Por que casais infelizes continuam juntos?

O que leva muitas pessoas que, por mais insatisfeitas e infelizes que estão, dentro de um relacionamento desgastado, a não romperem com esse vínculo afetivo doentio? Quem nunca ouviu dizer “ruim com ele/ela, pior sem ele/ela”. O que faz com que as pessoas tenham uma postura de resignação e afirmem, mesmo a contragosto, que “antes mal acompanhado do que só”? Para pensar um pouco sobre essa situação fui bater um papo com a colega Arlete Gavranic, psicóloga e terapeuta sexual em São Paulo. Acompanhem o fruto da nossa conversa.

Segundo Arlete, “muitos relacionamentos se desgastam e muitos podem ser os motivos que promovem o desgaste das relações. Muitos casais se afastam como homem e mulher com nascimento de filhos; há casais que sofrem muitas interferências de suas famílias de origem, seja porque palpitam, manipulam ou atrapalham financeiramente o andamento da vida do casal e de sua nova família. As crises financeiras podem gerar desgastes difíceis de serem superados por casais que não suportam um relacionamento com restrições. Mas as dificuldades que magoam muito e nem sempre resistem são as traições – com novas famílias – e a dificuldade de defender o seu espaço emocional e o dos filhos que se sentem traídos”.

“Mas, separar tem vários preços emocionais, sociais e patrimoniais. Muitos casais não assumem uma separação efetiva por medo de que filhos (principalmente crianças e adolescentes) possam se ressentir, ‘traumatizar’, deprimir pela separação e distanciamento. Essa preocupação pode parecer amorosa, mas, na verdade, sabemos que para a maioria dos filhos de casais que vivem em desarmonia, com vidas muito individualizadas ou em embate frequente, a convivência com esses fatores traz mais sequelas negativas em inseguranças do que uma possível separação dos pais. Por mais que pareça bonito ter os pais juntos, os filhos conseguem perceber quando pais separados são mais tranquilos e menos infelizes e isso faz mais bem do que estar juntos”.

“A perda patrimonial também mobiliza em muitos o receio de separar, pois não querem perder o status de morar bem ou não querem viver partilhas. São situações tristes, pois vemos que os bens e o status são avaliados como mais importantes que o próprio bem – o estar afetivo desse casal. Em longo prazo isso traz tristeza existencial, pois tijolos, carros ou terras não deveriam valer mais que o afeto ou o bem-estar na vida”.

O medo de perder o círculo social de amigos e, às vezes, até vínculos com familiares do outro, também pode ser fator que dificulta a ideia de separação.  O medo de perder essa referência afetiva e social mexe com o medo básico de todos nós: a solidão!

“Alguns temem a separação, pois têm no seu networking muitas pessoas do círculo social e familiar da parceria e temem que isso possa prejudicar seu desenvolvimento profissional. É como se confiasse mais nas indicações por amizade do que na própria competência.

“No entanto, não podemos esquecer que também encontraremos aquelas pessoas que gostam, que acreditam numa reconciliação, no resgate do amor, da convivência. Continuar a convivência deveria ser uma escolha por amor, prazer e por acreditar nessa relação como fonte de vida e alegrias.  Se a escolha não te deixa otimista, com o desejo de estar e sonhar com o outro, tome cuidado, pois ‘tijolos’ podem secar sua alegria de olhar para a vida levando a crises existenciais e depressão”.