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Padre do amor
Natália Marim
22/01/2018 15h26
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Edvaldo de Paula do Nascimento é natural de Osasco (SP) e nasceu em 11 de outubro de 1967. É filho de Vicente de Paula do Nascimento e Maria de Lourdes do Nascimento. Aos 17 anos de idade, quando acompanhou os pais em uma celebração da Semana Santa, em Pindamonhangaba, ouviu um sacerdote dizer sobre a Igreja formar novos padres. Ele, então, desistiu da carreira em medicina e, em 1985, ingressou no Instituto Sagrado Coração de Jesus, em Taubaté, onde cursou as faculdades de filosofia e teologia, obrigatórias ao postulante à vida sacerdotal. Em abril de 1995, recebeu a ordenação diaconal e, em junho do mesmo ano, o bispo Dom Pierre Mouallen lhe ofereceu a ordenação sacerdotal na Catedral de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo, onde permaneceu como vigário paroquial por dois anos. Na sequência, a convite do bispo Dom Eduardo Koaik, chegou à Diocese de Piracicaba, sendo o primeiro pároco da Paróquia São Judas Apóstolo, em Santa Bárbara d’Oeste. Passados dez anos, o atual bispo diocesano de Piracicaba, Dom Fernando Mason, o transferiu para Piracicaba como reitor do Santuário Nossa Senhora dos Prazeres. Na Noiva da Colina, o padre continuou com a realização de missas temáticas. A missa da saúde, de cura aos doentes, é a que, conforme o próprio sacerdote, reúne mais pessoas. Conhecido entre os fiéis como “padre do amor”, Edvaldo Nascimento agora seguirá o sacerdócio em Rio Claro, na paróquia Bom Jesus. Em entrevista ao Jornal de Piracicaba, falou sobre o trabalho na Igreja e assuntos como fé, assédio, política, divórcio e casamento homossexual.
 
Como surgiu a vontade de seguir o sacerdócio? Teve total apoio da família?
 
Eu sempre participei da igreja com meus pais. Sempre fomos católicos, eu fazia catequese, participava das missas. Quando eu tinha 17 anos, em uma Semana Santa, em Pindamonhangaba, ouvindo a pregação de um padre, eu me senti tocado para seguir o caminho do sacerdócio. A maneira como ele falou, as pregações mexeram muito comigo. Conversei sobre isso com minha família. Meu pai, a princípio, não gostou da ideia, porque, desde criança, eu sempre quis ser médico. Era o sonho dele.
 
Durante todo o ano, eu conversei com o padre da minha cidade, mas só no final eu realmente procurei o seminário. Chegando lá, com meu pai, o reitor disse que já havia passado a época dos encontros vocacionais para ingresso no seminário. Aquilo me entristeceu muito, mas meu pai pediu para falar sozinho com o padre. Eles conversaram dez minutos e o pároco autorizou que eu fosse para o seminário. Embora meu pai não gostasse da ideia, ele foi fundamental na minha trajetória e hoje é um grande apoiador da minha vocação.
 
Como é a preparação para se tornar um padre?
 
Antigamente, havia o seminário menor. Os meninos entravam muito jovens, adolescentes, para o seminário e faziam o segundo grau, ensino secundário. Depois, prestavam o vestibular e entravam para as faculdades. Hoje, a preparação é em um ou dois anos o ensino propedêutico, que é o primeiro contato com o seminário, onde o menino vai viver uma vida de comunidade com outras pessoas para discernir e pensar se esta realmente é a vocação dele. Ele será acompanhado por um padre ou reitor para ter sua direção espiritual, além de ter atendimento psicológico. Depois desta fase inicial, se a Igreja percebe que realmente é isso o que ele seguirá, tem início a fase do vestibular para a faculdade de filosofia, com duração de três anos, que ajuda a desenvolver o raciocínio, o pensamento lógico, a reflexão e o senso crítico. Em seguida, vem a faculdade de teologia, com duração de quatro anos. No curso, se estuda matérias relacionadas à Igreja. Fiz meus estudos no Instituto Sagrado Coração de Jesus, em Taubaté, interior de São Paulo. Tive como professor de comunicação, por exemplo, o cantor padre Zezinho, muito rico em formação. 
 
Quais são as dificuldades em ser padre?
 
Nesses 22 anos de padre, ouvi muitas histórias, muitos segredos. Uma vez, um homem com uma doença muito grave me disse: “padre, eu quero contar para você aquilo que, talvez, eu nunca tenha contado nem para mim mesmo”. A grandiosidade de um ministério me põe diante da humanidade. Este é o maior desafio sempre. Depois, no dia a dia, dificuldades em estudo, convivência. Isso me faz melhor, me faz aprender.
 
Já pensou em desistir de ser padre?
 
Talvez, em algum momento de perseguição, porque sou pessoa pública e estou sujeito a situações em que as pessoas, às vezes, são muito maldosas. Não sei se desistir, mas o fato de que algumas pessoas são invasivas e eu querer ter mais privacidade pesou para mim. Esses momentos foram difíceis, mas sempre acreditei na grandeza do sacerdócio, de saber quem me chamou. Eu sei que fui chamado por Deus e ele sempre me respondeu: “eu estou com você”. Nos momentos difíceis, me lembrei de rezar e dizer: “Jesus, você está”. Eu confio nisso.
 
Onde já atuou como padre? 
 
Fui ordenado padre em 1995, na Catedral de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo. Trabalhei lá por dois anos. Foi um trabalho muito bonito, pois nasci ali, mas na grande metrópole o contato entre o padre e o povo era mais difícil. Depois, recebi o convite do bispo Dom Eduardo para ser transferido para a Diocese de Piracicaba. Então, vir para o interior foi muito importante para o meu sacerdócio, especialmente no aspecto de formar uma comunidade. Isso é muito bonito. Comecei trabalhando na Igreja Matriz, em Santa Bárbara D’Oeste, em janeiro de 1997. Surgiu a proposta de criar uma paróquia na cidade, no bairro 31 de Março. Em setembro do mesmo ano, após ela ser constituída, trabalhei por dez anos na nova Paróquia São Judas Apóstolo. Ao final, o bispo Dom Fernando me procurou para fazer uma transferência para o Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres em Piracicaba. Eu disse que estava sempre disposto àquilo que a Igreja nos pede. Cheguei em Piracicaba e tomei posse em fevereiro de 2008. 
 
Houve algum local que mais lhe marcou?
 
Cada momento é único, não dá para dizer qual cidade me marcou mais. Eu acho que São Paulo é o início de tudo, do meu sacerdócio. Na missa, às 12h, as pessoas passavam, no horário do almoço, e entravam, pediam bênçãos. Uma vez, um homem, andando pelo local, se apresentou e me disse que era ateu. Eu também me apresentei, falei que sou padre e perguntei o que o trazia ali. Ele disse que entrou na igreja porque gostava das pinturas, da arte, mas a minha palavra havia chamado a atenção dele. Esse homem voltou várias vezes para conversar comigo. Certo dia, ele me procurou novamente pedindo para ser batizado. Foi uma das histórias mais bonitas de conversão da minha vida. Quando sai de São Paulo, este homem chorava feito uma criança dizendo: “você me apresentou Deus”.
 
Em Santa Bárbara D’Oeste, eu diria que foi o amadurecimento do meu sacerdócio. Tive contato com muita gente, criei a missa temática às quintas-feiras, acolhendo os fiéis. Muita gente passando por dificuldade procurava a Igreja e encontrava uma palavra de conforto e de apoio, isso fazia a diferença. 
 
Aqui, em Piracicaba, eu atingi o auge, uma grande maturidade do meu sacerdócio. O povo do santuário, um lugar com grande frequência de pessoas, me provocou o melhor do meu sacerdócio, um momento grandioso. Eu me sentia mais impelido a estudar a palavra de Deus, a ler. Também destaco o trabalho de atendimento aos doentes, visitas aos hospitais, a missa da saúde às sextas-feiras.
 
O senhor se acha um padre pop?
 
Acho que no sentido de ser popular, talvez, pelo número de pessoas que vão ao santuário, por esta relação de proximidade. Eu procurei estar com as pessoas sempre. Então, se isso é ser pop, eu sou. Sempre disse a palavra de Deus do hoje para quem me procurou. Meu trabalho com as crianças, com os jovens, talvez me leve a ser tão conhecido.
 
Como avalia a fé das pessoas nos dias de hoje?
 
Quando estudava na faculdade de teologia, comentava-se que existe o prognóstico de que, na virada do milênio, Deus esteja morto. Deus nunca vai morrer. Ele pode ter nomes diferentes, as pessoas podem se relacionar com Ele de maneiras distintas, mas, mesmo assim, estará aí, inclusive para o ateu. O ateu fala mais de Deus que o crente em algumas situações, porque ele tem de combater a ideia de Deus. Há um movimento nele de dizer que Deus não existe. O que se viu, no início do novo milênio, é que o nome de Deus está mais presente que nunca. Podemos questionar em qual Deus as pessoas acreditam, qual a imagem dEle. Para mim, jamais Deus tem a ver com maldade, bombas, perseguições, inquisições, proibições. Deus não tem a ver com medo. De toda maneira, o nome dEle está ali.
 
O mais bonito é que os equívocos são pequenos diante da grandeza do que as pessoas estão acreditando, daquilo que tem sido um revigoramento da fé nas pessoas, sejam católicos ou evangélicos. Devemos respeitar todas as religiões. Precisamos unir forças pela fé, em um único e verdadeiro Deus que independe de religião, que não está engaiolado em denominações. Assim, poderemos salvar a humanidade de tudo aquilo que é ruim, um grande desafio para a vida. Deus não está contra nós. Ele estende a mão para o humano, porque Ele nos criou. Nesse sentido, acho que os homens e mulheres deste tempo têm fé, grande incentivo.
 
Quais suas atividades preferidas de lazer?
 
Gosto muito de caminhar, correr, quando consigo. Ao longo do tempo, vamos tendo dificuldades com os exercícios, mas sempre gostei muito. Faço academia. O movimento é importante. Para mim, a fé consiste justamente no movimento. Gosto de uma boa leitura, de teatro. Uma boa conversa, uma taça de vinho, seja no restaurante ou em casa, quando alguém me convida, me atrai. Eu acho que é gostoso quando podemos conviver. 
 
Há alguma coisa na Igreja Católica que acha que precisa mudar?
 
Eu acho que nós temos de estar sempre nos avaliando, pessoalmente, cada padre, a Igreja, em seu momento de evangelização. Não sei se eu apontaria uma situação que tem de mudar, mas acho que sempre há a preocupação de sermos fiéis ao evangelho, buscarmos a fonte, perguntarmos como Jesus faz, qual o modo que Ele age, o que fala, como aborda uma pessoa.
 
Padres como Fábio de Melo e Reginaldo Manzotti são assediados por mulheres. Isso também acontece com o senhor? Como lida com isso?
 
De fato, acontece de receber uma carta. Às vezes, até acontece, pessoalmente, de uma mulher dizer que está gostando de mim. Vou aprendendo a lidar com as situações. É claro que isso mexe comigo, os desejos estão vivos em mim, se não estivessem eu não seria homem. Este fato me faz aprender a lidar com eles, a viver o celibato. O que importa é o que fazemos com nossos desejos, como lidamos com as situações. Respeito o desejo das pessoas, mas sou um homem consagrado e peço que as pessoas também respeitem o meu desejo. 
 
Estamos em ano eleitoral. Na sua opinião, igreja e política podem se misturar?
 
Misturar é complicado. As igrejas têm papel fundamental para ajudar a formar o senso crítico do povo. Não dá para ser mais que isso. Todas as vezes que, na história, as igrejas se misturaram com o poder, foi terrível para todos. O Evangelho pode ficar manchado, não pode haver nenhuma associação dele com qualquer coisa que não seja para o bem da humanidade. O Evangelho jamais pode estar identificado com politicagem, pedofilia, injustiça, maldade. A Igreja deve, baseada no Evangelho, dizer uma palavra de luz, medir bem os candidatos, seus compromissos com a honestidade, com o povo brasileiro que votou. Um grande desafio da democracia, da maneira como está, é que nós votamos, mas, depois, não existe um mecanismo para tirar a pessoa de lá, se ela não cumprir com aquilo que é o bem comum do povo. É muito demorado este processo.
 
O senhor já pensou em se lançar na política?
 
Mais de uma vez recebi convites para me filiar. Disse não. Eu respeito o mundo da política, precisamos disso, mas não acho que seja o campo próprio do padre, que é a Evangelização.
 
Qual a sua opinião sobre divórcio e casamentos homossexuais?
 
Não podemos ser infiéis àquilo que ouvimos do Evangelho. A proposta fundamental de Jesus é salvar a humanidade. Para isso, é preciso a vivência do amor que respeita o outro, que sabe que Deus é o criador e o senhor de tudo. Criados, homem e mulher se encontram no amor. Para a Igreja Católica, há um sacramento como sinal e bênção de Deus que os une para formar uma família. Tratamos daquilo que é o caminho do encontro amoroso que ambos buscam na igreja, um sacramento de bênção. Recebida, o casal vai viver esta bênção, fundamentados no amor, que pode ser para a vida toda. Se um ama o outro, devem casar-se, não podemos jogar o pensamento adiante, no divórcio. Lidamos com a beleza do casamento e esta é a condição, a base. Pode acontecer que o amor seja abalado ou acabe e, então, em uma dificuldade, a pessoa vai lembrar que prometeu, no altar de Deus, amar a pessoa também nesse momento, na dor e na doença. Minha mãe tem Alzheimer, meu pai cuida dela, fica do lado dela, mas ela já tem dificuldades em reconhecê-lo. É o desafio de que o amor seja renovado sempre. Mas, ainda assim, pode haver uma situação em que não é mais possível continuar. E aí acontece o divórcio. Eles continuam sendo seres humanos e filhos de Deus, por isso serão tratados desta maneira dentro da igreja, com respeito, amor, carinho, acolhida. Tem lugar para eles nas missas, desde que vivam o amor. O mesmo vale para os homossexuais. Independente do desejo, serão filhos de Deus sempre. Esse pensamento é fundamental. Mas, sendo assim, como lidam com a sexualidade? Aquilo que for exigência no Evangelho para o heterossexual será também para o homossexual. O casamento foi concebido para uma situação de encontro entre homem e mulher, mas fala-se tanto nas liberdades, no casamento gay, então que seja diferente. Não temos que enquadrar uma situação específica.
 
Ao saber que foi designado para exercer o sacerdócio em Rio Claro, qual foi a primeira sensação?
 
Embora eu saiba que esse é o caminho da Igreja, o primeiro impacto é de surpresa, tristeza. Aprendi a amar esta cidade e este povo, mas me coloco a serviço de Jesus Cristo. Eu faço uma metáfora de que a vida é uma grande viagem de trem e eu vou descendo nas estações. Quando cheguei em Piracicaba, levei uma pequena mala ao altar e disse que esta é mais uma parada que marcará a minha vida. Quero viver com os fiéis que aqui residem. Agora, o trem apareceu e eu vou ter de ir. Arrumo minhas malas e levo daqui tudo o que vivi com este povo. Chego em Rio Claro com todas as vivências, testemunhos e amor de Piracicaba, para viver naquela estação uma nova história. A expectativa é de chegar lá de peito e coração abertos, com a fé que carrego.
 
Que lembrança quer levar de Piracicaba?
 
São muitas, mas eu acho que é o jeito carinhoso com que as pessoas sempre me trataram. Saindo da Igreja, eu nunca vou para a casa paroquial sem um presente. A bancada da sacristia da minha Igreja fica cheia de coisas. Pode ser um bolo, uma foto, uma caixinha que alguém confeccionou pessoalmente, uma flor. São tantas coisas que acabam sendo, de fato, a expressão do amor. Essa relação foi sendo construída, por isso ela é tão valiosa. Eu jamais esquecerei. A eternidade é feita de amor a Deus e ao próximo, única coisa que levaremos daqui. Penso que vivemos o amor neste tempo e isso é para sempre.
 
Como quer que os fiéis piracicabanos lembrem do senhor?
 
O meu desejo é que o meu legado tenha sido o do amor de Deus. Então, quero que as pessoas me reconheçam como o padre que falou do amor de Deus. Quero que, no futuro, os filhos, netos dos fiéis que participaram das minhas missas olhem para um porta-retrato com uma foto minha e perguntem: “quem é este homem?”. E, então, responda: “este é o padre que mais falou do amor de Deus para nós, que tocou nossa vida”. Minha alegria, pelo que tenho visto de manifestações das pessoas, é que, de fato, isso está acontecendo. Eu me sinto realizado com isso.
 
Qual mensagem quer deixar para os fiéis piracicabanos?
 
Quero dizer o meu muito obrigado, como tenho dito sempre, desde o momento em que o bispo me informou que seria transferido. Eu tenho muito para agradecer por tudo o que construímos de amor neste tempo. Por fim, minha gratidão a Jesus. Eu não existiria se não fosse Ele, razão da minha vida. Ele vive comigo à flor da pele, só posso senti-lo assim. Somente com o amor sem limites conseguiremos viver dias melhores aqui e depois. O céu começa aqui e agora. (Colaborou Sabrina Franzol)
 
 
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