Precisamos falar sobre suicídio

Há um acordo tácito entre jornais e imprensa em geral para não se falar ou divulgar casos de suicídio, porque em tese não se deve incentivar essa prática. Contudo, ela existe e vem crescendo ou aparecendo mais, o que já motivou mobilizações como o Setembro Amarelo, uma campanha de prevenção. Em qualquer rodinha de conversa sempre é possível ouvir uma história de um parente ou um amigo que cometeu suicídio para espanto de todos.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) de Piracicaba – talvez um dos únicos órgãos focados no problema – recebe em média 2.000 ligações por mês de pessoas que buscam apoio para a solidão, depressão e o desespero. A clientela vai de adolescentes a idosos, mas sempre com a mesma reclamação: sem ninguém para conversar.

É fato que o suicídio é uma medida extrema para quem busca alívio para os sofrimentos que vão muito além da compreensão de quem vê ou está perto. Como já dizia Caetano Veloso “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. O grande problema é que essa dor pode ganhar proporções de desespero e – sem o cuidado e acompanhamento adequados – levar o ser humano a uma tentativa de saída drástica, condenada por todas as religiões. Num passado não muito distante, a igreja condenava o suicida ao sofrimento eterno. Mais uma vez, ao invés de acolhimento e aceitação, a crítica e o peso para os familiares que ficavam.

Precisamos falar sobre o suicídio, suas causas e explorar todas as possibilidades de apoio, sejam medicamentos, terapia convencionais e alternativas, grupos de apoio e, acima de tudo, o desenvolvimento de um trabalho de apoio às famílias e aos pacientes, que já tentaram pôr fim à propria vida e podem voltar a tentar das mais diversas maneiras. É claro que não há uma receita ou solução mágica, contudo o debate, a reflexão e a conversa talvez possam oferecer uma chama, nem que muito tímida, para que esse problema não seja mais varrido para baixo dos tapetes e silenciado por nossa covardia.

A clientela vai de adolescentes a idosos, mas sempre com a mesma reclamação: sem ninguém para conversar.

( Alessandra Morgado)