Que Chico Buarque de Holanda nos resgate!

 

(David Chagas)

Não esperava tanto. Mensagens, mais de 200 postagens, dez compartilhamentos. O artigo anterior em que me valendo de Pessoa, de Caetano e de Rosa, reafirmei que pátria e língua são, na verdade, uma só coisa, para um só amor. Os senhores do poder precisam entender que é preciso dar a seus professores esta orientação continuada para que não nos envergonhemos das manchetes que perambulam hoje pelos jornais sobre o ensino.

Lembro-me de que, na escola primária, as professoras insistiam em ensinar gramática. Gostava, mas não entendia o porquê daquilo tudo. Verbos para ser decorados. Artigos, preposições, conjunções, tudo o que, mais tarde, Guimarães Rosa usava com cuidado, suprimindo o que lhe parecia excesso. Histórias, não se contavam histórias. Algumas das professoras sequer demonstravam respeito e carinho por seus alunos, exercício de linguagem imprescindível para fazer da aula um lugar de prazer. Ou Barthes e Lacan ter-se-iam equivocado? Até mesmo em aulas de religião a gramática fazia escola, tal o conservadorismo de quem ensinava. Nada de texto e música e teatro e arte chegavam às salas onde se ensinava português.

Só no ginásio, os olhos da meninada se abriram para a verdade escondida nos livros. Éramos jovens para entender que “literatura não é luxo. É base para a construção de si mesmo”. Faltou-nos quem estimulasse a isso e permitisse que todos fossem capazes de sentir a luz que brotava das brochuras. Quando ainda lia os românticos, Cida Bilac, inesquecível professora, provocou-me o interesse por Zé Lins do Rego, de Graciliano e dona Raquel antes de chegar a Guimarães Rosa. Sempre que indicava um e outro autor, tratava-os com intimidade, aproximando-nos deles para uma maior aproximação do universo cultural, espiritual e poético do autor.

Quanto me ressenti, anos mais tarde, quando encontrei Heloisa Vilhena de Araújo, diplomata, doutora em Literatura, estudiosa de Guimarães Rosa e seu “Roteiro de Deus”, sem poder ao menos falar destas descobertas para dona Cida, maltratada pela velhice de forma impiedosa, injusta e devastadora.

Dona Cida foi quem me afastou da Ciência do Direito a que me entregaria, fazendo-me entender que deveria ser professor. No primeiro ano do curso de Letras, já lecionava para alunos com igual ou mais idade que a minha, tratando de ajudá-los a fazerem do texto o seu caminho no reconhecimento do universo da língua.

Hora de perder a vergonha e explorar a modalidade oral da língua declamando, cantando, lendo em voz alta, trocando conversas em sala de aula sem bloqueio algum que provocasse timidez na apresentação de relatos pessoais ou no exercício de contar histórias de suas experiências. Um passo mais e penetrávamos juntos os textos dos grandes escritores para, neles, irmos além do nosso próprio horizonte.

Quanto me orgulho hoje quando os encontro em suas diferentes profissões e vejo o que isso causou. Quanto me alegro ao encontrar, nas redes sociais tão em moda, textos bem escritos, relatos preciosos de seus dias. Quanto sou grato quando, ao lerem um texto meu como o último publicado aqui, reproduzem ou reagem, sem trumbicar, revelando saber que gramática é instrumento para organizar ideias e respeitar o bem falar da língua.