Prazeres Furtivos da Vida

 

Plinio Montagner

 

É improvável, senão impossível, que o ser humano consiga definir e decidir qual é a melhor fase da vida. Da infância à decrepitude, em todas existem momentos bons e maus.
A maior parte desses assuntos que estão além da realidade sensorial não é trabalho adequado às pessoas normais. Por isso convém que o homem aceite sua incompetência e a possibilidade da finitude e da infinitude do tempo e da vida.

Como era o mundo antes do nascimento do universo e do homem, o que virá depois da morte, só pode ser desvendado por seres dotados de onisciência e de onipotência; são fenômenos incognoscíveis transcendentes às limitações dos humanos. Os animais não se preocupam com essas questões, e não é por isso que sofrem mais ou vivem menos.

Antes da era cristã, Epicuro (341-271) filósofo grego, anunciava que felicidade e sabedoria se juntam; basta que os homens sejam serenos, pratiquem o bem; evitem a dor e as perturbações da mente; não temam a vida nem a morte, cinjam os prazeres o corpo e da natureza, convivam harmoniosamente com os amigos, não abandonem a esperança, sejam gentis, que amem e sejam amados; pois os homem jamais extirparão os males e os mistérios do mundo.

Para Epicuro (341 a.C 270 d.C) a felicidade é um estado de espírito que pode perdurar um segundo, um minuto ou uma vida.

Sócrates (399 a.C 469d.C) anunciava um conselho para a felicidade: “Conhece-te a ti mesmo” – uma ferramenta que indicam os limites do corpo a serem respeitados. Em contrapartida, milênios depois, duas recentes frases opostas anunciadas pelo escritor francês Marcel Proust (1871-1922):

– “No corpo de um velho sempre continua vivo um feliz adolescente” E outra:

– “A ambição embriaga mais do que a glória”. Daí, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

No filme americano “Perfume de Mulher”, exibido em 1992, o ator Al Pacino interpreta um ex-militar cego que contrata um jovem para ajudá-lo a ter um fim de semana diferente, pois o suicídio era o seu plano.

O filme possui três cenas antológicas: Pacino cego dirigindo a Ferrari, a dança do tango e o discurso do personagem no tribunal da universidade.
Pacino e seu acompanhante Chris O’Donnell estavam instalados em um luxuoso hotel de Nova Iorque. Numa noite de festa, um perfume revelava a presença de uma dama solitária a uma mesa próxima.

Conduzido por Charles, aproximam-se da jovem (Gabrielle Anwar) e a tira para dançar.
– Desculpe, senhorita, podemos nos sentar com você? Parece meio negligenciada…
– Estou esperando alguém.
– Imediatamente?
– Não, mas a qualquer momento meu noivo vai chegar… É um minuto.
– Um minuto? Mas em um minuto se vive uma vida.
Esse argumento a convence, e a conduz a um passo de um tango (*).
No final da dança voltam à mesa em silêncio e em tom de despedida. O noivo aparece e apressado a leva a outro compromisso, deixando um leve toque de indiferença.

Se não temos certeza da eternidade, que aqui tenhamos o melhor da vida nos momentos de paz e de ternura, e jamais nos privar dos gostos e prazeres possíveis em qualquer idade ou momento.

(*) “Por Uma Cabeza” (1935) Letra de Carlos Gardel e música de Alfredo de Pera.