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Fortaleza humana
Natália Marim
02/04/2018 12h44
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“O esporte é tudo, é gigante. É uma maneira de nos levar para outra dimensão”. Estas palavras são do baiano Joilson da Silva Ferreira — morador de Piracicaba há 25 anos e conhecido como Jabá —, que em fevereiro venceu a Iditasport Alaska 200 Milhas, ultramaratona em que percorreu sozinho 320 quilômetros no gelo, com temperatura média de 50 graus negativos. Tamanho o grau de dificuldade da prova, esta foi a primeira vez que um corredor conseguiu completá-la nas últimas duas temporadas. Ele tinha cinco dias para terminar o percurso, mas conseguiu fazer isso em três dias, 18 horas e 45 minutos. O Iditasport não tem a opção de resgate gratuito. Se o atleta desiste, a organização do evento cobra taxa de 1 mil dólares, o que corresponde a cerca de R$ 3,2 mil, e a espera por ajuda pode chegar a dois dias.
 
 
Nascido em 22 de outubro de 1972, em João Amaro, cidade do interior da Bahia, Jabá não teve uma infância de sorrisos constantes, pelo contrário, cresceu em condições de extrema pobreza. Filho da dona de casa Idalina Ribeiro Guimarães e do mecânico Julio da Silva Ferreira, mudou-se para Piracicaba em 1993 em busca de emprego, para realizar o sonho de comprar uma televisão e um aparelho de som, e, também, conhecer o pai. Antes de concluir o bacharel e a pós-graduação em educação física pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) Campinas e atuar como personal trainer, o caçula de seis irmãos trabalhou como salva-vidas, caldeireiro, servente de pedreiro e em setor de construção civil.
 
 
Para conseguir participar da ultramaratona do Alasca, Jabá teve de acumular um histórico de grandes corridas no currículo, participando da Arrowhead, com 217 km na neve de Minnesota; da BR-135 milhas, considerada a mais difícil do país, e da Badwater, com temperaturas superiores a 45 graus no deserto da Califórnia, no Vale da Morte.
 
 
Movido por desafios, Jabá, que é casado com a engenheira agrônoma Luciana Marchese e pai de João Pedro, de 15 anos, foi enfático ao dizer, em entrevista ao Jornal de Piracicaba, que o esporte proporcionou a ele diversas conquistas na vida. O atleta também comentou sobre a preparação para enfrentar a Iditasport e falou que deseja participar da Iditasport 400 milhas, mas, para tornar isso realidade, precisa de patrocínio, uma vez que competições como esta chegam a custar aos competidores cerca de R$ 70 mil.
 
 
Desde quando você pratica corrida?
 
Desde 1996. Na Bahia, conheci um agente de saúde que corria e me passava algumas dicas. Então, comecei a treinar sozinho. De segunda-feira a sábado, antes do trabalho, corria 21 quilômetros. Saía de João Amaro em direção a outras cidades. Comecei a perceber que a corrida me levaria para outros lugares. Participei de jogos regionais e corridas nos municípios da região de minha cidade natal, quando eu conseguia condições financeiras para me deslocar. Pedia dinheiro na prefeitura para conseguir pagar a inscrição, alimentação e as estadias de hospedagem. Uma vez, próximo da pensão onde estávamos alojados, os competidores brincavam: ‘quando será que ganharemos uma competição grande para ficarmos em um hotel cinco estrelas?’ Eu só olhava e ficava pensando... Corria descalço. De domingo, tinha feira na minha cidade. Eu me oferecia para levar as compras das senhoras com a carriola em troca de algumas moedas. Ficava o dia inteiro lá. Com esse dinheiro, consegui comprar uma sapatilha, mas só tinha número 42, sendo que eu calçava 44. Tinha de colocar com garfo. Depois, tive que abandonar esse calçado, pois não tinha mais condições de usar. Continuei correndo descalço. Só fui provar tênis quando vim para Piracicaba. Meu irmão João Carlos Meira, o Marola, corria em São Paulo na época, onde morava, já ficou em oitavo lugar na São Silvestre. Ele começou a ganhar prêmios e, a partir daí, me chamou para correr com ele, mas não aguentei. Ele me passou algumas coisas, me mandava treinos por carta, revistas. Peguei gosto e comecei a montar pesos, barras de concreto, latas de tinta, supino. Tudo de madeira. Eu mesmo fazia, cortava, serrava, no quintal de casa, onde montei uma pequena academia em 1997. As pessoas iam na minha casa treinar. Foi a primeira academia da cidade, mas não tinha infraestrutura nenhuma.
 
 
Qual a sua avaliação da Iditasport? E quanto ao seu desempenho?
 
Ultramaratona no gelo é a pior que tem. São três provas: 200 e 400 milhas e Odisséia, de 35 dias. O ambiente é hostil, temos de ter uma cabeça bem trabalhada e direcionada. É fundamental saber o que quer e não ter dúvidas. Tem de ter preparação, porque sabemos que podemos morrer ali. A prova, em si, tem grau de dificuldade extremo, é muito rigorosa. Quanto ao meu desempenho, foi legal, bom. Consegui ser mais rápido que o nativo americano que estava competindo comigo. Cheguei um dia na frente dele.
 
 
Com quantas pessoas você competiu? Quantos completaram a prova?
 
Inicialmente, eram para ser cinco atletas. Dois desistiram antes da largada. Saímos em três. Um desistiu no meio da prova, com 60 milhas.
 
 
Quando decidiu que iria participar da Iditasport?
 
A partir do momento que consegui chegar em Minnesota, em 2016, quando competi a Copa do Mundo. Depois, conheci um atleta que participou da Iditasport e ele me disse que quase ninguém havia conseguido concluir a prova. Eu busquei mais informações sobre a prova e me programei para fazê-la. Esperei passar um ano e disputei em 2018.
 
 
Quais as maiores dificuldades no percurso?
 
A cabeça, o tempo inteiro. Fiquei com o estômago ruim também. Só pensava coisas negativas. Pensei em parar, em chamar o resgate. Tive de negociar com a cabeça. A mente começa a pensar: por que tanto esforço se eu poderia estar em casa? É a hora que tive que falar para mim mesmo: esse é meu esforço, em busca do meu objetivo. Coloquei à prova meu próprio corpo, para ver se eu aguentava.
 
Tiveram pontos que afundava muito, a neve chegava até o joelho. O trenó enchia de neve, tinha que ficar tirando, era uma força física muito grande. Comprei uma raquete para afundar menos, mas ela era um pouco menor, não era ideal. Então não deu. A caminhada ficava mais lenta, prejudicou meu joelho. Tirei e continuei sem nada. Dormi apenas uma hora e meia em três dias. Só na última noite tive sono. Foram momentos difíceis, pois fiquei sozinho, é uma solidão sem fim, em meio à uma paisagem que não muda nunca, sempre tudo branco. Nessa hora, tive delírios por conta da fadiga. Pensava que tinha alguém comigo, mas, na verdade, era só uma árvore.
 
 
Durante a corrida, teve algo que te deixou com medo?
 
Sim. No local, há vários tipos de bichos: lobos, raposas, alces. São bravos, não gostam de gente mesmo. Passam, encaram. Os ursos, nessa região, estão hibernando. Fui perseguido por lobos durante mais de uma hora à noite. Eles fizeram barulhos, mas pensei que eram cachorros. Nas duas primeiras vezes, não me incomodei, mas na terceira percebi que era perigoso. Aumentei a luz da lanterna e comecei a orar para o dia amanhecer e clarear logo. Outro momento que tive medo foi quando minha mão e meu braço esquerdos congelaram. Meus pés ficaram duros. Foi tenso, procurei ajuda, não via ninguém.
 
 
Como foi a preparação física para a corrida? E a psicológica?
 
Comecei a treinar com o objetivo de concluir a Iditasport. Já fiz várias outras provas em ambientes extremos: deserto, montanha, gelo. Treinei corrida todos os dias, de domingo a domingo, apenas mudando o tipo de estímulo. Eram 160 quilômetros percorridos por semana em terrenos variados, aclives, declives, planos, montanhas, em asfaltos. Também treinei musculação todos os dias, trabalhos de propriocepção de tornozelo, equilíbrio, colateral medial, de perna, coxa, fortalecimento de joelho.
Para simular a neve, treinei em quadras de areia fofa. Para simular o trenó de 40 quilos utilizado na prova, usei um pneu amarrado na cintura de 20 quilos. Fui melhorando meu psicológico. Dor muscular vai ter, mas, no final, quem comanda tudo é a cabeça. Mantive ela tranquila e equilibrada. 
 
Quais cuidados toma com seu corpo para participar de provas como esta?
 
Alimentação. Não posso comer errado, por conta do próprio sistema imunológico. Tenho que suplementar corretamente. Abri mão de festas por um ano para poder concluir a prova. Abdiquei de muitas coisas. Cuidei do corpo e da mente, procurei não absorver os comentários negativos dos outros. Dormi, descansei.
 
Quais materiais e trajes são utilizados para suportar o frio?
 
Material de Gore-tex, que permite a transpiração, para suportar até -60ºC. É muito tecnológico e caro. Fiquei vários anos comprando aos poucos. Usei, também, saco de dormir, que era para -40ºC. Os trajes eram jaqueta, roupa de segunda camada, meia, três luvas e gorro de lã merino, talcos e botas de Gore-tex. Para proteger a retina da branquidão, coloquei óculos próprio. Levei lanterna, comida, garrafas térmicas com água, chá e refrigerante, que congelaram no ambiente. Ia ficar sem água. Tive que bater para conseguir quebrar o gelo.
 
 
Como se guiou na neve?
 
Tinha algumas estacas com os nomes Lucy e Iditasport, que eram pontos de marcação. A prova era praticamente em rios e lagos. Neste momento, o caminho se dispersava, tinha de ficar procurando as estacas longe. Sabia que estavam por ali. Nunca poderia me dispersar, o tempo todo devia ficar ligado e focado, principalmente para não passar as marcações.
 
 
Durante toda sua carreira, quais outras maratonas já participou? Quais as principais premiações?
 
Já participei de maratonas em São Paulo, Rio de Janeiro, Argentina, além de corridas de rua. Participei de ultramaratonas em Bertioga e Maresias, Vale da Morte. Não recebo premiações em dinheiro. Na verdade, só gasto para poder participar. Na Iditasport, gastei R$ 70 mil. Tenho parceiros que ajudam nos custos, mas eu paguei sozinho a metade. Tudo isso foi para conseguir currículo para poder participar de corridas ainda maiores.
 
 
Existe alguma competição que ainda almeja participar?
 
Tenho um desafio: ver se vou para a Iditasport 400 milhas. É uma prova muito cara, então, procuro patrocínios.
 
Você vive do esporte. É difícil?
 
Sou professor de educação física, personal trainer, meu trabalho me sustenta. Vou começar a dar palestras sobre minha trajetória, então será uma fonte de renda também. O Brasil é o país do futebol, não é? Este é o principal esporte, o que todos mais gostam. Então, na corrida, por exemplo, é difícil, sim.
 
 
Qual sua avaliação quanto à valorização do esporte no Brasil? E no exterior? E especificamente em Piracicaba?
 
O Brasil tem dinheiro, mas este não chega onde deveria chegar. É difícil. Nos Estados Unidos, o valor é totalmente outro, bem maior do que aqui, nem se compara. Percebemos a diferença de tratamento dos atletas. Aqui, não temos apoio, somos pouco valorizados. Vai demorar muito para ter a cultura do esporte. Em Piracicaba, enquanto corria, eu já fui xingado, já jogaram latinha em mim. Já passei por isso várias vezes. Sempre falo: seja legal, mas não espere que todos te respeitem. Tem pessoas que simplesmente não gostam, não têm mente aberta, são egoístas.
 
Pratica outros esportes além da corrida?
 
Sim, pedalo, faço musculação, ginástica natural, trabalho o fortalecimento e expressão corporal. Antes, lutava, fiz box, seis anos de jiu-jitsu e oito anos de capoeira.
 
Qual seu sonho profissional?
 
Conseguir levar o nome do esporte para várias ultramaratonas, continuar correndo, conseguir fazer outras provas fortes. Estou me dedicando para ficar mais profissional. Como personal trainer, sou realizado. Quando dou aulas, sempre acho que ainda dá para melhorar. Procuro me aperfeiçoar sempre. Amo minha profissão.
 
Qual o significado do esporte para você?
 
É uma maneira de nos levar para outra dimensão. O esporte proporcionou com que eu conseguisse fazer faculdade. Na verdade, o esporte me trouxe tudo. Conheci países diferentes através do esporte.
O esporte é educação, é tudo. Tira pessoas do crime, da marginalidade, das drogas, da depressão. O esporte é gigante, é uma escola. (colaborou Sabrina Franzol)
 
 
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