Polêmica dos rótulos de alimentos é tema de documentário

Quando você compra um produto no supermercado, olha atentamente para a tabela nutricional na embalagem? Se sim, consegue entender tudo? Se a sua resposta for não, saiba que isso pode mudar nos próximos meses. Isso porque há um debate no Brasil, desde 2014, para identificar um modelo de rótulos que seja mais adequado para facilitar o entendimento das informações nutricionais de cada produto.

Para contribuir com a discussão, a jornalista Francine Lima, criadora do canal Do Campo à Mesa, lançou um minidocumentário em parceria com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) sobre o assunto. Mestre em nutrição em saúde pública pela Universidade de São Paulo em 2014, Francine também já produziu dezenas de vídeos sobre alimentos no seu canal.

Segundo ela, o objetivo do documentário foi chamar atenção para o tema e mostrar por que a discussão sobre um novo modelo de rotulagem de alimentos é importante para o Brasil. A ideia, desde o início, era ser o mais didática possível.

“Muitas pessoas vão ao mercado, prestam atenção no que salta aos olhos, no colorido, nos desenhos, e isso as leva a escolherem alimentos que fazem mal”, diz Francine Lima. “A mudança tem que facilitar com que as pessoas tomem decisões no momento da compra que beneficiem sua saúde”.

Segundo ela, conclusões de estudos e de experiências em outros países indicam que o é importante que o rótulo mostre, de fato, se os produtos podem ser nocivos. No Chile, a lei mudou em 2016 após mais de dez anos de discussão e obrigou empresas a removerem até personagens de desenhos animados de suas embalagens.

O país também proibiu a venda de “junk food” em escolas e sua publicidade em programas de TV ou sites voltados para crianças. Segundo Laís Amaral, nutricionista e pesquisadora em alimentos do Idec, autoridades do país disseram ter resultados satisfatórios no aumento da compreensão das embalagens e, principalmente, na mudança dos hábitos alimentares.

“O principal objetivo da mudança é garantir o direito à informação ao consumidor no momento da compra e promover escolhas alimentares mais saudáveis”, diz Laís Amaral.

Histórico

No fim de 2014, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) instituiu um grupo de trabalho de rotulagem nutricional com diversos setores: indústria, sociedade civil, pesquisadores e organizações como o Idec. O trabalho do grupo acabou no ano passado com o envio de propostas dos participantes para a Anvisa.

A partir de estudos anteriores mostrando que os rótulos não eram compreendidos por boa parte da população, o Idec formulou um modelo em parceria com pesquisadores de design da informação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Para a instituição, o modelo do triângulo preto é mais efetivo do que o semáforo, com as cores vermelha, amarela e verde, proposto pela indústria. A conclusão veio após uma pesquisa online com 1.607 pessoas entre agosto e outubro de 2017.

Os participantes foram questionados sobre quais produtos tinham nutrientes acima do recomendado para uma alimentação saudável. Três em cada quatro acertaram com as embalagens contendo avisos em formato de triângulo, contra 35,4% para as embalagens com o modelo de semáforo. “Nós medidos compreensão, atenção, confiabilidade. Em todos, o triângulo se saiu melhor”, diz Laís Amaral.

Em nota, a Anvisa afirmou na época que não há estudos científicos que comparem os modelos e que o impacto em outros países não pode ser usados para nortear a regulação brasileira.

Obesidade

Em 2015, havia no mundo 107,7 milhões de crianças obesas e 603,7 milhões de adultos com a doença. Desde 1980, a obesidade dobrou em mais de 70 países e tem crescido continuamente em outras regiões, segundo um estudo do “The New England Journal of Medicine”.

Outro estudo, esse sobre a América Latina e o Caribe, realizado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), mostra que a obesidade já afeta pelo menos um em cada cinco habitantes em vários países da região.

Estilo de vida sedentário, falta de regulação no mercado e publicidade de produtos alimentícios pouco saudáveis são indicadas como algumas das causas desse aumento. A mudança nos padrões alimentares, o aumento da disponibilidade de produtos ultraprocessados (altos em açúcar, gordura e sal) e a diminuição do consumo de pratos tradicionais e mais frescos também são outros motivos.