População relata rotina de guerra no Rio

Não poder sair para trabalhar por causa de tiroteios. Passar o dia deitado no chão de casa para não ser atingido. Testemunhar a execução a sangue frio de vizinhos. Ter a casa completamente destruída por granadas e tiros de fuzil. O cotidiano de populações em áreas de guerra não difere muito do que as pessoas vivem em comunidades conflagradas no Rio.
Cidade de Deus, na zona oeste, e Rocinha, na zona sul, foram as regiões da cidade que mais registraram tiroteios neste ano: 41 e 32 confrontos armados, respectivamente, pelo menos um por dia. Os números são do aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT-RJ). Os conflitos acontecem basicamente entre grupos de traficantes de droga e policiais, que tentam retomar o controle das comunidades.

A situação vem se agravando a cada dia, desde o fim do ano passado, com a crise financeira do Estado e o desmantelamento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que durante alguns anos chegaram a garantir um cotidiano menos violento nas comunidades. É o que aconteceu na Cidade de Deus, onde a situação se agravou tanto nos últimos dias que a Linha Amarela, uma das principais vias que cortam a cidade e margeiam a favela, chegou a ser fechada por dois dias seguidos por tiroteios.

As cenas de desespero de motoristas paralisados na Linha Amarela, se arrastando pelo chão, tentando proteger crianças dos tiros só não são mais chocantes do que as vivenciadas pelos moradores das comunidades diariamente. “Desde o fim de outubro, a situação é muito grave”, atesta Rafa Gufe, de 32 anos, produtora cultural, integrante do coletivo Hip Hop West Coast-RJ, moradora da localidade do Karatê, que ela compara à Faixa de Gaza, onde ocorre a maior parte dos confrontos entre policiais e traficantes na comunidade. “Você acorda com helicóptero da polícia na janela, com rajadas (de submetralhadora) Z62, com gritos das pessoas pedindo socorro e sendo executadas na frente sem que você possa fazer nada.”

O produtor cultural Bruno Rafael, de 38 anos, simplesmente não conseguiu voltar para casa, na quinta-feira, quando foi registrado um dos mais intensos tiroteios na comunidade, onde vivem pelo menos 38 mil pessoas. “Tive de ficar no centro, onde trabalho”, conta. “Não passava nenhum ônibus para a Cidade de Deus.”

Bruno e seu irmão, o professor Leonardo Alves, de 36 anos, mantêm uma escola de Muay Thai na comunidade há quatro anos e meio, que atende 350 pessoas, entre elas quase uma centena de crianças. Com os fortes tiroteios dos últimos dias, a escola simplesmente não pôde abrir as portas. “Os pais não deixam as crianças saírem de casa por causa dos tiroteios e o número de alunos só faz diminuir”, conta Alves.

Rocinha. Encravada em parte dos bairros mais ricos do Rio, como São Conrado e Gávea, a Rocinha vem enfrentando um cotidiano semelhante. A guerra entre dois grupos de traficantes rivais se agravou em setembro e, na semana passada, atingiu seu auge, com mais uma invasão violenta da polícia. “Começou 9h30 da quinta-feira e ficou muito intensa depois do meio-dia, com a chegada do Bope, ganhando contornos de guerra”, relata um analista de sistemas, morador da comunidade, que não quis se identificar e, com medo, se mudou esta semana de casa. “Foram armas de calibre que nunca tinha escutado, muita granada, muita bomba, fuzil. Os traficantes invadiram o prédio, a polícia invadiu o prédio. Eu e minha esposa passamos o dia inteiro deitados no chão, no escuro, porque estávamos sem luz, torcendo para que o pior não acontecesse. Quando ela se levantou para comer algo, quase foi alvejada.”

No fim do dia, quando o tiroteio terminou, o cenário era devastador. “Começamos a ouvir vozes de pessoas pedindo socorro. Saí de casa para ver o que estava acontecendo e já mandei minha esposa fazer a mala para sairmos dali. Quando cheguei na rua, tinham umas três casas pegando fogo, um mar de cápsulas de bala, curto-circuito por todos os lados, corpo e restos de corpos pelos becos.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.