Quantos muros mais?

O muro que divide o bairro Santa Rita em dois é mais que uma obra de construção civil ou uma defesa para as famílias mais afortunadas que conseguiriam pagar para morar num condomínio, Já o chamaram de ‘muro da vergonha’ entre outras adaptação nada elegantes, São dois lados sem um certo e outro errado, porque dicotomia só empobrece e enfraquece nossa sociedade. Todos os lados têm direitos e merecem ser ouvidos e suas opiniões devem ser consideradas, porque conviver é atrito, desgaste, adaptação e acertos constantes. Se tem um muro é porque também há medo da violência física e patrimonial. Mas, do outro lado também existem razões e argumentos merecedores de espaço e garantias. Leia mais sobre o caso na matéria de Beto Silva publicada na página A 3 desta edição. Na caso do Santa Rita, o muro foi físico e a Justiça foi o caminho da mediação, mas existem outras separações não tão claras ou objetivas, que podemos chamar de preconceitos, dogmas, verdades absolutas ou teimosia mesmo.

Nesta edição, uma ‘verdade’ caiu antes mesmo do muro, com a visita de um menino com limitações nos movimentos e dicção ao Batalhão da Polícia Militar. Gustavo de 10 anos foi convidado para conhecer a sede da Corporação, porque seu pai gravou um vídeo dele brincando com policiais do Tático, num semáforo da cidade. O pai estava agradecido pela atenção que foi dada ao seu menino, que parece ser fã das viaturas policiais. Quantos pais e policiais teriam essa sensibilidade? Bom, acredito que todos por que um pai pode ser policial e vice-versa.

É fácil colocar rótulo no outro e esperar que atenda às nossas expectativas, o que não acontece e nos permite lamentar a sorte e achar defeitos na roupa, no sotaque, na origem, no trabalho ou na família de tudo aquilo que não nos espelha. Graças a Deus, os espelhos quebram um dia.

O muro que colocamos para classificar as pessoas não costuma ser justo ou adequado, mas insistimos no erro reincidentemente com discursos desgastados, opiniões quadradas e conclusões obtusas, que devem fazer filósofos revirarem na cova de desespero. Muros só existem para serem derrubados com inteligência, sabedoria e amorosidade, como os PMs fizeram com o menino e como o menino fez com os policiais.

É fácil colocar rótulo no outro e esperar que atenda às nossas expectativas, o que não acontece e nos permite lamentar a sorte e achar defeitos na roupa, no sotaque, na origem, no trabalho ou na família de tudo aquilo que não nos espelha. Graças a Deus, os espelhos quebram um dia.

(Alessandra Morgado)