Praça Central é surpresa artística

Arquiteto defende que na Praça José Bonifácio seja exacutado um projeto à sua grandeza e importância (Foto: Claudinho Coradini/JP)

O rio-pretense Wa lter Naime, 85 anos, veio para Piracicaba com apenas um ano de idade. Filho único do casal Nair Aidar Latif e Jorge Naime, ele estudou o antigo ensino primário na escola Bom Retiro, no Arraial São Bento, o Ensino Médio na escola Sud Menucci e se formou arquiteto pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanimso) da USP (Universidade de São Paulo).

Ele se casou com Heloísa Helena Azanha Naime (já falecida) e é pai de Walter Naime Filho, Marcel, Patrícia e Mariana. Em Piracicaba, atua como arquiteto e foi secretário de Obras da prefeitura por duas vezes, uma no governo de Francisco Salgot Castilon e a outra no de João Herrmann Neto.

Como profissional e como piracicabano de coração, Naime tem acompanhado há anos as questões que envolvem a praça José Bonifácio, localizada no ‘coração da cidade’. Nesse sentido, ele escreveu vários artigos e elaborou um projeto que transforma o local em um centro comercial ao mesmo tempo que atende às demandas do trânsito na região central e mantém as características de um dos cartões-postais piracicabanos.

Nesta semana, ele recebeu a reportagem do Jornal de Piracicaba em seu escritório no Centro da cidade, para o Persona.

Durante a entrevista, o arquiteto, urbanista e escritor membro da Academia Piracicabana de Letras, mostrou alguns dos artigos que têm a praça como tema central. O material traça uma linha do tempo com os problemas, propostas e a consequente falta de solução para a ‘cittá Del cuore’ como carinhosamente ele se refere à praça.

 

Por que as intervenções na praça José Bonifácio sempre causam polêmicas e geram discussões?

Porque ela não foi resolvida.

Em sua opinião, a praça é uma questão não resolvida?

Sim, eu acho. Os problemas surgiram, deixa monumentos, retiram monumentos, abre trânsito, fecha trânsito. Aplauso, criticas e análises acompanharam o processo de desenvoltura das obras, ocorrendo a participação de seus futuros usuários, no julgamento do que poderia ser bom ou ruim, de estar certo ou errado, isso durante o desenvolver das obras, o que está coerente cronologicamente, pois o povo só consegue analisar coisas palpáveis, mais reais, não cabendo a ele faculdade de julgar as ideias em estágio de projeto. Isto posto, é instalado um binário de dificuldades que incide sobre o poder político-administrativo. De um lado a manutenção sem mudança do projeto do autor. De outro, certas posições claras de problemas de adequação do projeto.

O que o senhor propõe, como arquiteto e urbanista para solucionar o problema da praça José Bonifácio?

Proponho gastar matéria cinzenta (aponta a fronte com o dedo indicador). O que foi colocado de matéria bruta, colocar de matéria cinzenta. Projetar alguma coisa, estudar bem e aprofundar nos estudos e o dinheiro que estiver à disposição se colocasse para se fazer um projeto ou estudo aprofundado para o futuro, não para agora.

O senhor tem um projeto desenvolvido para utilização da praça, no que consiste essa proposta?

Uma proposta com diagnóstico que apresente solução e que possa ser uma surpresa artística, de bom gosto e conteúdo para mudar a cidade. A nossa proposta de conceito, teria um escopo para se propor um projeto urbano da praça. A proposta formal arquitetônica se apresenta para implementar as ideias e torná-las visíveis para estudos. Para que isso aconteça, há de se motivar a população e encaminhar o seu desejo, às autoridades, produzindo a vontade de realização.

Na prática, como seria o projeto de sua autoria?

Ultimamente propomos um anteprojeto com a somatória de conceitos para inovação e soluções procurando um caminho novo para os problemas velhos. Vamos parar de gastar dinheiro em retoques. Os recursos, que porventura se dispuser, deverão ser gastos com material cinzentaem um projeto arrojado por meio de PPP (Parceria Público Privada), sem usar dinheiro público. Apresentamos – não uma proposta de projeto formal – mas de uma somatória de conceitos básicos envolvendo sistemas urbanos de composição em que foram equacionados, os problemas de estacionamento, de execução com soluções do espaço à altura da cidade dando vigor ao que é o coração da nossa Piracicaba. O projeto prevê a construção de um shopping com 76 lojas no piso superior (térreo da praça) e outras 20 lojas no inferior e 800 vagas subterrâneas de estacionamento. A entrada para a garagem subterrânea pela rua São José. A praça manteria sua arborização e outros elementos.

O senhor acredita que esse projeto seja executável do ponto de vista político e econômico?

Quero que o que disser aqui seja assimilado como discussão proposta de arquitetura e urbanismo, não envolvendo a política de uma cidade da grandeza de Piracicaba, pois só os dirigentes das cidades devem saber onde dói, na saúde de um município. Assim, o que quando e como deve ser feito, deve ser considerado pelas autoridades consituiídas. O que venho apresentar, no que tange a uma praça, seja em artigos publicados, sejam em ideiais, devem ser levadas em nível de proposta com visão de problemas atuais, com o objetivo de discussão de futuro, o qual parece estar muito atrasado em relação àquilo que é a imagem do cuidado e do desejo de como deveria ser a praça. Acreditamos que, quando uma autoridade se sente satisfeita em alegar que a nossa praça central é bonita, é porque suas preocupações anestesiaram o seu senso estético. Talvez, até pudesse aceitar que a nossa praça central é bonita como está, mas acredito que nela se instalou um grande problema em fazê-la mista com a ocupação de comercio ambulante. Sem levar o mérito de se conservar os ambulantes ali, estamos crentes que é devido realizar tecnologias para expressão desse comércio e demais sofisticados, trazendo para ali atividades além das comerciais, as culturais, artísticas, biológicas, plantas, aves, insetos, de ensino, de folclore, etc, cuidadas por entidades como a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba), Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), Unimed, APL (Academia Piracicabana de Letras), etc. Não queremos que esse comércio seja extinto com suas barracas que nos trazem sensação de um mercadinhoi. Deve se estudar a possibilidade de um comércio para manter a atração da sua população. Entrará aqui na tese da ‘falta de vontade política’ é uma interrogação, pois apesar de saber de sua ocupação aceita pela municipalidade, alguma coisa está faltando para enfrentá-la humanamente, para retirar essas barracas que enfeiam o ambiente, com a devida desculpa a seus proprietários que se defendem por direitos adquiridos.

Apesar de o senhor preferir não abordar a questão política, mudanças na praça passam pela questão política, correto?

Só dela, ela é que decide. É como eu falei, eles sabem onde dói, quando, como e onde.

Todas as vezes que se faz intervenções na praça José Bonifácio, gera-se muita discussão. Como o senhor avalia essa situação?

São resultados da própria condição humana e resultado social da cidade. Por exemplo, você tem uma praça que não tenha ordem de cuidar e aí chegam pessoas que representam medo, falta de higiene ou coisa parecida, isso são fases que acontecem, agora há meios de você prever ou proteger essas situações.

Da forma como a praça está hoje, desde alguns anos, podemos falar em negligência por parte do poder público?

Eles priorizam outras coisas. Não é negligência pelo menos para se defender, eles têm argumentos, têm coisas mais importantes, agora se é negligência ou não, cada um que julgue como quiser.

E o projeto de sua autoria converge para essas áreas?

Ele atende pelo menos o escopo daquilo que é necessário e é uma diretriz a ser seguida. Se por meio desse escopo se propuser alguma obra artística de algum colega ou seja, de quem fosse, seria um sucesso e uma transformação muito forte numa época em que se exige coragem.

O senhor consegue apontar qual é o principal problema hoje, da praça José Bonifácio?

Falta de vontade política em discutir a praça.

 

Beto Silva
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