Pirralha

Uma garota doce e destemida tem colocado poderosos do mundo a queimar as pestanas de ódio. O motivo? Sua defesa incansável pelo meio ambiente. Estou falando de Greta Thunberg, a ativista ambiental de 16 anos que iniciou um protesto sozinha e hoje reúne milhões ao redor do mundo em prol das causas ecológicas que defende. Mas por que as pessoas têm reagido cada vez com mais ferocidade contra uma garotinha aparentemente inofensiva?

Donald Trump, que atualmente preside os Estados Unidos, disse que Greta deve trabalhar em “seu problema de gerenciamento de raiva” e depois “assistir a um bom filme com um amigo”. “Greta chill, chill” (Greta, relaxe, relaxe!), vociferou pelo Twitter. Pouco antes, o “best friend” latino do presidente americano, Jair Bolsonaro, havia ofendido Greta no mesmo tom, dizendo que a imprensa dá muita atenção a uma “pirralha”.

Para um presidente que ignora completamente os desastres ambientais brasileiros, chamar Greta de pirralha é elogio. E foi! A garota prontamente adotou o xingamento como descrição de sua conta no Twitter, apoderando-se do que poderia lhe ofender. Assim, virou gigante perto da apequenada figura hostil de Jair.

Greta consegue reunir multidões por onde passa apenas com um teclar em suas redes sociais. Eu mesmo já presenciei aqui em Dublin, na Irlanda, onde moro atualmente, milhares de crianças e adolescentes pelas ruas em uma sexta-feira, fazendo greve e protestando a favor do meio ambiente só pelo clamar da garota. Não à toa, a jovem foi considerada a Pessoa do Ano 2019 pela revista americana Time.

Não são apenas poderosos que se enfurecem com a imagem e a atitude de Greta ao levar a questão ambiental ao limite. Pela internet, a chamam de muitos nomes e a acusam de ser paga por empresários riquíssimos da “indústria das ONGs”, entre outras “fake news”.

O ativismo ambiental sempre causou a fúria de muitos. Os “ecologicamente corretos” são considerados chatos e radicais. Tudo porque defender a natureza é ir contra a corrente, sair da zona de conforto, questionar o sistema e mostrar que é preciso agir, tudo o que um cidadão medíocre não quer.

Greta, por exemplo, opta por utilizar meios de transporte com energia renovável. Convidada para a conferência do clima da ONU, ela decidiu viajar de Londres a Nova York num veleiro não poluente.

Os veganos, que escolhem não consumir carne e derivados de animais, são chamados de otários, bestas, entre outros nomes com níveis menos amigáveis. Tudo porque querem uma dieta diferente e sustentável, que não cause danos ao planeta.

Quem está disposto a trocar um avião por um veleiro? Ou quem quer parar de comer carne agora para proteger as florestas dos danos causados pelo agronegócio? A maioria prefere continuar no bem-estar de suas vidas, sem se importar com o futuro.

Greta conseguiu ir além do pensamento médio dando voz a cientistas. Eles dizem que temos dez anos para diminuir em 45% as emissões de gases para que a Terra não entre em um colapso de poluição irreparável. Em 2030, Greta terá menos de 30. Trump e Bolsonaro estarão na casa dos 70, 80 anos. Quem está mais preocupado, não é mesmo?

Greta convenceu sua geração de que é preciso agir, dando um suspiro à esperança. Crianças e adolescentes já sabem mais de preservação ambiental, reciclagem e energia renovável do que muito marmanjo. Falta a gente entender que o mundo não foi feito apenas para sustentar a geração em que vivemos e que a nossa geração precisa preservá-lo para a próxima que virá. Falta a gente se unir ao coro de Greta. Falta sermos todos pirralhos!