Por trás das muralhas

persona Diretor de penitenciária fala sobre a rotina dentro do presídio e dos projetos realizados dentro dele. ( Foto: Claudinho Coradini/ JP)

Elcio Jose Bonsaglia, 45 anos, através de seu trabalho, dá oportunidade para que milhares de sentenciados possam cumprir suas dívidas com a sociedade, ao mesmo tempo em que oferece um novo caminho baseado nos pilares da educação e trabalho. Atualmente é o diretor da Penitenciária Masculina de Piracicaba. Cabe à ele e a sua equipe manter a disciplina dentro de sua unidade. Se engana quem pensa que é uma rotina difícil. Por trás das muralhas há um novo recomeço, mesmo diante daqueles, que a princípio perderam a luta para a criminalidade. Bonsaglia sempre acredita em um novo recomeço através da ressocialização. Muitos reeducandos não conseguiram concluir os estudos enquanto estavam em sociedade. Para aqueles que desejam realmente mudar de vida, é possível estudar e trabalhar enquanto estão atrás das grades. Ainda sobra tempo para, indiretamente, participarem de projetos sociais, como cultivo de hortaliças em uma área de plantio de aproximadamente 2.000 metros quadrados onde as hortaliças, além de serem consumidas nesta mesma unidade prisional, ainda são doadas para entidades carentes da cidade incluindo lar de idosos, creches e centro de reabilitação, sendo que todo trabalho desenvolvido, plantio, cultivo e colheita e com 100 % de mão de obra carcerária.

Ele sabe que sua função exige grandes são os desafios, pois os problemas têm a mesma proporção, contudo, todos os dias pede a sabedoria a Deus para que capacite-o no desenvolvimento do seu trabalho de maneira que, possa junto com a sua equipe, assim como todo corpo funcional que são compostos por servidores qualificados e capacitados. Apesar da correria, nos horários de folga gosta de praticar atividades físicas, artes marciais, academia, mas o que gosta de fazer mesmo é cuidar da família, sua esposa e seus três cachorros que são tratados como seus filhos. Quando o assunto é leitura, Bonsaglia gosta de ler os livros de Augusto Cury, João Guimaraes Rosa, Cora Coralina dentre outros, e também assuntos jurídicos, mas o principal é o livro dos livros, a Bíblia. Acredita que o mundo pode ser melhor para todos! Confira a entrevista.

Como é a sua família?
Nasci em Avaré, mas atualmente moro na cidade de Piracicaba, a qual, fui muito bem acolhido. Sou casado, por opção e mútuo entendimento entre mim e minha esposa optamos por não ter filhos, porém, temos três cachorros que são como nossos filhos, lindos e amorosos. Meus pais eram humildes, porém íntegros e trabalhadores, os quais devo minha vida, educação e caráter que tenho hoje.

Começou a trabalhar desde cedo?
Venho de uma família de cinco irmãos, onde sou o caçula, comecei logo aos 13 anos de idade trabalhando em vários tipos de atividades na iniciativa privada, sempre vislumbrando melhoras e mantendo foco em meus objetivos.

Qual é a sua formação?
Sou graduado em Matemática e Física. Inicialmente fui professor da rede pública de ensino, lecionando de 5ª série a 3º colegial, nas respectivas matérias, o que corresponde nos dias de hoje ao ciclo II do fundamental e ao ensino médio. Após isso, vendo como necessidade de desenvolvimento profissional, me formei em Direito e pós-graduação em “Especialista em Segurança Pública e Sociedade” pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas. Lecionei pela rede pública de ensino de 1993 a 1996, onde, através de concurso público, ingressei na Secretaria de Administração Penitenciária em 10 de agosto de 1998, iniciando minhas atividades como Agente de Segurança Penitenciária na Penitenciária II de Avaré, a qual, tive o prazer de conhecer e trabalhar com profissionais muito qualificados que foram os motivadores para desenvolvimento das minhas atividades e atribuição enquanto profissional, da melhor maneira possível. Atualmente sou docente na Escola de Administração Penitenciária na disciplina de “Processo Administrativo e Sindicância”.

Como foi seu trabalho em Avaré?
Trabalhei na Penitenciaria II de Avaré, onde fui chefe de sessão e diretor de núcleo de vários setores, sendo que tais atribuições vieram contribuir para meu conhecimento e desenvolvimento profissional em relação a assunto diversos, inerentes e ligados diretamente as atribuições de Agente de Segurança Penitenciária. Nesta mesma unidade prisional, assumi a função de Diretor do Centro de Segurança e Disciplina, em 2004, onde em 2005 fui convidado a assumir a Diretoria de Centro de Segurança e Disciplina do Centro de Detenção Provisória de Hortolândia, onde desenvolvi meus trabalhos nessa função até meados de 2006, sendo designado após como Supervisor da Equipe de Assistência Técnica da mesma unidade.

Exerceu várias atividades em sua carreira?
Sim, ainda em 2006, fui convidado pelo então coordenador da antiga Coordenadoria das Unidades Prisionais da Capital (CCAP), hoje denominada Coremetro, na função de Assistente Técnico de Coordenador (área Penal). Nesta oportunidade tive o prazer de fazer muitos amigos e conhecer a realidade da maioria das unidades prisionais de São Paulo e região Metropolitana. Tive a honra de estar por um curto período como coordenador substituto daquela região, fato que muito me honra por ter ocupado tal função, ainda que por curto período (substituto) função tão importante e de grande responsabilidade. Como na época residia em Campinas, fui convidado para assumir a função de Assistência Técnica de Coordenadoria, agora (área administrativa), onde era responsável pela analise e dar subsídios ao coordenador em relação a todos os processos licitatórios, dentre outros das unidades prisionais da Coordenadoria das unidades de Região Central do Estado. Atuando nessa função de 2008 a 2010, quando através de designação assumi a Direção Geral do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Americana, onde eu e minha equipe pudemos desenvolver um ótimo trabalho em prol da administração, valorizando o corpo funcional, assim como desenvolvendo um trabalho digno em relação àqueles que lá aguardavam suas condenações.

Como foi sua transferência para a Penitenciária Masculina de Piracicaba?
Estava a frente da Direção do CDP de Americana até meados de 2016, mas fui transferido e designado como Diretor Geral da Penitenciária Masculina de Piracicaba onde me encontro até o momento. Aqui fui muito bem recepcionado, tanto pelas autoridades como pelos cidadãos de um modo geral, sendo que, só tenho elogios a tecer a esta cidade.

No desempenho de sua atividade sofreu algum tipo de preconceito?
Não me lembro ter sofrido algum tipo de preconceito referente a minha profissão pelo fato de ter prazer no que faço e desempenhar de maneira seria e honesta minhas atribuições. A Secretaria a qual estamos subordinados tem a precípua missão de aplicar da Lei de Execução Penal, de acordo com a sentença judicial, visando a ressocialização dos sentenciados.

Qual a função do diretor do presídio?
Definindo a gestão de um Diretor Técnico III em uma unidade prisional, especificamente nesta Penitenciaria de Piracicaba, entendo que, antes de mais nada, precisamos ser humanos e humildes em tudo que fazemos, porém, tudo que fizermos deve ser feito com coração, colocar nossos esforços em todas as nossas atribuições. Grandes são os desafios, grandes são os problemas, contudo, todos os dias peço sabedoria a Deus para que me capacite no desenvolvimento do meu trabalho de maneira que, possamos, minha equipe e eu, assim como todo corpo funcional desta unidade, diga-se de passagem, servidores qualificados e capacitados, possamos desenvolver nossas atribuições de maneira digna e honrada, contribuindo com nossa parcela a este país, a este Estado de São Paulo e a esta cidade de Piracicaba, fazendo com que os que aqui se encontram cumprindo sua reprimendas saiam melhores ou menos piores do que entraram. Caso não fosse essa a visão da Direção em conjunto com o corpo funcional desta unidade como um todo, não seria possível realizar os projetos que foram desenvolvidos aqui, em apenas dois anos de funcionamento após inauguração que se deu em julho de 2016.

Quais projetos desenvolve dentro da Penitenciária de Piracicaba?
Projetos estes que podemos citar tais como, cultivo de hortaliças em uma área de plantio de aproximadamente 2.000 metros quadrados onde as hortaliças além de serem consumidas nesta mesma unidade prisional, ainda são doadas para entidades carentes da cidade de Piracicaba incluindo asilos, creches e centro de reabilitação, sendo que todo trabalho desenvolvido, plantio, cultivo e colheita e com 100 % de mão de obra carcerária.

Como surgiu a ideia de desenvolver o projeto?
Tal ideia surgiu da necessidade de abertura de frentes de trabalho aos sentenciados ocasionando com isso suas respectivas remições, além do principal, fazer com que a mão de obra carcerária leve de forma positiva benefícios, como o fornecimento de hortaliças àquela parcela carente e necessitada da sociedade conforme entidades mencionadas acima. Não podemos deixar de citar nossos colaboradores que tanto nos ajudam nessa empreitada, tais como a Sema (Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento), Solpack, IBS mudas, Rotary, dentre outras.

Como as aulas são ministradas dentro da unidade prisional?
Possuímos cinco salas de aula em funcionamento nos dois períodos (manhã e tarde), com aproximadamente 150 alunos matriculados frequentando as aulas. A escola vinculadora é a “Prof. Elias de Mello Ayres”. Escola esta que possui professores que atuam no interior desta unidade prisional, onde os sentenciados, quando agraciados com sua liberdade podem dar continuidade em qualquer escola pública visto que o conteúdo programático cumpre com o determinado pela rede pública.

De que forma são realizados os cursos no presídio?
Possuímos um curso semestral do PET (Programa de Educação para o Trabalho) com 28 alunos, além do Clube de Leitura, onde sentenciados tem acesso a nossa biblioteca com mais de 4.000 títulos catalogados. Este cursos são realizados em parceria com a Funap (Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”).

Como os ressocializandos se dedicam aos estudos? Terão novos cursos dentro da unidade?
Eles se dedicam bastente nos estudos. Importante salientar que, em 2017, 11 sentenciados atingiram a nota exigida no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e em 2018 já temos 125 inscritos. Além disso, iniciaremos em dezembro os cursos profissionalizantes de açougueiro e pedreiro através do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) com 30 sentenciados inscritos.

Os ressocilizandos trabalham dentro da unidade?
Possuímos ainda duas empresas instaladas nesta unidade prisional, com aproximadamente 100 presos trabalhando. Importante salientar que, em parceria com a Defensoria Pública estamos desenvolvendo concurso de redação com 52 sentenciados participantes. Todos os anos participamos das Olimpíadas de Matemática, sendo que este ano três sentenciados foram aprovados para segunda fase.

Qual a sua análise do jargão usado, principalmente por alguns políticos “bandido bom é bandido morto”?
Quanto a pergunta apontada quanto a conhecida frase “bandido bom é bandido morto”, discordo de tal acertiva, haja vista que nossa missão está intimamente ligada a recuperação do ser humano enquanto preso. O crime que o indivíduo cometeu na “rua” não somos nós que analisamos ou julgamos e sim o Judiciário e o MP(Ministério Público), órgãos muito respeitados por este dirigente, contudo, após suas respectivas condenações os mesmos são transferidos para esta unidade para cumprimento de suas reprimendas, sendo dado o que é de direito e cobrado o que é dever dos mesmos.

Quais são seus planos na carreira?
Ainda tenho algum tempo para findar minha carreira, mas enquanto estiver à frente de uma unidade prisional farei o meu melhor. Inúmeras são as dificuldades e desafios, mas desde o primeiro momento em que ingressei nessa carreira sempre me dispus a dar meu melhor, a contribuir para recuperação, reeducação e /ou ressocialização do homem preso. Enquanto estiver no desempenho de minhas funções o farei de forma digna e honrada sempre trabalhando de forma honesta e justa.

Gostaria de participar de projetos sociais?
Tenho como pretensão futura desenvolver projetos sociais voltados a atenção à crianças e adolescentes, principalmente aqueles que se envolvem com drogas ou que enveredam para vida do crime. Entendo que devemos contribuir para que sejam desenvolvidas políticas públicas nesse sentido para que possamos dar dignidade a essas pessoas e integrá-las a sociedade como pessoas conscientes e cumpridoras dos seus deveres enquanto cidadãos de bem. Tenho vários exemplos aqui de presos que foram colocados em liberdade e estão ganhando seu “pão” de forma honesta. Tivemos notícias de que um egresso conseguiu emprego de cabeleireiro após participar do curso profissionalizante de cabeleireiros que temos na unidade, curso este, ofertado de forma voluntária por uma de nossas colaboradoras, a senhora, Denize Junqueira, da “Art Hair”, escola de cabeleireiros aqui de Piracicaba.

Quais são suas atividades fora do trabalho? Gosta de leitura ou aprecia outras culturas?
Fora do trabalho me dedico a atividades físicas, artes marciais, academia, dentre outras, mas o que mais prezo é estar com minha família. Quando possível realizo algumas viagens ou qualquer outra forma de atividade que nos faça bem. Leitura, programas, cinema etc. Quanto a leituras tenho alguns autores que gosto muito de ler seus trabalhos, tais como Augusto Cury, João Guimaraes Rosa, Cora Coralina dentre outros, e também assuntos jurídicos, mas o principal é o livro dos livros, a Bíblia. Aprecio muito conhecer culturas de outros países, onde em viagens puder ter o prazer de conhecer alguns países da América do Sul, tendo como projeto futuro conhecer Europa.

Quem são suas principais referências pessoais?
Agradeço a meus pais, que não mais aqui estão, a minha esposa, e minha equipe, todo corpo funcional desta unidade e aos meus superiores que confiam no meu trabalho. Entendo que somos efêmeros e, nesta passagem chamada vida, nada levamos, mas sim, deixamos legados e bons exemplos. Portanto, vivamos da melhor maneira possível, visto ser breve. Como Cristo passou por aqui e mais serviu do que foi servido, façamos isso. Tenhamos convicção do que somos e do que queremos e façamos tudo com o coração.

(Cristiani Azanha)