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Em memória aos negros
Natália Marim
29/01/2018 16h53
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Nascido em 20 de maio de 1935, na Fazenda dos Irmãos Rossi, em Rio das Pedras, José Mariano — filho dos agricultores Graciano Mariano e Maria do Carmo Barbosa e neto de Maria Valencio que viveu na região de Piracicaba como escrava —, luta, atualmente, pela construção de um memorial afro no município. No mês passado, ele foi notícia no Jornal de Piracicaba porque se acorrentou na Praça Dr. Jorge Tibiriçá, no Centro, na região da Escola Estadual Morais Barros, para pedir, como provedor da Irmandade de São Benedito de Piracicaba, a construção de uma capela para abrigar um Memorial Afro-Brasileiro no local, em reconhecimento aos cerca de 5 mil negros escravos enterrados na área há anos. Em entrevista para esta seção Persona, Mariano falou sobre projeto do memorial, a infância pobre e o preconceito sofrido pela cor da pele.
 
Qual a sua relação com a escravidão?
 
Minha avó materna, Maria Valencio, foi escrava. Quando eu a conheci, era criança. Ela morreu e eu tinha cinco anos de idade. Naquela época, ninguém sabia com quantos anos minha avó morreu, porque contava-se o tempo de escravo. Eu me recordo dela. Ela nasceu naquela lei do Ventre Livre, mas, como os pais dela eram escravos, não existia conhecimento sobre quantos anos as pessoas tinham. O marido dela, meu avô, foi envenenado. Ela criou os oito filhos, entre eles minha mãe, sozinha. Eles trabalhavam em um sítio em Saltinho, fazendo serviços em fazendas de cana-de-açúcar e lavouras de café. Minha mãe sofria muito.
 
 
Como era a vida da sua família naquela época?
 
Meu pai era de Laranjal Paulista e veio para a Fazenda Dona Antônia, perto do Campestre. Minha mãe morava perto de Saltinho e, então, eles se casaram. Só conheci um irmão do meu pai. Eles viam que a vida no interior era difícil e iam embora para São Paulo. A comunicação, naquele tempo, era muito difícil. Eu fui registrado com cinco anos de idade, com acompanhamento do diretor do grupo escolar de Saltinho, Paulo Coelho. Meu pai era “fechado”, não conversava. Ele respondia apenas o básico quando perguntávamos. Minha mãe era mais aberta, porém, não tínhamos liberdade de nos abrir como hoje. Vivíamos na Fazenda Sertãozinho, em Saltinho. Meus pais carpiam e fomos criados na sombra do pé de café. Meu pai saía de manhã, muito cedo. Às 8h, minha mãe ia com o almoço. Jantávamos às 12h. À tarde, fazíamos a ceia. Tínhamos apenas três refeições diárias. Em noites de lua, eu não via meus pais, pois, assim que clareava o dia, eles já iam para a lavoura. Enquanto tivesse um claro de luz, eles deviam dar conta dos 7.000 pés de café. A vida foi difícil. Naquele tempo, tínhamos dificuldade em comprar roupas. Hoje, eu troco de roupa várias vezes por dia e capaz de não repetir, mas naquele tempo não existia isso. Era sofrimento. Sapato só usávamos quando podíamos comprar, se não andávamos descalços. Comecei a usar sapatos para trabalhar com 16 anos de idade apenas.
 
O dinheiro que tínhamos era para comprar comida fiado o ano inteiro. Comíamos o que tinha. Só pagávamos no fim da colheita. Comecei a trabalhar na roça aos 6 anos de idade, porque, se ficasse em casa, minha mãe me obrigava a socar arroz no pilão. Tinha liberdade para plantar milho. Tinha muita abóbora, melancia, melão e podia comer. Meu pai pescava muito, tínhamos criação de galinha e porco. Eu era muito companheiro do meu pai, onde ele ia, eu ia junto. Nós caminhávamos horas e horas a pé. Não era igual hoje, que tem condução. Fui criado assim, não tinha luxo. Era todo mundo pobre, vivíamos uma vida tranquila. É pela minha resistência que sou o que sou hoje.
 
Como veio para Piracicaba?
 
Na roça, onde nasci, não dava mais para aguentar. Naquele tempo, trabalhávamos em fazendas, nas plantações de café. Quando vencia o prazo, tínhamos que sair. Vivíamos assim. Era uma vida dura. Passamos pelas fazendas dos Irmãos Rossi, Montebelo, Irmãos Bortoletto e Família Zambetta. Vim para Piracicaba aos 23 anos de idade para trabalhar na Usina Santa Helena e ficamos nela por dez anos. Minha primeira safra na usina foi em 1958. O meu primeiro salário na usina correspondeu ao pagamento de toda a lavoura. Vim para a cidade de Piracicaba sozinho para morar em um cômodo na casa de um primo. Minha família foi depois. A usina deu serviço para meus dois irmãos, o mais velho e o segundo da família, abaixo de mim. Quando acabou a safra, fiquei em Piracicaba mesmo, fazendo serviços como servente de pedreiro, carpinteiro. Ao surgir nova safra, eu voltava para a usina.
 
De que forma o senhor está envolvido com o trabalho da Irmandade de São Benedito?
 
Eu sou membro do Conselho das Irmandades de São Benedito do Brasil. Desde 1824, existe a Irmandade de São Benedito. Hoje, a sede está localizada na Rua do Rosário, próximo à minha casa e à Câmara de Vereadores, no Centro. Quem me informou isso foi o Toninho Macedo. Ele me disse que havia uma possibilidade de restaurar essa irmandade. Comecei a levantar os problemas dessa igreja e isso deu muito trabalho. Os papéis do terreno e da direção da igreja sumiram, foram escondidos. Falaram para mim que esses papéis não existiam mais. Pelo que levantei, houve uma trapaça. O que era doado para a Irmandade, muitas pessoas tiravam. Desde 2003, venho lutando pela causa da igreja. Um dia, disse que iria fazer uma promessa. Enquanto eu não achasse os papéis da Irmandade de São Benedito, não pararia de lutar. Fiquei um dia acorrentado na Praça José Bonifácio, das 9h às 16h, de 13 de maio de 2010, como sinal de protesto pela falta dos papéis. Quando fui solto, prometi que, do dia seguinte em diante, procuraria todos os documentos. Não foi fácil, lutei muito para encontrar.
 
O senhor acha que esse protesto foi uma forma de chamar a atenção do poder público e da sociedade?
 
Inicialmente, o protesto foi para construção de um barracão de festa na Irmandade, mas a partir daí começaram a aparecer os obstáculos na busca pelos papéis. Do dia 14 de maio de 2010 em diante, eu prometi que iria procurar resolver essas dificuldades. A Prefeitura e a Diocese negaram ter os documentos da igreja e negaram conversar comigo sobre isso. Todos sumiram. Tudo isso me motivou a me prender na praça. Então, me acorrentar seria uma forma de chamar a atenção deles, sim. A ideia de fazer isso surgiu de momento, partiu de mim. Eu pedi a São Benedito para conseguir achar esses papéis e prometi que iria até o fim por ele. Eu considero que, na minha vida, sou um andarilho. Ando, ando e não paro.
 
Qual é a sua história com a fé?
 
Coloco sempre Deus na frente e vou andando. Eu uni a luta pelos negros com a minha fé. São Benedito é italiano, os pais dele eram escravos. Ele ficou na roça até 21 anos de idade. Foi viver com os eremitas de São Francisco de Assis. Depois, entrou para um convento da Ordem Terceira de São Francisco, em Palermo, na Itália, como cozinheiro. Ele não sabia ler nem escrever. Um amigo dele conta que ele foi professor. Até pouco tempo havia o corpo dele. Já Nossa Senhora Aparecida foi achada há 300 anos. Os dois estão comigo. Eu sou nascido e criado no catolicismo, frequento a igreja, fiz o curso de cristandade, a Escola Base, seminário. Tenho conhecimento.
 
Uma de suas lutas é para a construção de um memorial afro em Piracicaba. Por que isso é necessário?
 
Na mesma época, em 2010, quando procurei os papéis de São Benedito, achei informações de que em um espaço ao lado da Escola Estadual Morais Barros há mais de 5.000 escravos enterrados. Descobri tudo. Há muito tempo em Piracicaba havia separação entre os brancos e os negros, que eram enterrados em cemitérios diferentes. Quando o Cemitério da Saudade foi criado, os corpos dos brancos foram levados para lá. O cemitério dos escravos ficou ali, ao lado da escola. Pensando nisso, tive a ideia de criar um memorial que recorde as pessoas enterradas no local, sabendo do sofrimento delas. No tempo da escravidão, em Piracicaba quatro ou cinco pessoas escravas foram condenadas à morte. Fico imaginando o pai, a mãe, sabendo que seu filho iria ser executado. Isso corta o coração. A raça negra foi muito sofrida. No passado brasileiro, os negros vieram em navios negreiros. A África, na verdade, não é um país e, sim, um continente. O próprio negro vendeu o negro para o Brasil. Quando vinha para cá, era trocado de nome, recebia o nome do fazendeiro que comprou o escravo. Se o Brasil é o que é hoje, foi tudo pela mão dos negros. Eles vieram de outra terra, enfrentaram mata, índio, bicho, viveram em senzalas. Os escravos dormiam no chão, todos juntos, não tinham nada. Eles não podiam entrar nas igrejas dos brancos. Sei o quanto eles sofriam. Muitos fugiam, outros morriam e eram enterrados no meio do mato. Éramos tidos como bichos. Aquele que se revoltasse com o tratamento apanhava. Quem sabe o que nossos antepassados passaram se revolta. Um memorial reconheceria essas pessoas que lutaram. Enquanto eu tiver forças, vou lutar por eles. Não vou parar. Em 20 de dezembro do ano passado, quando completou 7 anos, 7 meses e 7 dias que lutei para encontrar os papéis da Irmandade de São Benedito, estive na escola para olhar a viabilidade do projeto.
 
Como seria esse memorial?
 
Cercaríamos onde está o cemitério, ao lado da Escola Morais Barros, na rua do Rosário, próximo à Praça Dr. Jorge Tibiriçá, e faríamos um memorial histórico, fechado. Fizemos uma planta inicial do local. Seria uma sala pequena, com uma entrada principal grande e janelas para entrar claridade. A capela teria 12 metros quadrados de área, sendo 3,40 de comprimento e 4,40 de largura, além de sanitários com 3 metros quadrados de área cada um (3,35 x 2,40). Nesta capela ou então no pátio, teriam arquivos históricos para consulta. Temos que estudar a melhor estruturação do local. Temos que pensar junto com os profissionais. Estou procurando pessoas que ajudem a resgatar essa história e façam o desenho do memorial. É algo mínimo. Ali ficaria a história de vida das pessoas enterradas. Significa valorizar Piracicaba, cidade que reconheceria a luta dos escravos. A Prefeitura de Piracicaba, por exemplo, não tem secretário negro. Também não tem vereador negro. Então, as pessoas que frequentassem o memorial poderiam conhecer o que foi Piracicaba naquela época. O primeiro médico a chegar em Piracicaba, doutor André Ferreira, era negro. A ponte mais antiga de Piracicaba, dos Irmãos Rebouças, foram os negros que fizeram. A Catedral de Piracicaba foi construída por um pedreiro negro, Pedro Rocha. O Engenho Central também teve muita contribuição dos negros. As embarcações de açúcar que saíam de Piracicaba pela Paulista e pela Sorocabana eram carregadas pelos negros. Todas as palavras dessas pessoas estariam reunidas nesse memorial. Foram elas que fortaleceram a cidade. Foram vidas sofridas que nunca tiveram chances de serem reconhecidas.
 
Como as autoridades municipais avaliaram a possibilidade de construção do memorial?
 
O projeto ainda não foi aprovado. Inicialmente, fiz uma planta com uma pessoa, mas não deu certo. Acabei não concordando com o papel. Estou procurando outra pessoa para fazer o desenho, para, depois, poder apresentar na prefeitura e ser aprovado. Eu gosto das coisas certas, bem feitas. Estive na Prefeitura no último dia 18, na sessão de obras, e me informaram que eu teria que pesquisar sobre a viabilidade do terreno, mostrar exatamente qual a rua, o tempo que o cemitério consta no município, para depois fazer todo esse levantamento. Já conversei com as pessoas do atendimento. Estive em contato também com um assessor de vereador para tentar procurar um engenheiro, mas o vereador não estava no gabinete e disse que me retornaria. Enquanto isso, estou na luta, porque esse projeto não pode demorar. Vou lutar com unhas e dentes para que ele seja aprovado. Vou ter de ir a São Paulo pedir ajuda para profissionais.
 
O senhor já sofreu preconceito pela cor da pele?
 
Sim, em vários lugares que vou percebo o preconceito. Ninguém precisa me falar que é preconceito ou não. Noto o preconceito na sociedade quando passo. O mais difícil é o preconceito do negro com o negro. Tem certas pessoas que não querem que eu suba, querem sempre me ver lá embaixo, mas eu sou aquilo que eu sou. Já fui impedido de participar de um clube aqui de Piracicaba. Eles alegaram que era porque eu estava divorciado e lá era um local de família, mas não sei se realmente era isso. Um bispo já se recusou a conversar comigo. Um prefeito também. Considero isso como preconceito. Eles não falaram isso na minha cara, pediram para outra pessoa dizer. Se eu os encontrar na rua, vão ser iguais a outro qualquer.
 
 
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