Presidenciável sem partido

partido Claudinho Coradini/JP.

Morador de Piracicaba desde os três meses de vida e com cinco tentativas frustradas de ser prefeito, Trindade fala sobre a candidatura apartidária à presidência da República

Com 60 anos de idade, o aposentado Wilson Trindade mantém o ideal de ocupar um cargo no Poder Executivo. Depois de cinco tentativas frustradas de ser prefeito de Piracicaba, onde reside desde 1958, quando tinha três meses de vida, o jauense filho do casal Maria Aparecida e Domingos João da Trindade quer agora mudar a política nacional e declara guerra aos políticos corruptos. Para isso, o filho mais velho da família de sete irmãos e pai do autônomo Wilsinho Trindade, 26, e da engenheira Cristiane Trindade decidiu se lançar candidato à Presidência da República nas eleições de outubro.

Sem partido, Trindade faz parte do grupo de candidatos avulsos apoiados pela Unajuf (União Nacional dos Juízes Federais) de 1º Grau. Foi no último dia 4 que ele teve aprovada a candidatura por parte da instituição, durante convenção que reuniu interessados em se candidatar de forma independente a qualquer cargo político. A reunião foi presidida pelo juiz federal Eduardo Cubas. Atualmente, Trindade aguarda o deferimento de sua candidatura junto ao TSE (Tribunal Superior eleitoral). Enquanto isso, o autodeclarado “caçador de corruptos” se considera um “candidato sub judice” e comemora a aprovação de seu nome entre os aprovados durante a convenção da Unajuf. Nesta entrevista ao Jornal de Piracicaba, ele fala sobre a trajetória de vida e a sexta campanha eleitoral.

Em quais anos o senhor se candidatou a prefeito de Piracicaba?
Foram cinco vezes. Em 1992, 1996, 2000, 2004 e 2012.

Por que tentou se candidatar a prefeito?
Sempre batalhamos algo diferente e ir contra a mesmice. Buscamos sempre partidos novos, tentando tirar do poder o pessoal que já está no poder. Na época aqui em Piracicaba, sempre deu o PT, PSDB e PMDB. Nós não temos nada contra a pessoa de cada um desses, mas nós temos a ideia de mudarmos e buscarmos novas pessoas, valorizarmos as pessoas, e tirar os caciques, porque a maioria dos partidos é feito de caciques. Tanto é que nós estamos saindo a candidato a presidente da República apartidário, avulsos, independente. Nós vimos nos partidos políticos muito casuísmo, muito mercenarismo, arrogância. Eles não querem o bem do povo. Neste ano de 2018, serão R$ 2 bilhões do fundo eleitoral para patrocinarem vergonhosamente os 35 partidos políticos. Eu sempre saí candidato buscando o novo, tentando mudar alguma coisa. Nunca fiquei em último lugar, perdi sempre para os maiores.

Tirou alguma lição destas cinco vezes em que foi candidato a prefeito em Piracicaba?
A cada dia a gente aprende mais com as pessoas, com as que gostam de você, com as que são falsas. Você pega mais experiência no dia a dia. Eu fui funcionário público por 40 anos. Você aprende a conhecer as pessoas de cada bairro, os líderes. Então, eu acho que aprendi muito a cada ano, sempre aumentando o número de amigos.

Lembra-se de quantos votos recebeu em cada eleição?
Em 1992, eu fiz 5.200 votos, daria para eleger dois vereadores.

E o número de votos nas demais, foi crescendo gradativamente?
Infelizmente, não. Vai aumentando os partidos, naquela época era um X de partidos, hoje, por exemplo, são 35. No próximo, serão mais 30, tudo em busca do fundo financeiro. Então, infelizmente, quem está neste contexto polariza e os pequenos ficam sem estrutura e morrem à míngua.

Chegou a ter a curiosidade de conhecer o perfil do seu eleitorado?
Eu pensava em um slogan — pobre vota em pobre —, mas, pelo jeito, em Piracicaba não tem muito pobre (risos). Porque poucos votaram em mim. O meu eleitor é o que leu mais, é mais consciente. Porque, infelizmente, para a classe baixa, eles (candidatos) vão lá, dão cesta básica, jogo de camisa, pagam o churrasco. Eles compram o eleitor. Era assim e continua assim.

Existe o chamado voto de protesto. Acredita que esses eleitores que votaram no senhor tenham feito isso por protesto?

Eu acho que foi consciente. Se fosse protesto, eu teria feito uma votação melhor ou até ganho. Acho que foi consciente e até buscando novas pessoas e novos valores.

Quais foram seus principais projetos nessas campanhas a prefeito?
Eu sempre bati nos corruptos de Piracicaba e do Brasil. Nos programas de rádio e de televisão, sempre bati. Sempre fui contra as pessoas que aproveitam do poder. Como eu trabalhei na prefeitura durante 40 anos, eu sei que existe o desvio de verbas, o protecionismo. Nós estamos sempre na defesa do povo e defendemos a cultura, o esporte, a saúde principalmente, porque a nossa saúde deixa muito a desejar.

Piracicaba completa 251 neste mês. Se o senhor pudesse dar um presente para cidade, qual seria? E para o povo?
Eu mandaria fazer um cadeião para prender todos os corruptos da cidade.

Em algum momento da sua carreira política, tentou ser vereador em Piracicaba?
Por incrível que pareça, eu recebi muitos convites e eu até cheguei a pensar, nessa última eleição, mas acabei saindo candidato como prefeito mesmo.

Acredita que seria mais coerente tentar ser vereador, mostrando seu trabalho como parlamentar, e depois pleitear o cargo de prefeito?
Tem lógica e coerência, mas como eu sempre quis buscar algo diferente e ter a oportunidade de falar coisas que o candidato a vereador não poderia… O candidato a vereador, por exemplo, não pode participar de debates e, como prefeito, eu sempre participei dos debates, tive acesso para falar as verdades em prol do povo. Mas eu tenho uma novidade para você. Na próxima eleição, eu sairei a vereador. Já está definido pelos meus amigos, nossas equipes e todo esse trabalho que nós fizemos, talvez ao inverso, vai valer porque agora nós já temos a popularidade.

Nestas eleições de 2018, decidiu sair candidato a presidente da República. O que o motivou a pleitear este cargo?
Um é prisioneiro, o Lula, e está em primeiro lugar. O Bolsonaro, que vem em segundo, tem muita rejeição das mulheres, dos negros, dos lésbicos (sic), em geral, até pelas entrevistas equivocadas que ele tem dado. A gente nem acha que é equivocado, há pouco tempo eu fiz parte do PSL, fui presidente, e nós vimos que o Bolsonaro não é tudo isso de mau que falam, mas, infelizmente, a imprensa faz a imagem dele dessa forma.

Acha que o Bolsonaro é um personagem?
Não. Eu acho que ele é autêntico, tanto que às vezes ele peca por ser autêntico demais. Eu acho ele um cara radical, um cara na dele. Eu sou mais maleável. Nós temos que tratar bem todos os seres humanos, as mulheres, os negros, os lésbicos (sic), os travestis, todos os seres humanos. Você pode não seguir e não concordar com o que ele faz, mas você tem de dar apoio, não precisa andar com a pessoa. Então, o que me levou a sair presidente é, principalmente, combater a corrupção. Nós temos 70 mil políticos ganhando de uma forma ou de outra, comissionados, 39 ministérios, temos que reduzir para 15. Temos o auxílio-paletó, auxílio-moradia, um senador ganha R$ 145 mil, um deputado ganha R$ 90 mil, são muitos cargos, para muita gente. Tem que cortar os salários de todo mundo. Estou me intitulando de Wison Trindade, presidente da honestidade, e Wilson Trindade, caçador de corruptos, porque nossa meta é tentar diminuir a corrupção no Brasil. Muitos falam em combater várias coisas, mas eles não falam a verdade. Eu coloquei na proposta que, como primeira medida, eu cortaria meu salário (presidente) em 60%. O político tem de dar o exemplo.

Na sua apresentação consta que o senhor será o exterminador de todos os corruptos e, também, que incentiva a pena de morte e prisão perpétua. Isso seria para os corruptos ou todos os criminosos em geral?
Não. Só para os corruptos. O corrupto é preso, mas muitas vezes fica melhor que nós. Precisamos bater, mandar prender e ter pena de morte, sim, para corruptos.

O ex-presidente Fernando Collor também foi eleito se promovendo como o “caçador de marajás” e não chegou a concluir o mandato. Como o senhor diferencia o governo dele com o que o propõe realizar se eleito?
Só que ele mostrou, nos primeiros dias, ser diferente e ele congelou a poupança, bateu contra o povo. Eu vou cortar metade do meu salário e fazer decretos que beneficiem o povo, não prejudiquem. O Collor fez totalmente o contrário e, na verdade, ele não foi caçador de marajás coisa nenhuma, ele foi amigo dos marajás.

Quais suas propostas para a economia nacional?
Primeiramente, nós vamos cortar ministérios. Hoje, são 39. Nós temos que colocar pessoas sérias nos ministérios, principalmente nos que envolvam verbas públicas, por causa dos desvios de verbas. Não temos ainda um projeto para economia.

O que projeta para setores como saúde?
Todo ser humano, todo brasileiro merece ter uma saúde verdadeira, ter atendimento gratuito real. Hoje, é tudo fingido. Eu vejo por Piracicaba. Você, para marcar uma consulta, leva três meses. A pessoa está morrendo no pronto-socorro e fica quatro dias para depois ter uma vaga no hospital. Meu projeto é parar com o desvio de verbas e cuidar da saúde e da educação. E empregos também. São 14 milhões de desempregados.

Alguém te ajuda na construção de um plano de governo para o país, com as metas de cada setor?
Nós montaremos uma equipe. Estamos alinhavando um grupo com pessoas do esporte, da cultura, um de cada área. Temos vários advogados, vários médicos, contadores, para montarmos um projeto para o Brasil. E vai ser bem diferente dos que estão aí.

A campanha eleitoral deste ano terá 45 dias. Como pretende trabalhar nesse período e quais cidades pretende visitar?
Na verdade, a gente vai usar a internet, porque nós somos apartidários e não temos estrutura financeira nenhuma. Graças a Deus, nós não temos o fundo partidário do qual somos contra. Vamos fazer uma campanha na raça e, principalmente, pela internet. Não temos como fazer algo diferente e viajar de avião. Vamos fazer algo simples e, ao mesmo tempo, o máximo possível.

Pretende participar dos debates com os presidenciáveis?
Se nós formos convidados, sim, com certeza.

Já acompanhou, pela sua idade, uma série de presidentes ao longo da história do Brasil. Tem algum em que se espelhe para governar o pais caso eleito?

Tem gente boa. Eu quero, neste aniversário de 251 anos de Piracicaba, homenagear o cara que deu o nome à cidade. Piracicaba se chamava Vila Nova da Constituição, depois, em um decreto do vereador Prudente de Moraes, que veio de Itu para Piracicaba aos 20 anos, mudou o nome. Ele foi advogado, senador, governador e depois presidente, em 1894. Foi o primeiro presidente civil do Brasil. Então, me espelho muito nele, porque estou sendo o segundo piracicabano a concorrer à presidência da república e, por coincidência, o meu estúdio, a minha casa, também são na rua Prudente de Moraes, bem no centrão da cidade.

O que o piracicabano pode esperar do senhor enquanto Presidente da República?
Pode esperar tudo de bom, tudo de melhor. Vamos governar de Piracicaba para o Brasil. Temos de pensar na nossa casa, no nosso quarteirão, porque isso é o Brasil, nós somos o Brasil. Então, pode esperar solidariedade, apoio verdadeiro, perseguição e cadeia para os corruptos e não idolatrar o corrupto. Nós temos de banir o corrupto. Hoje, vemos que o mundo está assim: o cara quanto pior é, mais é idolatrado. O político tem de ser cobrado, não idolatrado. Ele ganha para trabalhar e não ser um ídolo. Ele ocupa um cargo, ganha muito bem e muitas vezes só enrola. Então, o que o Brasil pode esperar do Wilson Trindade é, pelo menos, honestidade, o que precisa para governar Piracicaba e o Brasil, o que ultimamente não está tendo nem em Piracicaba nem no Brasil.

Caso seja eleito presidente, como pensa a relação do Brasil com os demais países?
Penso que tem de ser da melhor maneira possível. Falaram tanto do Trump (Donald Trump, presidente dos Estados Unidos), que ele iria declarar guerra, essas coisas… Acho que tem de ser maleável e fazer tudo de bom e do melhor. Hoje, existem vários tratados e estamos levantando toda essa questão de cada ministério.

Pretende aderir às vaquinhas virtuais para ajudar na captação de recursos para a campanha?
Sim, nós vamos fazer também. Cada um ajuda como puder. Eu acompanho o trabalho de todos eles (candidatos) e eles têm uma estrutura pesada e nós temos de buscar esse lado.

Qual mensagem deixa para os eleitores brasileiros?
Eu gostaria que Deus orientasse cada um de nós e que o povo não votasse mais nos mesmos, nem em fichas sujas. O povo precisa aprender a ter mais hombridade, dignidade e votar nos fichas limpas e, principalmente, não reeleger mais ninguém, pois a reeleição é que causa a corrupção, e que os trabalhadores e os assalariados pudessem ser bem votados e não só os caciques e os milionários que estão no poder há anos. Então, que os brasileiros e piracicabanos tenham a consciência da mudança e votassem nos candidatos honestos e não nos cleptomaníacos.

 

(Beto Silva)