo que o governo deveria olhar para as pequenas empresas e dar mais condições para a gente trabalhar. Isso aqui é sangue de mais de 50 anos de luta, e não quero ou vou fechar por causa de nenhuma dificuldade. Além disso, é um compromisso deles para com o cidadão, que deseja entender o porquê de taxarem tanto um serviço que às vezes acaba faltando. Estou esperando para ver como se dará isso.

 
 
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